Antes de conhecer o Careta de Triunfo, é preciso conhecer o território que o fez nascer.
O Carnaval de Pernambuco é um dos mais diversos do Brasil. Das ladeiras de Olinda às ruas do Recife, dos maracatus da Zona da Mata aos mascarados do Agreste e do Sertão, cada comunidade construiu maneiras próprias de celebrar, brincar e transmitir sua memória.
O Careta de Triunfo faz parte desse universo. Por isso, esta pesquisa começa pelo conjunto antes de se aproximar da tradição específica. Compreender a riqueza do carnaval pernambucano é compreender o lugar de onde o Careta emerge e continua vivo.
O Carnaval de Pernambuco constitui um dos mais ricos e diversos conjuntos de manifestações da cultura popular brasileira. Embora Recife e Olinda sejam reconhecidas internacionalmente como seus principais polos, a festa ultrapassa os limites dessas cidades e se estende por praticamente todo o estado, assumindo formas próprias em cada território. Maracatus, caboclinhos, afoxés, bonecos gigantes, bois, papangus, caiporas, caretas, orquestras de frevo, cirandas, cocos, cavalo-marinho, xaxado e tantas outras expressões convivem em um mesmo período festivo, revelando a extraordinária capacidade da cultura pernambucana de preservar tradições e, ao mesmo tempo, reinventá-las continuamente.
Mais do que um evento turístico, o carnaval funciona como um grande sistema cultural, no qual comunidades inteiras participam da construção da festa ao longo de todo o ano. Artesãos confeccionam máscaras e alegorias; costureiras produzem fantasias; músicos ensaiam repertórios; mestres transmitem conhecimentos às novas gerações; moradores organizam blocos, cortejos e celebrações que fortalecem os vínculos comunitários. Cada manifestação possui sua própria história, seus códigos, personagens e formas de organização, formando um patrimônio vivo que permanece em constante transformação.
Para o projeto Seres do Folclore Brasileiro, esse panorama evidencia que o carnaval pernambucano não pode ser compreendido como uma única manifestação, mas como um território onde diferentes imaginários convivem e dialogam. Muitos dos seres pesquisados ao longo desta investigação encontram
nesses festejos um espaço privilegiado de permanência, atualização e transmissão, demonstrando que memória, identidade, religiosidade, humor, música e criação popular continuam profundamente entrelaçados na experiência cultural de Pernambuco. A diversidade apresentada neste infográfico representa apenas uma parte desse universo, cuja riqueza permanece sendo construída diariamente pelas comunidades que fazem da festa um patrimônio coletivo e uma das mais expressivas manifestações da cultura brasileira.
MEU TERRITÓRIO - MEU LUGAR DE FALA
"AQUI A GENTE SE AMOSTRA"
— expressão popular pernambucana
O Carnaval de Pernambuco é resultado de um longo processo histórico de encontros entre diferentes povos, culturas e formas de compreender o mundo. Desde o século XVI, o território tornou-se um dos principais centros econômicos da colônia portuguesa, impulsionado pela produção açucareira. Ao redor dos engenhos formou-se uma sociedade profundamente diversa, marcada pela presença dos povos indígenas originários, dos colonizadores europeus e das populações africanas trazidas à força pelo sistema escravista. Apesar da violência desse processo, esses grupos preservaram conhecimentos, ritmos, crenças, celebrações e modos próprios de ocupar o espaço público, estabelecendo as bases da extraordinária diversidade cultural pernambucana.
Ao longo dos séculos, Pernambuco também vivenciou guerras, invasões estrangeiras, revoltas populares e movimentos políticos que fortaleceram um sentimento de identidade regional. A convivência entre cidades históricas, portos, engenhos, zonas rurais, sertão e litoral favoreceu o surgimento de manifestações culturais distintas, cada uma respondendo às características de seu território. Enquanto Recife consolidou um carnaval urbano marcado pelo frevo e pelas grandes agremiações, Olinda preservou cortejos populares, bonecos gigantes e blocos tradicionais. No interior do estado, mascarados, brincantes, bois, caboclos e outras figuras continuaram expressando memórias locais transmitidas entre gerações.
Essa diversidade revela que o carnaval pernambucano não nasceu de uma única tradição, mas da capacidade de diferentes comunidades transformarem suas histórias em celebração. A festa tornou-se um espaço onde religiosidade, música, teatro, dança, artesanato, crítica social e imaginação popular convivem de forma inseparável. É justamente essa convivência entre tantas expressões culturais que faz de Pernambuco um dos territórios mais ricos da cultura popular brasileira e explica por que o estado reúne um número tão grande de manifestações reconhecidas como patrimônio cultural. Nesse contexto, cada brincante, máscara, cortejo e personagem representa não apenas uma tradição isolada, mas parte de uma história coletiva construída ao longo de mais de quatro séculos
RECIFE E OLINDA — DUAS CIDADES, UM MESMO CARNAVAL
Embora frequentemente apresentados como dois carnavais distintos, Recife e Olinda formam um mesmo sistema cultural. Separadas por poucos quilômetros, as cidades desenvolveram características próprias ao longo da história, mas permanecem profundamente conectadas durante o período carnavalesco. O visitante transita naturalmente entre elas, acompanhando uma festa que ocupa ruas, praças, pontes, ladeiras e bairros inteiros, sem barreiras físicas ou simbólicas.
