Minha relação com a escultura não começou com o biscuit, mas muito antes, ainda na infância, porque meu pai era escultor e trabalhava com materiais muito diferentes entre si, como ossos, argila, massa epóxi e madeira. Cresci próximo ao gesto de transformar matéria em forma, observando como materiais de naturezas distintas podiam ser cortados, retirados, acrescentados, modelados e transformados pelas mãos de alguém até adquirirem uma nova presença. A escultura, portanto, já fazia parte da minha história antes mesmo que eu pudesse imaginar que, muitos anos depois, ela também ocuparia um lugar tão importante na minha própria expressão artística.
Por motivos pessoais, durante muito tempo recusei esse caminho e escolhi me afastar dele. Não considero necessário explicar aqui as razões desse afastamento, mas reconhecê-lo é importante para compreender o significado que a escultura possui hoje para mim, porque aquilo que eu havia recusado não desapareceu da minha história e, muitos anos depois, encontrou uma possibilidade de retorno através de outro artista e de uma matéria que até então eu não conhecia dessa maneira.
Foi através de Dione Art que pude reencontrar a escultura, e talvez essa seja a maneira mais precisa de explicar sua importância na minha trajetória. Dione não colocou a escultura pela primeira vez na minha vida, porque ela já estava presente desde a infância através do meu pai, mas foi por suas mãos e por seus ensinamentos que consegui me aproximar novamente de algo do qual havia escolhido me afastar.
Esse reencontro aconteceu através do biscuit, também conhecido como porcelana fria, uma massa de modelagem que endurece ao ar e oferece grandes possibilidades para a construção de formas, volumes, expressões, texturas e detalhes. Embora ainda seja frequentemente associado ao artesanato decorativo, vejo no biscuit um material contemporâneo com enorme potencial escultórico, capaz de receber trabalhos de grande complexidade e de dialogar com diferentes materiais, técnicas e acabamentos. Foi nele que encontrei a matéria com a qual hoje consigo dar corpo às esculturas deste projeto.
Tive a honra de aprender com Dione e de integrar a primeira turma de Criadores de Criaturas Mágicas e também a primeira turma de Despertar das Criaturas Mágicas. Faço questão de registrar os dois cursos porque acredito que reconhecer aquilo que conseguimos realizar também significa reconhecer os conhecimentos que nos foram transmitidos e as pessoas que fizeram parte desse percurso. Muito do que hoje minhas mãos conseguem realizar em biscuit devo aos ensinamentos de Dione, à sua experiência e, principalmente, ao seu método de ensino. A técnica de modelagem que utilizo tem nesse aprendizado sua base.
Essa distinção também é importante para compreender este projeto. A Investigação Encarnada, apresentada em outra página, diz respeito ao processo de investigação e criação que desenvolvo para este trabalho; ela não é a origem da minha técnica de modelagem. A maneira como modelo o biscuit foi aprendida a partir dos ensinamentos de Dione, e faço questão de deixar essa origem registrada com a mesma transparência com que procuro apresentar as demais referências utilizadas no projeto.
Existe algo especialmente significativo nesse percurso, porque a escultura entrou na minha vida durante a infância pelas mãos do meu pai, desapareceu por algum tempo das escolhas que eu desejava fazer e retornou muitos anos depois pelas mãos de outro artista, agora através de uma nova matéria. Meu pai faz parte da origem da minha relação com a escultura, enquanto Dione ocupa um lugar fundamental no meu reencontro com ela. São lugares diferentes de uma mesma trajetória e ambos pertencem à história das mãos que hoje constroem este projeto.
Quando observo esse caminho, percebo que antes do biscuit existiram os ossos, a argila, a massa epóxi e a madeira trabalhados pelo meu pai; existiram a infância e também o afastamento. Depois veio o encontro com Dione, vieram Criadores de Criaturas Mágicas e Despertar das Criaturas Mágicas, veio o aprendizado da modelagem em biscuit e, através dele, a possibilidade de retornar à escultura por um caminho que eu já não imaginava percorrer.
Por isso, falar sobre biscuit neste projeto é também falar de gratidão. Tenho por Dione Art, meu mestre, profundo carinho, respeito e reconhecimento. Ter integrado a primeira turma de seus dois cursos faz parte da história deste projeto porque faz parte da história das mãos que hoje o constroem. Muito do que consigo realizar com esse material tornou-se possível pelo conhecimento que ele compartilhou comigo e pela maneira como escolheu ensiná-lo, e reconhecer isso é, para mim, reconhecer a mão que ensinou a minha mão.
Meu pai permanece na origem dessa relação com a escultura e Dione ocupa um lugar fundamental no reencontro. O biscuit, por sua vez, tornou-se a matéria através da qual pude retornar a algo que, mesmo durante o período em que o recusei, continuava fazendo parte da minha história. Talvez seja por isso que eu não consiga enxergá-lo apenas como o material escolhido para produzir estas esculturas, mas também como a matéria através da qual reencontrei a escultura.
Se as esculturas deste projeto despertarem em alguém o desejo de conhecer a modelagem em biscuit, considero natural indicar o caminho de quem teve participação fundamental no meu próprio aprendizado. Foi com Dione Art que aprendi a técnica que utilizo e, por isso, quem tiver interesse em aprender poderá conhecer diretamente seu trabalho, seus cursos e seu método de ensino.
Conheça Dione Art e seus cursos de modelagem → https://criadoresdecriaturasmagicas.com/escola/
Nota de Linhagem e Gratidão:
Embora o Método Investigação Encarnada seja a cartografia conceitual deste projeto, minhas mãos só conseguem dar forma a essa pesquisa porque foram treinadas pela técnica e pela generosidade de Dione Art. Reconhecer a mão que ensinou a minha mão é, para mim, um compromisso ético e de profundo afeto com a linhagem técnica do biscuit.