A Procissão do Fogaréu é uma manifestação cultural e religiosa preservada pela comunidade da Cidade de Goiás há gerações. Esta página não pretende substituir o conhecimento produzido por seus organizadores, pesquisadores e participantes, mas compartilhar como essa tradição dialogou com o processo de criação da escultura Dança dos Mascarados. Para conhecer sua história, organização e programação, recomenda-se consultar as instituições e os grupos responsáveis por sua preservação.
Saiba mais
Para conhecer a história, a programação da Semana Santa, os bastidores da Procissão do Fogaréu e as ações de preservação dessa tradição, visite os canais oficiais da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Instagram @ovat_1965.
Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) – responsável pela organização, manutenção e salvaguarda da Procissão do Fogaréu desde 1965.
https://legisla.casacivil.go.gov.br/api/v2/pesquisa/legislacoes/106896/pdf
Portal da Alego
informações sobre o processo de reconhecimento da manifestação como patrimônio cultural imaterial e seu contexto histórico.
Por que o Farricoco integra a Dança dos Mascarados?
À primeira vista, a presença do Farricoco na obra Dança dos Mascarados pode causar estranhamento. Diferentemente de outros personagens reunidos na escultura, ele não pertence ao universo das narrativas míticas ou lendárias. O Farricoco integra uma manifestação cultural e religiosa de tradição católica, preservada há séculos durante a Procissão do Fogaréu, na Cidade de Goiás, e reconhecida como patrimônio cultural imaterial.
Sua presença na escultura, contudo, não foi definida pela origem da manifestação, mas pelo papel que o mascaramento desempenha na transformação do corpo. Sob a opa, o capirote e a luz das tochas, a identidade individual desaparece para dar lugar a uma presença coletiva, construída pela memória, pela fé e pelo ritual. A máscara deixa de representar um personagem para tornar-se um instrumento de participação em uma experiência compartilhada pela comunidade.
Foi essa potência simbólica que aproximou o Farricoco das demais manifestações presentes na obra. Embora pertençam a contextos culturais distintos, personagens como o Cazumbá, o Pelznickel, o Careta, o Bate-Bola e os Curucucus também utilizam o mascaramento para suspender a identidade cotidiana e construir outras formas de presença no espaço público.
Assim, a Dança dos Mascarados não reúne personagens por sua origem, mas pela linguagem que compartilham. Cada máscara revela uma maneira distinta de transformar o corpo, ocupar o território e manter viva a memória coletiva.
QUEM É FARRICOCO?
O Farricoco é o personagem mascarado que conduz um dos momentos mais marcantes da Procissão do Fogaréu, realizada na Cidade de Goiás durante a Semana Santa. Vestido com opa, capirote cônico, cordão à cintura e portando um facho de fogo, ele percorre as ruas de pedra em uma encenação que rememora a busca e a prisão de Jesus Cristo, preservando uma tradição de origem ibérica transmitida ao longo de gerações.
Sua presença é marcada pelo anonimato. O capirote cobre completamente o rosto, ocultando a identidade de quem participa da procissão e deslocando a atenção do indivíduo para a função ritual desempenhada pelo grupo. Mais do que representar um personagem, o Farricoco integra uma ação coletiva em que fé, memória e patrimônio cultural se encontram.
Ao longo do percurso, o brilho das tochas, o som das matracas, o silêncio dos participantes e o casario colonial da Cidade de Goiás constroem uma atmosfera singular. Nesse contexto, o Farricoco deixa de ser apenas uma indumentária e torna-se parte de uma experiência comunitária que atravessa séculos e continua sendo preservada pela população local.
Reconhecida como uma das mais importantes manifestações da Semana Santa brasileira, a Procissão do Fogaréu reafirma, a cada edição, a capacidade das tradições de permanecerem vivas por meio da participação das comunidades que as realizam.
A ilustração sintetiza os principais elementos que caracterizam o Farricoco durante a Procissão do Fogaréu. Os números indicam aspectos recorrentes da indumentária, dos objetos utilizados e da presença corporal do personagem.
1. Capirote — Capuz cônico de tecido que cobre completamente a cabeça e o rosto, preservando o anonimato do participante e criando a silhueta característica do Farricoco.
2. Orifícios dos olhos — Pequenas aberturas no capirote que permitem a visão durante o percurso, mantendo a identidade do participante oculta.
3. Opa ou túnica longa — Vestimenta ampla utilizada na procissão. Tradicionalmente confeccionada em tecidos leves e disponível em diferentes cores, identifica os diversos grupos que participam do cortejo.