Olinda preserva a atmosfera do centro histórico colonial. Suas ladeiras estreitas, casarios coloridos e igrejas se transformam em palco para blocos líricos, orquestras de frevo, bonecos gigantes e personagens tradicionais como o Homem da Meia-Noite. O carnaval acontece muito próximo do público, criando uma experiência marcada pelo encontro, pela caminhada e pela ocupação espontânea das ruas.
Recife, por sua vez, amplia essa experiência ao incorporar grandes polos de celebração, como o Recife Antigo, onde apresentações musicais de grande porte convivem com blocos populares, agremiações tradicionais e manifestações culturais de diferentes regiões do estado. É também a cidade do Galo da Madrugada, considerado o maior bloco carnavalesco do mundo, e das grandes orquestras de frevo que transformam o espaço urbano em um imenso palco ao ar livre.
O que une essas duas cidades é a compreensão de que o carnaval pertence às pessoas. Não existem arquibancadas que separam artistas e espectadores nem cordões que isolam os cortejos. O público dança ao lado das orquestras, acompanha os blocos pelas ruas e participa ativamente da construção da festa. Mais do que assistir ao carnaval, quem chega a Recife e Olinda torna-se parte dele, experiência que ajuda a explicar por que o carnaval pernambucano é reconhecido como uma das maiores manifestações de cultura popular do mundo.
A centralidade de Recife e Olinda não aconteceu por acaso. Desde o período colonial, as duas cidades concentravam atividades políticas, religiosas, comerciais e portuárias que favoreciam o encontro entre diferentes grupos sociais. Enquanto Olinda consolidava-se como centro administrativo da capitania, Recife crescia impulsionado pelo porto, pelo comércio e pela intensa circulação de pessoas vindas do interior, de outras regiões do Brasil e do exterior. Essa convivência permanente permitiu que tradições indígenas, africanas e europeias dialogassem continuamente, produzindo novas formas de música, dança, teatro, religiosidade e celebração popular. O carnaval tornou-se, assim, a expressão mais visível desse processo histórico, reunindo manifestações de origens diversas em uma mesma festa, sem apagar as particularidades de cada comunidade.
Essa força coletiva também se revela nas grandes instituições simbólicas do carnaval pernambucano. Em Olinda, o Homem da Meia-Noite abre oficialmente a festa à meia-noite do sábado de carnaval, reunindo milhares de pessoas para acompanhar a saída do mais tradicional dos bonecos gigantes. Nas ladeiras, centenas de outros bonecos desfilam ao lado de orquestras de frevo, transformando personagens da história, da política e da cultura popular em figuras monumentais. No Recife, o Galo da Madrugada conduz aquele que é reconhecido como o maior bloco carnavalesco do mundo, arrastando multidões pelas ruas do centro histórico. Ao lado dessas referências consagradas, centenas de blocos e troças preservam a diversidade da festa. Alguns mantêm tradições centenárias, enquanto outros surgem como expressão do humor, da crítica social e da criatividade popular. Blocos como As Virgens do Bairro Novo, o irreverente Bloco da Saudade, o tradicional Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefante de Olinda, Vassourinhas, Lenhadores, Enquanto Isso na Sala da Justiça, além de manifestações contemporâneas como a Padroeira das Ovelhas Negras, demonstram que o carnaval pernambucano permanece em constante renovação, acolhendo novas narrativas sem romper com sua memória. Em Pernambuco, cada bloco conta uma história, ocupa um território e fortalece a identidade da comunidade que o mantém vivo.
Se Recife faz o passo,
Olinda faz a canção.
Duas cidades, um só carnaval,
batendo no mesmo coração.
ROTAS ALTERNATIVAS
O interior de Pernambuco revela que o carnaval não nasceu de um único centro irradiador, mas de múltiplos territórios que transformaram suas próprias experiências históricas em formas distintas de celebrar. Enquanto Recife e Olinda consolidaram manifestações ligadas aos antigos portos, às irmandades religiosas, às bandas militares e ao intenso intercâmbio cultural da faixa litorânea, o Agreste e a Zona da Mata desenvolveram expressões profundamente relacionadas ao cotidiano rural, às feiras, às plantações de cana-de-açúcar, ao gado, às rotas comerciais e às diferentes comunidades que ocuparam essas paisagens. Cada região incorporou elementos indígenas, africanos e europeus de maneira particular, produzindo manifestações que não podem ser compreendidas apenas como variações de um mesmo carnaval, mas como respostas culturais aos diferentes modos de viver o território.
