A escolha da palavra Seres neste projeto não aconteceu por acaso. Ela nasceu da minha formação artística, da minha própria história e, principalmente, da responsabilidade que assumi ao decidir entrar em contato com saberes que existiam muito antes de mim.
Minha formação cênica me ensinou sobre representação. Nas artes, damos corpo, voz, forma, movimento e aparência àquilo que queremos representar. Um ser pode ganhar uma interpretação no teatro, na literatura, no cinema, na televisão, na ilustração ou em qualquer outra linguagem artística. Foi também assim que muitos dos seres do folclore brasileiro chegaram até grande parte da população.
Durante gerações, a escola, a literatura, a televisão, o cinema, a publicidade e outros meios de comunicação selecionaram determinadas histórias e lhes deram imagens, vozes, comportamentos e características que passaram a fazer parte da nossa memória. Para milhões de brasileiros, essas representações foram o primeiro — e muitas vezes o único — contato com o Saci, a Cuca, a Iara, o Curupira, o Boitatá e tantos outros.
Eu também cresci com elas. Reconheço sua importância e não tenho qualquer intenção de apagá-las. O problema, para mim, nunca esteve na palavra folclore. Na página anterior, explico justamente por que reivindico essa palavra em seu sentido mais essencial: o saber do povo. Minha inquietação surgiu ao perceber como determinadas representações, repetidas durante tanto tempo, ajudaram a construir um imaginário coletivo sobre aquilo que aprendemos a reconhecer como folclore brasileiro.
Comecei então a me perguntar o que existia antes da imagem que chegou até nós. Quem contava aquela história? Em qual território? Como aquele ser era chamado? Como era descrito? Havia outras versões? O que permaneceu ao atravessar gerações e o que se transformou quando aquela narrativa chegou ao livro, à escola, à televisão e aos demais meios de comunicação?
O que procuro são as camadas de uma história e a possibilidade de reconhecer que nenhuma representação, por mais difundida que seja, consegue encerrar tudo aquilo que representa.
Foi na própria palavra ser que encontrei a maneira de expressar essa intenção. O verbo português guarda em sua história uma relação fundamental com a ideia de existência. E é essa relação que me interessa: ser é existir.
Mas existir não significa, aqui, determinar uma única natureza para aquilo que estou pesquisando. Um ser pode existir na oralidade, na memória, no território, na crença, na ancestralidade, nos relatos, nas práticas culturais, no imaginário coletivo e, para aqueles que assim o compreendem, de outras maneiras que não cabe a mim confirmar, negar ou determinar. Não preciso decidir primeiro como algo existe para reconhecer que sua existência produz memória, narrativa, identidade e cultura.
Talvez essa ideia tenha encontrado em mim um lugar tão profundo porque o saber popular também chegou até mim através das pessoas que amei.
Minha avó viveu 92 anos. Ela dizia à minha mãe que precisava se casar e não permanecer “amancebada”, porque poderia virar lobisoma. Não sei quem contou isso para minha avó. Mas alguém contou. E, antes dessa pessoa, provavelmente outra já havia contado. Até que um dia ela contou para nós.
Não trago essa lembrança para transformá-la numa figura pitoresca, ingênua ou representante de um Brasil que ficou para trás. Muito pelo contrário. Minha avó sabia aquela história. O saber dela era genuíno. Não precisava estar publicado em um livro para existir. Aquela narrativa havia chegado até ela, encontrado lugar em sua maneira de compreender o mundo e, através de sua voz, alcançado outra geração.
Desde que me lembro como gente, ela também mantinha uma caixa cuidadosamente guardada dentro do guarda-roupa. Ali estava sua mortalha: vestido, anágua, touca, luvas, meias e sapatilhas. Lembro dos bordados, das pérolas, de tudo alinhado. Ela dizia que aquela era a roupa com a qual queria ser apresentada a Deus. E lembro do azeite de oliva que passava nos cabelos. Durante muito tempo nem consegui comer azeite, porque aquele cheiro, para mim, pertencia à cabeça dela.
Hoje tenho saudades.