4. Cordão ou cíngulo — Corda amarrada à cintura que ajusta a túnica e remete às antigas vestes penitenciais.
5. Tocha (facho de fogo) — Principal elemento visual da procissão. Ilumina o percurso noturno pelas ruas da Cidade de Goiás e contribui para a atmosfera dramática da encenação.
6. Matracas — Instrumentos de madeira utilizados em determinados momentos da Semana Santa. Seu som seco substitui os sinos das igrejas e integra a paisagem sonora da manifestação.
7. Pés descalços — Expressam penitência, humildade e devoção, além de reforçarem a ligação direta do participante com o solo histórico da cidade.
8. Marcha do cortejo — O Farricoco não permanece estático. Seu deslocamento rápido e ritmado pelas ruas faz parte da linguagem corporal da procissão e contribui para a tensão dramática do ritual.
9. Variação das cores — Embora a forma da indumentária permaneça semelhante, as cores das opas variam entre os grupos participantes, formando um mosaico cromático durante a procissão.
10. Cidade de Goiás — O casario colonial, as ruas de pedra, as igrejas e a iluminação noturna não constituem apenas um cenário, mas integram a própria manifestação. A procissão é inseparável do espaço histórico onde acontece.
Mapa ilustrado da Procissão do Fogaréu
O caminho percorrido pelos Farricocos
A Procissão do Fogaréu acontece durante a madrugada da Quarta-feira Santa, percorrendo as ruas históricas da Cidade de Goiás. Mais do que um deslocamento físico, o trajeto constitui parte essencial da manifestação. As ruas de pedra, as ladeiras, as igrejas e o conjunto arquitetônico colonial não funcionam apenas como cenário, mas integram a própria experiência ritual. O mapa ao lado apresenta, de forma ilustrativa, alguns dos principais pontos do percurso, reunindo referências históricas, simbólicas e espaciais que ajudam a compreender a relação entre a cidade, a fé e a memória preservada pela comunidade.
Nota: O presente mapa é uma representação ilustrativa da Procissão do Fogaréu. As igrejas principais foram identificadas conforme a pesquisa realizada, enquanto as demais edificações e elementos urbanos foram sintetizados artisticamente e não correspondem a uma reprodução arquitetônica fiel da Cidade de Goiás.
Leitura do mapa
1. Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte
Ponto de partida da Procissão do Fogaréu. À meia-noite, as portas da igreja se abrem, as luzes da cidade são apagadas e o cortejo inicia sua caminhada pelas ruas históricas da Cidade de Goiás.
2. Igreja de Nossa Senhora do Rosário
Um dos momentos centrais do percurso. Na escadaria da igreja é montada a mesa que simboliza a Última Ceia. Nesse ponto, os Farricocos descobrem que Jesus já partiu, iniciando simbolicamente a perseguição representada durante a Procissão do Fogaréu.
3. Igreja de São Francisco de Paula
Ponto de chegada da procissão. O alto do outeiro representa simbolicamente o Monte das Oliveiras. O toque do clarim anuncia a prisão de Cristo, enquanto o estandarte com a Face de Cristo é erguido, marcando o encerramento do cortejo.
Palácio Conde dos Arcos
Antiga sede do governo da então Vila Boa de Goiás, o edifício integra o percurso da procissão e reforça o diálogo entre a história civil da cidade e a permanência de suas tradições religiosas.
Ponte sobre o Rio Vermelho
Um dos trechos mais marcantes do percurso. As tochas refletem sobre as águas enquanto o cortejo atravessa a antiga ponte, compondo uma das imagens mais conhecidas da Procissão do Fogaréu.
Ruas de pedra e vielas históricas
O percurso acontece sobre o calçamento colonial da Cidade de Goiás. As ruas estreitas e as ladeiras fazem parte da experiência dos Farricocos, que caminham descalços em sinal de penitência.
Apagamento das luzes
Pouco antes do início da procissão, a iluminação pública do centro histórico é apagada. A cidade mergulha na escuridão, permanecendo iluminada apenas pelas tochas carregadas pelos Farricocos.
Fachos de fogo
Os fachos constituem a principal fonte de iluminação da procissão. Em meio à escuridão, o fogo conduz o cortejo, ilumina o caminho e cria a atmosfera de mistério que caracteriza a manifestação.
Tambores da fanfarra
O toque ritmado dos tambores acompanha o deslocamento do cortejo, marcando o ritmo da caminhada e reforçando a tensão dramática da encenação.