Ao percorrer essas cidades, torna-se evidente que o carnaval acompanha a própria formação histórica de Pernambuco. Em Nazaré da Mata, a presença dos antigos engenhos de açúcar e das comunidades negras deu origem ao Maracatu Rural, onde os Caboclos de Lança sintetizam influências indígenas, africanas e do catolicismo popular em uma das figuras mais complexas da cultura brasileira. Em Bezerros, os Papangus nasceram do anonimato proporcionado pelas máscaras, permitindo que trabalhadores e moradores ocupassem as ruas sem distinções sociais, tradição que permanece viva através dos mestres do papel machê. Em Pesqueira, os Caiporas e outros mascarados do Agreste preservam uma relação direta com o imaginário sertanejo, aproximando o carnaval das narrativas do interior. Garanhuns demonstra que o carnaval pernambucano também assume o ritmo das serras. Conhecida pelo clima ameno e pela forte vocação musical, a cidade construiu uma identidade cultural em que a música ocupa os espaços públicos ao longo de todo o ano. Parques como o Pau Pombo e o Euclides Dourado, além da atual Praça Dominguinhos — antigo espaço conhecido como Praça Guadalajara — tornaram-se locais de encontro onde moradores e visitantes compartilham apresentações musicais ao ar livre. Durante festivais e eventos culturais, é comum ver pessoas reunidas sob as árvores, apreciando a paisagem serrana enquanto acompanham concertos, rodas musicais e outras manifestações artísticas. Essa relação entre música, natureza e convivência coletiva ajuda a compreender por que Garanhuns desenvolveu uma identidade cultural própria, demonstrando que, em Pernambuco, cada território encontra uma maneira singular de celebrar a cultura popular.
Mais do que destinos de carnaval, essas cidades demonstram que a cultura popular acompanha as características econômicas, ambientais e sociais de cada território. As máscaras, os personagens, as músicas e os cortejos não surgem por acaso: são resultado da história de comunidades que, geração após geração, encontraram na festa uma forma de preservar memórias, fortalecer identidades e reinventar continuamente sua maneira de existir. É essa diversidade territorial que faz do carnaval pernambucano uma das expressões culturais mais complexas e ricas do Brasil.
Eu, Atrevido e Amostrado que Sou
Eu, amostrado que sou,
Vim falar do carnaval;
Mas Pernambuco me chama
Pra outro rumo, afinal.
Cada estrada abre outra,
Cada festa é um portal.
Tem São João e fogueira,
Tem feira em Caruaru;
Tem bolo de rolo à mesa,
Tem Souza Leão, cuscuz;
Tem bolo de noiva e doce,
Num povo cheio de luz.
Tem barro lá no Alto,
Vitalino a ensinar;
Tem museu com a memória
Que o tempo não faz parar.
Cada peça conta a história
Do povo a se modelar.
Tem xilogravura e verso,
Rapadura com cachaça;
Tem fanfarra na avenida,
Tem ciranda que não passa.
Lia canta na praia,
O mar inteiro a abraça.
Tem Coco lá de Arcoverde,
Macuca na região;
Tem mamulengo e brinquedo,
Tem frevo no coração.
Cada canto do estado
É um verso em construção.
Em Garanhuns, minha serra,
onze anos fui morar;
No Espaço Bailarte
A arte se fez meu lar.
E fiz família escolhida
Que a vida veio me dar.
Às dezoito em ponto eu ouço
A Ave-Maria tocar;
Da Igreja do Cuscuz
Ainda posso escutar.
Tem Saloá no caminho,
Que um dia me fez parar.
Fui seguindo pela estrada,
Um amor deixei por lá.
Tem lembrança que não morre,
Só aprende a esperar.
Em Garanhuns, minha serra,
Por onze anos fui morar.
Nas sete colinas verdes
Achei casa pra sonhar.
E uma irmã da muléstia
Que a vida quis me dar.
Repentista das danadas,
Daquelas de arrepiar.
Pernambuco é tão bonito,
Até o jeito de falar.
Aqui a língua vira canto
Antes da boca fechar.
Tem memória que caminha
E que não vai terminar.
Tem Frexeiras me chamando,
Santa Quitéria a esperar;
Tem Pesqueira e seu castelo,
Que ainda quero estudar.
Tem Águas Belas e povos
Que ensinam pelo olhar.
Tem quilombo e romaria,
Tem engenho e devoção;
Tem mistério em cada serra,
Tem história em cada chão.
Cada pedaço de terra
Mora no meu coração.
Cabra Cabriola assusta
Quem na cama vai chorar;
Papa-Figo anda na rua
Para o medo semear;
E o Tutu Marambá prega
O mistério no olhar.
Esse medo antigo e heróico,
Que a infância viu crescer,
Não nasceu para a maldade,
Mas sim para proteger;
Diz pro povo da calçada
O perigo que há de ter.
Tem o sotaque arrastado,
História que o povo diz;
Tem a lenda da Comadre
Escondida na raiz;
Pernambuco guarda o segredo
De um chão que me faz feliz.
Mas preciso me conter,
Pra não fugir do caminho.
Hoje eu fico no carnaval,
O resto guardo sozinho.
Pois quem ama esse chão
Nunca caminha sozinho.
Quando o livro terminar,
Se Deus permitir voltar,
Começo pelos Caretas
De Triunfo a brincar.
Pois quem conhece o estado
Não para de caminhar.
Eu, atrevido que sou,
Pelo repente vim dar
O pranto de minha alma,
Lhes contando o meu lugar.
E, amostrado que sou,
Por Pernambuco vou continuar!
ELVIS BITTENCOURT
Nota de Autor e Reverência Cultural: O Repente como Patrimônio
Como escultor, moldo o silêncio da matéria e busco dar corpo àquilo que é visual. No entanto, diante do Repente — patrimônio imaterial protegido e salvaguardado —, reconheço as fronteiras da minha própria prática artística. Não detenho o domínio da palavra improvisada, do ritmo estofado e da métrica relâmpago que pertencem exclusivamente aos mestres da voz e do pensamento rápido.
