A Matinta Pereira é um ser da tradição oral amazônica cuja presença costuma ser anunciada por um assobio noturno. Em muitas narrativas, ela se manifesta como uma pessoa capaz de assumir outras formas, especialmente a de uma ave. A imagem mais difundida apresenta uma mulher idosa que atravessa a noite assobiando e, durante o dia, aparece para pedir ou recolher café, tabaco e outros produtos. Contudo, as histórias contadas pelos moradores revelam manifestações distintas conforme o território e a memória de quem narra. O acervo divulgado pela Rádio UFPA, com gravações realizadas em Abaetetuba e Ananindeua em 1994, permite ouvir algumas dessas diferenças nas próprias vozes dos narradores.
O encontro com a Matinta pode começar apenas pelo som. Quem a escuta nem sempre consegue observar um corpo ou acompanhar uma transformação. Em seu estudo sobre narrativas de Bragança, publicado em 2007, Josebel Akel Fares identifica manifestações invisíveis, aéreas e terrestres. A presença pode ser percebida pelo assobio ou aparecer com uma forma reconhecível; algumas histórias mostram a passagem entre o humano e o sobrenatural, enquanto outras deixam parte desse processo fora da visão de quem conta.
O assobio e a promessa
Nas narrativas bragantinas examinadas por Fares, o assobio interrompe o descanso dos moradores. Para obter sossego, alguém promete café ou tabaco à Matinta, convidando-a a buscar a oferta na manhã seguinte. O silêncio retorna e, depois, uma pessoa aparece para cobrar o prometido. Essa sequência aproxima dois momentos: a presença noturna, difícil de identificar, e a visita diurna em forma humana. A cobrança da oferta se torna uma pista sobre quem havia assobiado.
A promessa estabelece uma relação entre a Matinta e quem a escuta. Fernando Alves da Silva Júnior investigou esse aspecto nas narrativas de Taperaçu Campo, em Bragança, aproximando-o do conceito de dádiva de Marcel Mauss. Conforme a discussão retomada por Rubens da Silva Ferreira e Cleide Furtado Nascimento, a troca envolve obrigações: oferecer algo, recolher a oferta e cumprir a palavra dada. Assim, café e tabaco participam de uma negociação que liga o assobio, o sossego desejado e o reconhecimento de uma identidade.
A Matinta nos registros de Câmara Cascudo
Luís da Câmara Cascudo é uma referência para acompanhar os registros escritos da Matinta. No verbete de seu Dicionário do Folclore Brasileiro, reproduzido por Fares a partir da edição de 1988, ele aproxima a Matinta do Saci em sua manifestação como ave e a relaciona a Tapera naevia, da família dos cuculídeos. Embora o trecho também mencione a identificação popular com uma pequena coruja, Cascudo distingue essa ave dos cuculídeos. A referência mostra que a associação entre Matinta e pássaro reúne problemas de nomeação e identificação que precisam ser examinados em cada fonte. Nesta apresentação, a leitura de Cascudo é feita por meio da transcrição de Fares.
Um corpo que muda de uma história para outra
A pesquisa de Andressa de Jesus Araújo Ramos, apresentada à UFPA em 2019, amplia a compreensão dessas transformações. Ao examinar narrativas dos livros Santarém conta…, Belém conta…, Abaetetuba conta… e Bragança conta…, a pesquisadora encontra formas humanas que variam entre mulher e homem, jovem e velha. Nas metamorfoses, aparecem aves, anfíbios, répteis, mamíferos e peixes. Esse conjunto permite reconhecer que a Matinta pode atravessar diferentes ambientes e assumir corpos que ultrapassam a imagem conhecida da mulher transformada em coruja.
Essa diversidade também aparece nos deslocamentos: Ramos identifica passagens entre o aéreo e o terrestre, o rural e o urbano, além de formas bípedes e quadrúpedes. Para conhecer a Matinta, portanto, importa observar como cada narrativa descreve seu corpo, seus movimentos e suas ações. Uma característica encontrada em determinado relato pode não aparecer em outro, mesmo quando ambos utilizam o mesmo nome.
Como alguém se torna Matinta?
Algumas histórias apresentam a condição de Matinta como uma sina ou um fado, que pode acompanhar a pessoa desde o nascimento ou ser adquirido. Ferreira e Nascimento discutem essas versões em seu estudo sobre Curuçambaba, no município paraense de Bujaru. Entre as formas de transmissão, registram uma pergunta que guarda uma armadilha: “Quem quer?”. A pessoa que responde “Eu quero!” recebe a condição sem conhecer o que estava aceitando. Nessa versão, a transformação também passa pela palavra e pela resposta dada a um chamado.
Uma presença na memória e na vida cotidiana
Nos relatos recolhidos em Curuçambaba em 2015, moradores falam de Matintas que viveriam entre eles e narram situações de encontro e avistamento. Ferreira e Nascimento observam que essas histórias carregam representações sobre gênero, velhice e pobreza, além de participar da formação dos mais jovens. A pesquisa abre, assim, perguntas sobre as pessoas associadas à Matinta e sobre como a comunidade reconhece, teme ou interpreta sua presença.
No Amapá, a Matinta Perera integra o repertório registrado por Joseli Dias em Mitos e Lendas do Amapá, cuja edição de 2020 foi publicada pelo Senado Federal. A apresentação editorial informa que o escritor reuniu histórias durante sua passagem por vilas, pequenas cidades, serrarias e acampamentos do estado. Esse registro constitui uma entrada para investigar as versões amapaenses e suas relações com outras narrativas amazônicas, mantendo reconhecido o lugar de cada relato.
