O Padre sem Cabeça já fazia parte desta investigação quando surgiu, de maneira não planejada, a oportunidade de ir a São Bernardo, na região de Terra Ronca.
O convite nasceu de uma circunstância familiar: uma das pessoas que faria a viagem, minha mãe, iria até o local para pagar uma promessa. A ida aconteceria justamente no período da principal celebração católica realizada em torno da caverna de Terra Ronca.
Diante dessa coincidência, decidi aproveitar os três dias no território para aprofundar a investigação. Se a pesquisa documental já havia revelado um Padre sem Cabeça atravessado pelo imaginário católico, estar naquele território justamente durante esse período permitiria observar de perto como fé, promessa, romaria, caverna e comunidade se relacionavam no presente.
A proposta não era procurar em Terra Ronca uma comprovação da lenda — esta pesquisa não estabelece a caverna como lugar de origem do Padre sem Cabeça. O objetivo era colocar a proposta escultórica em contato direto com o território e perceber o que essa experiência poderia acrescentar à investigação.
Durante três dias, a pesquisa deixou de acontecer apenas por meio de textos, relatos e imagens. Caminhei pelo território, entrei na caverna, acompanhei acontecimentos relacionados à celebração religiosa, conversei com pessoas, observei os cavaleiros, escutei os sons do lugar e realizei estudos e experimentações escultóricas iniciais.
A experiência permitiu confrontar ideias que existiam antes da viagem, abandonar algumas delas e reconhecer outras possibilidades surgidas somente no contato com o lugar. Formas, materiais, gestos e símbolos começaram a ser testados como parte do processo de pesquisa.
O que aconteceu em Terra Ronca não foi a execução da obra definitiva, mas uma etapa de investigação que passou a orientar seu desenvolvimento escultórico.