A minha aproximação desta arte não se faz como detentor de seu fazer, mas sim sob o olhar rigoroso e humilde do pesquisador. O Repente é uma herança viva que se protege na oralidade, e o que apresento aqui é uma tradução visual e tridimensional do meu profundo respeito por essa tradição. Esta obra não tenta replicar o gênio do improviso, mas sim esculpir a memória, a postura e a força daqueles que fazem da palavra o seu maior patrimônio.
SAIBA MAIS:
Decreto nº 3.551/2000: Instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, criando o arcabouço legal para a salvaguarda de tradições orais.
Registro no IPHAN (2021): O Repente foi reconhecido por unanimidade como Patrimônio Cultural do Brasil, inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão do IPHAN.
Lei nº 12.198/2010: Regulamenta e reconhece oficialmente a atividade de Repentista como profissão artística no território nacional.
Em Pernambuco para pesquisar a história e o acervo da literatura de cordel é o site da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
Fundação Casa de Rui Barbosa: possui o maior acervo de cordel da América Latina digitalizado, cobrindo detalhadamente a primeira geração de poetas de Pernambuco e da Paraíba.
FOLGUEDO
O que é um folguedo?
A palavra folguedo designa manifestações tradicionais da cultura popular que reúnem música, dança, teatro, religiosidade, brincadeira, personagens, máscaras, narrativas, artesanato e participação comunitária. Mais do que uma apresentação artística, o folguedo é uma prática social construída coletivamente, na qual a comunidade preserva sua memória, reafirma sua identidade e transmite conhecimentos entre gerações.
Embora muitas vezes associados apenas ao entretenimento, os folguedos cumprem funções muito mais amplas. Celebram acontecimentos religiosos, marcam ciclos agrícolas, fortalecem vínculos comunitários, preservam ofícios tradicionais e criam espaços onde diferentes gerações convivem e aprendem umas com as outras. Cada figurino costurado, cada máscara esculpida, cada instrumento construído, cada canto aprendido e cada personagem interpretado fazem parte de um sistema cultural que permanece vivo porque continua sendo praticado.
No Brasil, os folguedos nasceram do encontro entre saberes indígenas, africanos e europeus. Ao longo de mais de cinco séculos, essas tradições foram sendo recriadas conforme as características de cada território. Por isso, um folguedo nunca pode ser compreendido apenas por seus personagens ou por sua estética. Ele expressa a relação de uma comunidade com sua história, sua paisagem, sua espiritualidade, seu trabalho, seu clima e seus modos de viver
Uma curiosidade pouco conhecida é que muitos folguedos brasileiros atravessaram períodos de proibição ou preconceito. Durante décadas, diversas manifestações populares foram consideradas simples "brincadeiras" ou "folclore" em sentido pejorativo. Hoje, entretanto, são reconhecidas como importantes referências da identidade cultural brasileira, resultado de um longo processo de valorização promovido por pesquisadores, mestres da cultura, comunidades tradicionais e políticas públicas de salvaguarda. (IPHAN)
Essa mudança também ocorreu na legislação brasileira. A Constituição Federal de 1988 ampliou o conceito de patrimônio cultural ao reconhecer, nos artigos 215 e 216, que saberes, celebrações, formas de expressão e modos de fazer constituem patrimônio cultural brasileiro, cabendo ao Estado e à sociedade protegê-los e promovê-los. Posteriormente, o Decreto nº 3.551, de 2000, criou o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, estabelecendo instrumentos específicos para a salvaguarda dessas tradições.
No cenário internacional, a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, aprovada pela UNESCO em 2003 e ratificada pelo Brasil em 2006, consolidou a compreensão de que práticas culturais vivem porque são reconhecidas e continuamente recriadas pelas próprias comunidades. Assim, proteger um folguedo é garantir que seus praticantes tenham condições de continuar transmitindo seus conhecimentos às futuras gerações.
É nesse amplo universo que se inserem manifestações como o Bumba Meu Boi, o Reisado, o Pastoril, o Cavalo-Marinho, o Maracatu Rural, as Congadas, as Cavalhadas e os Caretas de Triunfo. Embora possuam histórias, personagens e formas de organização distintas, todos compartilham um princípio fundamental: a cultura não sobrevive apenas porque é registrada em livros ou museus. Ela permanece viva porque continua sendo cantada, dançada, esculpida, costurada, ensinada e brincada por quem a reconhece como parte de sua própria existência.
TRIUNFO
No alto da Serra da Baixa Verde, a mais de mil metros de altitude, encontra-se Triunfo, uma das cidades mais singulares de Pernambuco. Conhecida pelo clima ameno, pelas construções históricas e pela forte preservação de suas tradições, a cidade transformou o carnaval em uma manifestação profundamente ligada à sua identidade cultural.
Durante os dias de folia, as ruas deixam de ser apenas espaço de circulação e tornam-se palco para uma das mais marcantes expressões da cultura popular pernambucana: os Caretas. Vestidos com máscaras artesanais, roupas coloridas, chocalhos presos ao corpo e carregando seus tradicionais relhos, eles percorrem ladeiras, becos e praças, produzindo um espetáculo sonoro e visual que mistura brincadeira, mistério, irreverência e memória.