Toque do clarim
Em um dos momentos finais da procissão, o clarim anuncia simbolicamente a prisão de Cristo, marcando a transição para o encerramento do ritual.
Estandarte da Face de Cristo
Erguido no final do percurso, o estandarte representa a Face de Cristo e sintetiza o significado religioso da procissão, encerrando a narrativa ritual iniciada à meia-noite.
AS IGREJAS DA PROCISSÃO DO FOGARÉU
As três igrejas apresentadas a seguir estruturam o percurso simbólico da Procissão do Fogaréu e testemunham diferentes momentos da formação histórica da Cidade de Goiás. Mais do que pontos de passagem, esses templos integram a própria narrativa ritual, transformando a cidade em cenário vivo da Semana Santa.
As ilustrações foram desenvolvidas a partir de pesquisa documental e referências fotográficas, buscando representar com fidelidade as fachadas atuais dos edifícios. Cada igreja possui características arquitetônicas próprias, refletindo diferentes períodos da história urbana e religiosa da antiga Vila Boa de Goiás.
Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte
Ponto de partida da Procissão do Fogaréu, a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte ocupa lugar central na memória religiosa da Cidade de Goiás. Sua fachada, marcada pelo frontão barroco, pelas pilastras laterais e pela composição simétrica, representa a arquitetura religiosa colonial preservada no centro histórico. À meia-noite, suas portas se abrem e, sob a luz das tochas, inicia-se a caminhada penitencial dos Farricocos.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário
Reconstruída na primeira metade do século XX, a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário distingue-se pela linguagem neogótica, evidenciada pela torre central esguia, pelos arcos ogivais e pela forte verticalidade da fachada. Durante a Procissão do Fogaréu, sua escadaria recebe a representação simbólica da Última Ceia. É nesse ponto que os Farricocos descobrem que Cristo já deixou o local, dando início à perseguição ritual.
Igreja de São Francisco de Paula
Situada na parte mais elevada do percurso, a Igreja de São Francisco de Paula marca um dos momentos culminantes da Procissão do Fogaréu. No alto do outeiro, o espaço representa simbolicamente o Monte das Oliveiras. O toque do clarim anuncia a prisão de Cristo e o estandarte com a Face de Cristo é erguido. Após a pregação, o cortejo retorna à Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, onde a procissão é encerrada.
Arquitetura, luz e ritual
Embora pertençam a períodos distintos da história da Cidade de Goiás, as três igrejas passam a formar uma única paisagem durante a Procissão do Fogaréu. Quando a iluminação pública é apagada, suas fachadas deixam de ser percebidas apenas como monumentos históricos e passam a existir sob o clarão das tochas, transformando-se em parte da própria encenação litúrgica.
Foi justamente a observação dessa relação entre arquitetura e luz que inspirou uma decisão no processo criativo da escultura Dança dos Mascarados. Ao imaginar a cidade iluminada apenas pelo fogo, surgiu a ideia de posicionar uma vela no centro da composição escultórica, permitindo que a iluminação partisse do interior da obra e projetasse sombras sobre as figuras mascaradas. Os testes de luz realizados durante o desenvolvimento confirmaram essa possibilidade, incorporando à escultura uma atmosfera inspirada na experiência visual da Procissão do Fogaréu.
Os testes fotográficos abaixo registram esse processo de investigação, evidenciando como a silhueta do Farricoco emerge na parede e como a luz reorganiza a percepção de toda a cena escultórica.
Projeção da silhueta do Farricoco durante testes de iluminação
Estudo da iluminação interna da escultura Dança dos Mascarados, inspirado na atmosfera da Procissão do Fogaréu.
O registro apresenta o cortejo cruzando a Ponte do Rio Vermelho, em frente à histórica Casa de Cora Coralina. Localizada às margens do Rio Vermelho, a antiga residência da poetisa integra um dos mais importantes conjuntos históricos e culturais da Cidade de Goiás.
FOGARÉU NA SEMANA SANTA
A Procissão do Fogaréu constitui um dos momentos mais conhecidos da Semana Santa na Cidade de Goiás, mas integra um conjunto mais amplo de celebrações religiosas que se desenvolvem ao longo de toda a semana. Cada dia recorda um episódio da Paixão de Cristo por meio de procissões, celebrações litúrgicas e manifestações comunitárias que preservam uma tradição transmitida entre gerações.
A linha do tempo a seguir apresenta, de forma ilustrativa, os principais momentos dessa programação, situando a Procissão do Fogaréu dentro do contexto mais amplo das celebrações da Semana Santa vilaboense.