Minha avó tinha defeitos e contradições. Carregava valores e preconceitos da sociedade e do tempo em que viveu. Não preciso torná-la perfeita para reconhecer aquilo que recebi dela. E, entre todas as suas contradições, foi também uma das pessoas que mais me permitiu ser.
Talvez por isso essa palavra tenha adquirido para mim um significado tão particular. Antes mesmo de compreender determinados conceitos ou saber quais palavras respondiam àquilo que eu era, algumas chegaram até mim como ofensa. Primeiro fui nomeado pelos outros. Depois pude compreender, me reconhecer e me nomear. Com o tempo, palavras foram questionadas e ressignificadas, comunidades conquistaram o direito de falar sobre si mesmas e direitos foram reconhecidos. Hoje posso dizer quem sou com orgulho.
Não comparo minha experiência à natureza dos seres que pesquiso. São histórias completamente diferentes. Mas minha trajetória me ensinou a dimensão que pode existir no ato de nomear o outro. E talvez por isso, antes de decidir o que algo é, eu tenha escolhido simplesmente permitir que seja.
Essa escolha não termina no nome do projeto. Ela determina a maneira como quero trabalhar. Para cada ser, pretendo pesquisar aquilo que for possível conhecer e documentar: sua origem, quando identificável, seu território, seus nomes, registros, narrativas, diferentes versões e fontes. Quero também ouvir, sempre que possível, as pessoas que mantêm esses saberes vivos. Se houver versões diferentes, elas devem aparecer. Se as fontes divergirem, a divergência deve aparecer. Se uma informação não puder ser confirmada, isso também precisa ser dito. E, quando eu não souber, quero ter a honestidade de dizer: não sei.
É somente depois desse encontro que começa outra parte do meu trabalho: a arte.
A escultura não será apresentada como a forma daquele ser, mas como a minha interpretação artística a partir daquilo que pesquisei. E pretendo explicar cada decisão escultórica: por que determinada forma, expressão, cor, material, textura, objeto ou símbolo está ali; de onde nasceu aquela escolha; e até por que algo que talvez fosse esperado não foi utilizado. Quando uma decisão vier diretamente da pesquisa, quero mostrar essa relação. Quando for uma escolha estética, poética ou pessoal, quero deixar isso igualmente claro.
Não posso impedir — e nem gostaria — que alguém interprete livremente uma obra de arte. Mas posso assumir a responsabilidade pelaquilo que eu coloquei nela. Posso deixar claro onde termina aquilo que encontrei e onde começa aquilo que criei. Quero dizer: “foi assim que eu o interpretei depois desta pesquisa, e posso mostrar o caminho que me levou até aqui.”
É com essa responsabilidade que pretendo entrar em cada nova história: humildemente, com todo o respeito do mundo e com a certeza de que nada sei sobre aquilo que ainda não conheci. Cada pesquisa exigirá empenho, horas de dedicação, escuta e criação. Uma palavra poderá mudar uma cor. Um relato poderá retirar um objeto. Uma nova fonte poderá contradizer aquilo que eu acreditava saber. Uma pessoa poderá me apresentar uma história que nenhum documento havia me mostrado. Um território poderá me fazer começar novamente.
E espero que faça.
Não quero chegar a um território procurando justificativas para uma escultura que já decidi criar. Quero permitir que aquilo que encontrar transforme aquilo que criarei. As histórias existiam antes de mim e continuarão existindo depois. É o povo que as conta, transmite, transforma, esquece, recupera e decide quais delas continuarão fazendo sentido. Meu compromisso é pesquisar com empenho, organizar, contextualizar e tornar acessível aquilo que conseguir encontrar para quem tiver interesse em conhecer essa pesquisa. Depois, assumo aquilo que verdadeiramente me pertence: a interpretação artística. E por ela eu respondo.
Chego, portanto, com a certeza de que o território não me pertence. Permito que o território me devore e devolvo à sociedade, em forma de arte, aquilo que esse encontro provocar em mim.
No fim, talvez o próprio nome deste projeto seja a síntese mais simples de tudo isso:
Folclore = saber do povo.
Ser = existir.
Seres do Folclore Brasileiro = seres que existem no saber do povo brasileiro.