Entretanto, compreender os Caretas exige compreender primeiro Triunfo. A geografia serrana, o isolamento histórico em relação ao litoral, a economia baseada na agricultura e no comércio regional, a forte religiosidade e a transmissão familiar dos saberes criaram as condições para que essa tradição permanecesse viva por gerações. O carnaval triunfense não é apenas um evento turístico; ele representa a continuidade de práticas comunitárias que unem artesãos, costureiras, músicos, mascarados, famílias e moradores em torno de um patrimônio construído coletivamente.
Os primeiros habitantes da Serra da baixa verde
Muito antes da formação da vila de Triunfo, da construção dos casarões e da consolidação da cidade como importante centro econômico do Sertão, a Serra da Baixa Verde já era ocupada por povos indígenas. Durante muito tempo, essa presença permaneceu quase ausente das narrativas oficiais sobre a história local, contribuindo para a falsa impressão de que a região teria sido ocupada apenas a partir da colonização portuguesa.
Nas últimas décadas, pesquisadores e lideranças indígenas vêm ampliando esse debate, recuperando memórias, documentos e vestígios que evidenciam a profunda relação entre os povos originários e a Serra da Baixa Verde. Essas pesquisas revelam que a história da região não começa com a fundação da vila, mas faz parte de uma ocupação muito mais antiga, marcada por deslocamentos, redes de circulação, conhecimentos sobre o território e formas próprias de habitar a serra.
Entre essas iniciativas destaca-se a obra Resquícios Indígenas na Serra da Baixa Verde, do pesquisador indígena Luiz Pankará, que reúne estudos sobre a presença indígena em Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde. O trabalho contribui para ampliar o olhar sobre a formação histórica da região e reforça a importância de reconhecer os povos originários como parte fundamental da identidade cultural do território.
Compreender Triunfo também significa reconhecer que sua paisagem foi observada, percorrida e nomeada por muitos outros olhares antes da chegada dos colonizadores. Essa perspectiva amplia a leitura do território e aproxima a história da cidade de um processo muito mais antigo e diverso.
Saiba mais
Para aprofundar esse tema, recomenda-se a leitura de Resquícios Indígenas na Serra da Baixa Verde, de Luiz Pankará, obra dedicada à investigação da presença indígena historicamente invisibilizada na região de Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde. O livro amplia a compreensão sobre os povos originários da serra e contribui para a revisão das narrativas tradicionais sobre a formação histórica desse território.
Triunfo - A cidade onde a serra moldou a cultura
Para compreender os Caretas, é preciso antes compreender o território que lhes deu origem. Triunfo não é apenas uma cidade do Sertão pernambucano. É uma das exceção geográficas. Localizada no alto da Serra da Baixa Verde, a cerca de mil metros de altitude, ela rompe a imagem mais comum do sertão seco e plano. O clima é ameno, a vegetação permanece verde durante boa parte do ano, a neblina frequentemente cobre as serras e as noites podem surpreender visitantes com temperaturas que, no inverno, se aproximam dos 5 °C. Não por acaso, Triunfo ficou conhecida como "Oásis do Sertão". Antes de receber o nome atual, a região era conhecida como Baixa Verde. O nome Triunfo nasceu de um episódio de resistência. No século XIX, moradores insistiram em manter uma feira local, enfrentando a oposição de grupos influentes do município vizinho de Flores, que tentavam impedir o crescimento do povoado. A permanência da feira simbolizou uma vitória da comunidade, e essa conquista acabou dando nome à cidade. Mais do que uma curiosidade histórica, essa origem revela um traço que ainda caracteriza Triunfo: a capacidade de transformar identidade e pertencimento em patrimônio coletivo.
Essa posição privilegiada na serra influenciou profundamente o desenvolvimento da cidade. Durante o final do século XIX e início do século XX, Triunfo destacou-se como importante centro econômico do interior pernambucano. Produzia café, rapadura, açúcar, tecidos, doces e mantinha intenso comércio regional. Mercadorias chegavam de trem até Arcoverde e seguiam serra acima em tropas de animais, alimentando uma economia que deixou marcas na arquitetura, nos casarões, nos engenhos e na vida cultural do município. Caminhar por Triunfo é perceber como história e paisagem dialogam continuamente. O casario preservado, o Theatro Cinema Guarany — inaugurado em 1922 e construído com técnicas tradicionais que utilizavam óleo de baleia na argamassa —, o lago João Barbosa Sitônio, os museus, as igrejas, os engenhos, os mirantes e o Pico do Papagaio compõem uma cidade onde natureza e patrimônio convivem lado a lado. Não é um cenário criado para turistas; é uma paisagem que continua sendo vivida pelos triunfenses.
Ao longo do ano, Triunfo também se transforma em palco de importantes manifestações culturais. O Festival de Cinema de Triunfo, a Festa dos Estudantes, celebrações religiosas, feiras, apresentações musicais e eventos ligados à cultura popular demonstram que a cidade mantém uma vida cultural intensa muito além do carnaval. Essa continuidade ajuda a compreender por que tantas tradições permanecem vivas: elas fazem parte do cotidiano da comunidade e não apenas do calendário turístico. Talvez seja justamente essa combinação entre serra, clima, arquitetura, memória e vida comunitária que explique a força dos Caretas. Eles não surgiram isoladamente. Nasceram em um território onde a identidade local sempre encontrou formas próprias de se expressar. As máscaras, os chocalhos, os relhos, as cores e os cortejos dialogam com uma cidade que aprendeu, desde sua própria origem, que preservar tradições também é uma forma de afirmar quem se é.