Nota: As cenas apresentadas na linha do tempo possuem caráter ilustrativo e foram produzidas para fins educativos e de divulgação cultural. Elas sintetizam os principais momentos da Semana Santa na Cidade de Goiás, não correspondendo necessariamente à representação fiel de cada celebração ou de seus espaços litúrgicos.
Linha do Tempo da Semana Santa na Cidade de Goiás
A ilustração apresenta, em ordem cronológica, os principais momentos da Semana Santa na Cidade de Goiás, tradição religiosa preservada há séculos e reconhecida por sua importância histórica e cultural.
Domingo de Ramos – A programação inicia-se com a Entrada de Jesus em Jerusalém e a Bênção dos Ramos, recordando a acolhida de Cristo pelo povo e marcando o início da Semana Santa.
Segunda-feira Santa – Realiza-se a Procissão do Senhor dos Passos, que relembra o caminho percorrido por Cristo carregando a cruz. O cortejo percorre as ruas históricas da cidade em clima de oração e penitência.
Terça-feira Santa – A devoção volta-se para Nossa Senhora das Dores. Celebrações litúrgicas, procissões e cânticos recordam o sofrimento de Maria durante a Paixão de Cristo.
Quarta-feira Santa – À meia-noite acontece a Procissão do Fogaréu, considerada o momento mais emblemático da Semana Santa vilaboense. Após o apagamento das luzes da cidade, os Farricocos percorrem as ruas carregando tochas, acompanhados pelo som dos tambores e do clarim, encenando simbolicamente a perseguição e a prisão de Jesus. É neste momento que se inicia o Tríduo Pascal.
Quinta-feira Santa – As celebrações recordam a Última Ceia de Cristo. Destacam-se a Missa dos Santos Óleos, a cerimônia do Lava-Pés e a Missa da Ceia do Senhor, que rememora a instituição da Eucaristia.
Sexta-feira Santa – O dia é dedicado à Paixão e Morte de Cristo. Entre os momentos mais marcantes estão a Celebração da Paixão do Senhor, o Canto da Verônica e a Procissão do Senhor Morto, encerrando o ciclo das procissões penitenciais.
Ao longo de toda a semana, as igrejas, o casario colonial, as ruas de pedra e o Rio Vermelho tornam-se parte integrante das celebrações, transformando a Cidade de Goiás em um grande cenário de fé, memória e patrimônio cultural.
TEXTO RITUAL
Convocação do Farricoco
(texto ritual)
Escuta.
Antes da aurora. Antes do galo. Antes de qualquer voz.
Escuta a cidade de pedra.
Porque há tochas descendo a rua.
Não são festeiros. Não são turistas.
São irmãos da penitência.
São corpos que caminham carregando o peso da memória.
E entre eles ele vem.
Farricoco.
Nem herói. Nem vilão.
Corpo oculto. Silêncio que caminha.
As portas das igrejas se abrem.
Nossa Senhora da Boa Morte.
Nossa Senhora do Rosário.
São Francisco de Paula.
Cada fachada testemunha.
Cada rua de pedra guarda o eco dos passos de tantas gerações.
Quando ele aparece, as luzes da cidade se apagam.
Restam apenas o fogo, a marcha e o silêncio.
Não há ameaça.
Há lembrança.
Porque na madrugada mais profunda da Semana Santa, a cidade inteira revive a perseguição e a prisão de Cristo.
O Farricoco não explica.
Ele atravessa.
Seu rosto desaparece sob o capirote.
Sua identidade cede lugar ao rito.
Sua tocha rompe a escuridão, mas não a vence.
Apenas indica o caminho.
E assim, entre pedra, fogo e memória,
a antiga Vila Boa recorda, mais uma vez,
que algumas tradições não sobrevivem apenas porque são lembradas,
mas porque continuam sendo caminhadas.
Silêncio.
As tochas seguem acesas.
O círculo se abre.
E o Farricoco entra na roda.
Elvis Bittencourt
AS MÃOS QUE FAZEM O FOGARÉU
A Procissão do Fogaréu não é sustentada apenas pelos Farricocos que percorrem as ruas da Cidade de Goiás. Sua continuidade depende do trabalho silencioso de centenas de pessoas que, ao longo de todo o ano, dedicam tempo, conhecimento e cuidado para preservar essa tradição.