CARETAS
Nota — Em algumas regiões de Pernambuco é comum que personagens carnavalescos sejam popularmente chamados de "caretas", mesmo quando não utilizam máscaras. Esse uso popular está associado à ideia de brincantes fantasiados, irreverentes ou que ocultam sua identidade de outras formas. Entretanto, nesta pesquisa, optamos por utilizar sempre a denominação adotada pelas próprias comunidades. Assim, o personagem do Maracatu Rural será tratado como Caboclo de Lança, respeitando sua identidade cultural, embora, em determinados contextos populares, também possa ser chamado de "careta". Da mesma forma, o termo Careta será empregado apenas para as manifestações que efetivamente utilizam essa denominação como parte de sua tradição.
O que é um Careta?
No Brasil, a palavra careta costuma ser utilizada de forma genérica para designar qualquer pessoa mascarada que participa de festas populares. No entanto, essa generalização esconde uma realidade muito mais rica. Em diversas comunidades, Careta não é apenas um mascarado: é o nome próprio de um personagem tradicional, construído ao longo de gerações, com regras, vestimentas, funções e significados específicos.
Essa diferença é importante porque cada comunidade desenvolveu sua própria forma de compreender a máscara. Embora existam elementos comuns — como o anonimato, a transformação do corpo, a brincadeira coletiva e a transmissão dos saberes — cada manifestação possui uma identidade própria, resultado de sua história, de seu território e da relação construída entre a comunidade e seus brincantes.
Em Triunfo (PE), por exemplo, os Caretas percorrem as ruas durante o carnaval usando máscaras, roupas coloridas, chocalhos presos ao corpo e relhos, produzindo um espetáculo marcado pelo som, pela corrida e pela interação constante com o público. Já em Acupe (BA), os Caretas surgiram historicamente como forma de resistência da população negra escravizada. No Cariri cearense, em cidades como Jardim e Saboeiro, aparecem durante a Semana Santa, integrando celebrações religiosas. Em Ribeirópolis (SE), no Sertão da Paraíba e em Matias Cardoso (MG), assumem características próprias, demonstrando que o nome "Careta" pode designar tradições distintas, embora compartilhem alguns elementos culturais. Essa diversidade também ajuda a compreender outra situação bastante comum. Em diferentes regiões do Brasil, manifestações que possuem outros nomes acabam sendo popularmente chamadas de "caretas". É o caso dos Curucucus, em Pirenópolis (GO), dos Cazumbás, no Maranhão, dos Farricocos, na Cidade de Goiás, dos Papangus, em Bezerros (PE), do Pelznickel, em Santa Catarina, dos Bate-Bolas, no Rio de Janeiro, dos Caboclos de Lança, na Zona da Mata pernambucana, dos Caiaporas de Pesqueira e de tantas outras figuras mascaradas espalhadas pelo país. Embora compartilhem o uso da máscara e da transformação do corpo, cada uma dessas manifestações possui origem, função e significado próprios.
Reconhecer essas diferenças é também uma forma de preservar o patrimônio cultural. Ao utilizar o nome escolhido pela própria comunidade, respeita-se sua história, sua memória e seu direito de definir a própria tradição. Mais do que uma questão de nomenclatura, trata-se de reconhecer que o patrimônio cultural brasileiro é formado por inúmeras identidades locais, cada uma construída em diálogo com seu território.
É justamente por essa razão que, ao longo desta pesquisa, optamos por utilizar sempre o nome empregado pelos próprios grupos e comunidades. Afinal, todo Careta é um mascarado, mas nem todo mascarado é um Careta.
Entre serras, casarões e ruas de pedra, Triunfo preserva um dos carnavais mais singulares de Pernambuco. Enquanto grande parte do estado é lembrada pelo frevo, pelos blocos e pelos grandes cortejos do litoral, na Serra da Baixa Verde a festa adquiriu identidade própria. Ali, os protagonistas são os Caretas, personagens que transformam a cidade em um grande palco onde música, artesanato, brincadeira e memória caminham juntos.
Os registros sobre os Caretas remontam ao início do século XX, embora muitos pesquisadores e moradores considerem que a tradição seja ainda mais antiga. Ao longo das décadas, a manifestação foi incorporando novos elementos sem perder suas características essenciais. Máscaras artesanais, roupas confeccionadas manualmente, chapéus adornados por fitas coloridas, chocalhos presos ao corpo e os tradicionais relhos continuam compondo a identidade visual do brincante, tornando-o imediatamente reconhecível por qualquer triunfense.
Uma das particularidades mais marcantes do carnaval de Triunfo é sua organização comunitária. Os Caretas não desfilam individualmente. Eles costumam integrar trecas, grupos formados por famílias, amigos, vizinhos e moradores de um mesmo bairro ou comunidade. Cada treca possui liderança própria, identidade coletiva e forte sentimento de pertencimento. Em muitos casos, diferentes gerações da mesma família participam da brincadeira, transmitindo conhecimentos sobre a confecção das fantasias, a produção das máscaras e as formas tradicionais de brincar o carnaval.
Outro aspecto pouco conhecido é que a festa já foi regulada por normas bastante diferentes das atuais. Durante parte do século XX, por determinação das autoridades locais, os mascarados somente podiam iniciar a brincadeira após a missa da manhã e precisavam retirar suas fantasias antes do final da tarde. Essas regras buscavam organizar a convivência entre a intensa religiosidade da cidade e a irreverência característica do carnaval. Embora essas restrições não existam mais, elas revelam como a manifestação sempre dialogou com a organização social de Triunfo.
A música também ocupa papel central na celebração. As orquestras de frevo acompanham os cortejos pelas ladeiras da cidade, criando uma paisagem sonora que se mistura ao som metálico dos inúmeros chocalhos presos ao corpo dos Caretas. O resultado é uma identidade sonora própria, impossível de ser confundida com qualquer outro carnaval brasileiro.
A localização geográfica de Triunfo também influencia diretamente a experiência da festa. O relevo acidentado, as ruas estreitas de pedra, as longas ladeiras e o conjunto arquitetônico preservado transformam o deslocamento dos Caretas em parte do espetáculo. Diferentemente dos grandes corredores carnavalescos das capitais, em Triunfo o público encontra os brincantes em cada esquina, compartilhando o mesmo espaço e participando ativamente da brincadeira.
Mais do que um evento turístico, o Carnaval de Triunfo é um patrimônio cultural construído pela própria comunidade. Durante meses, artesãos, costureiras, músicos, organizadores, famílias e brincantes trabalham na preparação da festa. As máscaras continuam sendo produzidas artesanalmente, novas gerações aprendem com os mestres mais antigos e o conhecimento permanece circulando entre aqueles que fazem da tradição parte de sua vida cotidiana.
É nesse contexto que surge o personagem central desta pesquisa. O Careta não representa apenas um mascarado de carnaval. Ele sintetiza o território, a memória, o artesanato, a música, a coletividade e a permanência de uma tradição que continua sendo reinventada por quem a mantém viva. Compreender os Caretas, portanto, significa compreender também a cidade que lhes deu origem.
TRECAS: Entre as curiosidades da manifestação está a organização dos Caretas em grupos conhecidos como trecas. Cada treca desenvolve sua própria identidade, podendo adotar temas, cores e estilos para suas fantasias. Nos últimos anos, a tradição passou a contar também com trecas femininas, evidenciando que a manifestação permanece viva e continua se reinventando sem romper com sua memória. (AS MÁSCARAS PERNAMBUCANAS, 2023; PREFEITURA DE TRIUNFO, 2018).
Cada treca é coordenada por um enfrentante, figura responsável pela organização do grupo e por manter viva a tradição entre seus integrantes. (SEBRAE-PE, 2024).
Como acontece com muitas manifestações da cultura popular, não existe um único consenso sobre a origem dos Caretas de Triunfo. Ao longo das décadas, diferentes narrativas foram transmitidas oralmente, reinterpretadas por moradores e registradas por pesquisadores. Algumas atribuem a manifestação às antigas festas religiosas, outras destacam influências dos carnavais europeus ou das tradições mascaradas ibéricas. Também há interpretações que reconhecem a participação dos povos africanos e indígenas na construção da estética, dos ritmos e da própria forma de brincar.
Entre essas possibilidades, uma narrativa se destaca por possuir maior documentação histórica. Segundo pesquisa desenvolvida pela historiadora Diana Rodrigues, utilizada como base para a implantação da Casa do Careta, a brincadeira teria surgido em 1917, durante uma apresentação do Reisado realizada no Sítio Lajes. De acordo com esse relato, um brincante chamado Mateus, impedido de participar da apresentação após chegar embriagado, vestiu roupas extravagantes, cobriu o rosto com uma máscara improvisada, amarrou chocalhos ao corpo e saiu pelas ruas fazendo barulho e chamando a atenção dos moradores. A irreverência daquele gesto teria inspirado outras pessoas, dando início a uma brincadeira que, ao longo do tempo, passou a integrar o carnaval triunfense.
Embora essa seja atualmente a hipótese histórica mais documentada, ela não exclui outras influências que ajudaram a moldar os Caretas. O próprio Reisado possui raízes na tradição ibérica, enquanto o carnaval brasileiro incorporou elementos das festas mascaradas europeias. Ao mesmo tempo, a presença africana e indígena contribuiu para a formação dos ritmos, da musicalidade, do uso dos chocalhos, das cores, da corporalidade e das formas de ocupação coletiva das ruas. Assim, mais do que buscar uma única origem, compreender os Caretas significa reconhecer que essa manifestação foi sendo construída pelo encontro entre diferentes matrizes culturais ao longo do tempo. Essa perspectiva revela uma característica recorrente da cultura popular brasileira: as tradições raramente surgem de um único acontecimento. Elas são continuamente recriadas pelas comunidades, incorporando novos significados sem romper completamente com suas raízes. Talvez seja justamente essa capacidade de transformação que explique por que, mais de um século depois, os Caretas continuam ocupando as ruas de Triunfo como um dos maiores símbolos da identidade cultural da cidade.
A CASA DO CARETA
O prédio que hoje abriga a Casa do Careta carrega, em si, uma história de transformação. Erguido em 1927, durante a administração de Carolino Campos — nome que também batiza uma das praças centrais de Triunfo, onde se ergue o prédio de 1922 que sedia o Festival de Cinema da cidade —, o edifício nasceu com uma função bem distante da arte: funcionou como salgadeira, local onde se tratava carne. Um espaço de trabalho braçal, de cheiro forte e rotina dura, que décadas depois se tornaria abrigo de memória e cultura popular.