Costureiras confeccionam e restauram opas e capirotes; artesãos produzem tochas, matracas e outros elementos utilizados no cortejo; sacristãos organizam igrejas e altares; voluntários preparam a logística da celebração; músicos mantêm viva a fanfarra; equipes de apoio garantem a segurança do percurso; moradores transformam suas casas em parte da celebração; comerciantes acolhem visitantes; e a Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) coordena, preserva e transmite esse patrimônio às novas gerações.
Mais do que uma procissão, o Fogaréu é uma construção coletiva. Cada pessoa, independentemente de sua função, contribui para que essa manifestação continue atravessando os séculos como expressão de fé, memória e identidade cultural.
A ilustração apresenta, de forma educativa e ilustrativa, diferentes grupos que colaboram para a realização da Procissão do Fogaréu. São representados costureiras responsáveis pela confecção e conservação das vestes; artesãos que produzem tochas e matracas; a OVAT, instituição dedicada à organização e salvaguarda da manifestação; voluntários que atuam na montagem e na logística; equipes de apoio e segurança; profissionais da limpeza urbana; moradores que participam da ambientação da cidade; comerciantes que recebem visitantes; sacristãos que organizam os espaços litúrgicos; músicos da fanfarra, responsáveis pelos tambores e clarins; visitantes que acompanham o cortejo com respeito; e o povo fiel, cuja participação mantém viva a dimensão religiosa da celebração.
No centro da composição, diversas mãos sustentam uma única tocha, simbolizando que nenhuma tradição permanece viva pelo esforço de uma única pessoa. A Procissão do Fogaréu atravessa gerações graças ao trabalho coletivo de toda a comunidade vilaboense.
O QUE APRENDI COM FARRICOCO
Ao iniciar esta pesquisa, meu primeiro sentimento foi o receio. Perguntei-me diversas vezes se seria respeitoso incluir o Farricoco na escultura Dança dos Mascarados. Diferentemente de muitos personagens presentes na obra, ele não nasce de uma narrativa mítica ou lendária, mas integra uma manifestação cultural e religiosa viva, preservada pela comunidade da Cidade de Goiás.
Foi justamente esse receio que me levou a aprofundar a investigação. Em vez de buscar argumentos para justificar sua presença na escultura, procurei compreender a tradição, ouvir seus detentores, conhecer seu território e reconhecer os limites entre a interpretação artística e o patrimônio cultural. Aos poucos, compreendi que o elo entre o Farricoco e as demais figuras da obra não estava na origem de cada manifestação, mas no mascaramento como linguagem capaz de transformar o corpo e suspender a identidade individual em favor de uma memória coletiva.
O Farricoco também me ensinou uma nova maneira de compreender a máscara. Enquanto muitas tradições utilizam o mascaramento para criar um personagem, um ser fantástico ou uma nova identidade, o capirote realiza o movimento inverso: ele apaga o indivíduo. Sob a túnica e o capuz, pouco importa quem caminha. O que permanece é o rito. A máscara deixa de revelar alguém para preservar uma tradição que pertence à comunidade e não a uma pessoa.
Essa reflexão também aproximou o Farricoco do Pelznickel. Embora pertençam a contextos culturais muito diferentes, ambos existem porque comunidades decidiram preservar seus saberes, suas celebrações e seus modos de viver a tradição. Em ambos os casos, a relevância não está apenas na figura mascarada, mas nas pessoas que, geração após geração, mantêm essas manifestações vivas. Na Dança dos Mascarados, reconhecer essa dimensão coletiva tornou-se tão importante quanto representar os próprios personagens.
Ao final dessa investigação, compreendi que algumas obras não nascem apenas da modelagem da matéria. Elas também são moldadas pela escuta, pelo respeito e pela disposição de rever o próprio olhar. O Farricoco ensinou-me que pesquisar é, antes de tudo, reconhecer que determinadas tradições são maiores do que a obra que delas se aproxima. Talvez seja justamente por isso que sua presença na Dança dos Mascarados deixou de representar uma dúvida e passou a constituir uma escolha consciente, fundamentada e profundamente respeitosa.
Nenhuma tocha permanece acesa para sempre. O que atravessa o tempo são as mãos que, geração após geração, voltam a acendê-la.
AGRADECIMENTOS
Nenhuma tradição permanece viva apenas pela memória. Ela sobrevive porque pessoas dedicam seu tempo, seu trabalho e sua fé para mantê-la em movimento. Esta página é uma homenagem à comunidade da Cidade de Goiás e a todos aqueles que, geração após geração, preservam a Procissão do Fogaréu como patrimônio cultural vivo.
ELVIS BITTENCOURT