A restauração, iniciada em dezembro de 2017, não se limitou a adaptar o espaço: recuperou a cobertura por completo, preservou os componentes históricos da arquitetura original, e renovou piso, pintura, instalações hidráulicas e elétricas, além de construir novos banheiros acessíveis. O resultado foi um prédio que manteve sua identidade arquitetônica enquanto ganhava nova função — recepção, salas de exposição, três espaços multimídia interativos e uma área dedicada à comercialização de artesanato local, pensada para gerar renda a partir da própria cultura que o museu preserva.
Assim, a Casa do Careta é também, à sua maneira, um símbolo de reinvenção: um prédio que já serviu à matéria bruta do sertão passou a servir à sua memória.
ANATOMIA DO CARETA DE TRIUNFO
A indumentária do Careta de Triunfo é resultado de uma tradição construída e transformada ao longo de mais de um século de carnaval. Embora existam variações entre brincantes e trecas, alguns elementos permanecem recorrentes, como o chapéu de canoa, a máscara artesanal, o casaco e a calça confeccionados em tecidos coloridos, os chocalhos (guizos) e o relho. Juntos, esses componentes conferem ao personagem uma identidade visual e sonora imediatamente reconhecida pela população local.
Cada elemento desempenha uma função durante a brincadeira. A máscara preserva o anonimato do brincante; os chocalhos anunciam sua presença pelo som antes mesmo de sua aproximação; o relho integra a performance e produz um forte estampido característico quando atinge o chão; enquanto as fitas, espelhos, bordados e tecidos ampliam o impacto visual do personagem durante seus deslocamentos pelas ruas e ladeiras de Triunfo.
Apesar das transformações ocorridas ao longo das décadas — tanto nos materiais empregados quanto na ornamentação das fantasias — a estrutura geral da indumentária permaneceu como um dos principais símbolos do carnaval triunfense. Mais do que um conjunto de objetos, ela constitui um patrimônio cultural produzido por artesãos, costureiras, familiares e brincantes que mantêm viva essa tradição a cada novo carnaval.
Nota sobre a pesquisa
Durante esta investigação, não foi possível reunir documentação suficiente, produzida por fontes confiáveis, que permitisse elaborar um capítulo aprofundado sobre a participação histórica das mulheres como Caretas de Triunfo. As referências encontradas em páginas da internet mostraram-se, em sua maioria, superficiais ou sem documentação que possibilitasse sua verificação.
A pesquisa, no entanto, confirmou a presença de mulheres na manifestação, tanto como brincantes quanto na organização e preparação das trecas, evidenciando o caráter comunitário e familiar do carnaval triunfense. Também foi possível identificar a atuação de uma mulher que há cerca de quinze anos participa da brincadeira como Careta e que contribuiu para o desenvolvimento de uma estética feminina específica para essa indumentária.
Diante da ausência de registros históricos mais consistentes, optou-se por não ampliar este tema além do que as evidências permitiam, respeitando o compromisso desta pesquisa com informações passíveis de verificação. Espera-se que futuras investigações, especialmente conduzidas em diálogo com as próprias brincantes, possam aprofundar essa importante dimensão da história dos Caretas de Triunfo.
TEXTO RITUAL
CONVOCAÇÃO DO CARETA
Respiro fundo e começo devagar.
O suor escorre pela testa.
A máscara cheira a cola, a tinta fresca e a tempo antigo.
Seguro o rosto de papel entre as mãos calejadas.
Um segundo antes de vestir o disfarce, eu sou como vocês.
Respiro fundo.
A máscara eu coloco.
O mundo lá fora desaparece por dois furos.
Silêncio.
Terelen, terelen.
Ah, são chocalhos.
O homem some. O Careta nasce.
Saio na rua. Poeira flutua
Criançada que pula. Ah, ninguém me segura!
Olho de lado, olho um bocado
escolho um coitado, que anda apressado.
— Corre, menino.
Terelen, terelen.
Rasga multidão, sem direção.
Perde chinelo, é só diversão.
É banda tocando, é caldo escorrendo,
é roupa voando, e o povo torcendo.
— Corre, menino.
Terelen, terelen!
e o ritmo pega carreira.
É gato assustado. É grito de lado.
É mal-encarado. Que sai espantado.
É porta fechando, é velho falando,
é mãe gritando e o povo pulando.
— terelen, terelen!
é gente suando, gente dançando,
gente trampando, gente olhando.
é gente carente, gente valente,
gente da gente, gente contente.
— terelen, terelen!
Medo estampado, riso guardado
relho puxado. Estalo no chão.
TLAC!
— terelen, terelen!
Cachorro latindo, trompete tinindo,
cuidado! Estou indo. A festa seguindo.
Terelen terelen,
olha o vizinho, seu Zé Severino,
sentado sorrindo, dizendo baixinho:
- E aquela moça ali, ó?
- CORRE, MARIA! TERELEN, TERELEN!
Viro o pescoço. Vejo Maria. lembro de um tempo que já a conhecia.
O chocalho silencia.
...
O sol bate na testa pintada da máscara. Através dos furos escuros dos olhos... ele olha.
...
A vida triunfa mais uma vez.
Careta entra na roda.
Elvis Bittencourt