A Matinta Pereira reúne, portanto, uma presença sonora, corpos em transformação e relações com os moradores. Seu assobio provoca uma escuta; a promessa cria um compromisso; a visita pode revelar uma identidade; e o relato transmite a experiência a outras pessoas. É por essas relações que esta investigação começa a se aproximar da Matinta e dos territórios que continuam fazendo suas histórias circular.
Em suma: quem é a Matinta Pereira?
A Matinta Pereira é um ser das histórias contadas na Amazônia, conhecido pelo assobio que atravessa a noite. Em muitas versões, é uma mulher idosa que se transforma em pássaro. Ao ouvi-la, os moradores prometem café ou fumo para que ela os deixe descansar. Na manhã seguinte, alguém aparece para buscar o que foi prometido — e essa visita pode revelar quem é a Matinta.
Mas suas histórias variam: ela pode ter outras idades, assumir diferentes animais ou ser apenas ouvida, sem que ninguém a veja. Há também relatos em que uma pessoa nasce Matinta ou recebe essa condição de outra. Suas formas e seus caminhos mudam conforme o lugar e quem conta a história.
Fontes para este bloco
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1988. Verbete consultado por meio da transcrição de Josebel Akel Fares.
FARES, Josebel Akel. Imagens da Matinta Perera em contexto amazônico. Boitatá, v. 2, n. 3, p. 62–77, 2007.
RAMOS, Andressa de Jesus Araújo. Maravilhoso e alteridade em narrativas da Matintaperera. Dissertação de mestrado, UFPA, 2019.
FERREIRA, Rubens da Silva; NASCIMENTO, Cleide Furtado. O mito da Matinta Perera e suas formas variantes em Curuçambaba, Bujaru (Pará, Brasil). Boitatá, n. 25, p. 242–258, 2018.
SILVA JÚNIOR, Fernando Alves da. O mito da Matinta Perera de Taperaçu Campo e o conceito de dádiva: aproximando-se de um conceito antropológico. Amazônica, v. 6, n. 2, p. 484–502, 2014. Discussão consultada por meio de Ferreira e Nascimento.
DIAS, Joseli. Mitos e Lendas do Amapá. Edição de 2020. Apresentação editorial consultada na Livraria do Senado.
RÁDIO UFPA. Conto Ribeirinho: episódio sobre a Matinta Pereira, com narrativas do acervo IFNOPAP.
A pesquisa da Matinta Pereira parte do Amapá e acompanha suas relações com a memória oral amazônica. Esse recorte territorial se apoia na circulação de suas histórias no estado, sem estabelecer uma origem exclusiva ou uma única forma de manifestação.
Uma entrada documental é a obra Mitos e Lendas do Amapá, de Joseli Dias, publicada em edição de 2020 pelo Senado Federal. Segundo a apresentação editorial, o escritor percorreu, durante três anos, vilas, pequenas cidades, serrarias e acampamentos amapaenses, anotando histórias contadas pelos moradores. A Matinta Perera integra esse repertório, que também ganhou desdobramentos no teatro, na música e na televisão. O livro permite investigar tanto o registro das narrativas quanto sua passagem para outras formas de expressão.
A presença da Matinta também está documentada em localidades paraenses. O acervo do projeto Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia Paraense, da UFPA, reúne relatos gravados em Abaetetuba e Ananindeua em 1994. Nessas histórias, suas características variam conforme a localidade e seus narradores, evidenciando a importância de acompanhar cada versão em seu contexto.
Nesta investigação, o território será compreendido também pelas pessoas que fazem a narrativa circular: quem conta, de quem ouviu, onde situa o encontro e como essa memória participa da vida cotidiana. O Amapá constitui o ponto de partida para reconhecer essas relações, mantendo identificada a procedência de cada registro e acompanhando as aproximações com outras narrativas amazônicas.
Quem procura histórias da Matinta logo encontra diferentes maneiras de escrever seu nome: Matinta Pereira, Matinta Perera e Matintaperera. Essas formas aparecem em livros, pesquisas e registros de histórias contadas pelos moradores. Joseli Dias utiliza Matinta Perera em seu repertório amapaense; Josebel Akel Fares também emprega essa grafia; e Andressa de Jesus Araújo Ramos escreve Matintaperera no título de sua pesquisa. São nomes pelos quais podemos acompanhar as histórias desse ser.
Uma curiosidade é que matintaperera também é nome de pássaro. O Dicionário Priberam registra a palavra como uma das denominações de Tapera naevia, ave conhecida também como martim-pererê, saci e sem-fim, e indica que o nome vem do tupi. Assim, a palavra nos leva tanto às histórias da Matinta quanto às aves reconhecidas pelos seus cantos.
Câmara Cascudo também chama atenção para essa ligação. No verbete de seu Dicionário do Folclore Brasileiro, reproduzido pela pesquisadora Josebel Akel Fares, ele relaciona a Matinta a Tapera naevia. E aqui cabe um detalhe: essa ave não é uma coruja; pertence à família dos cuculídeos. A coruja aparece em versões conhecidas da Matinta, enquanto esse registro aponta para outro pássaro.
Isso ajuda a entender por que precisamos escutar cada história com atenção. Quando alguém fala em Matinta, qual presença está descrevendo? Uma pessoa que se transforma? Um pássaro ouvido durante a noite? Um assobio cujo dono ninguém conseguiu ver? Nas narrativas estudadas por Fares, essas maneiras de perceber a Matinta variam. O nome aproxima os relatos, mas os detalhes vêm de quem conta e do lugar onde a história acontece.
Nesta pesquisa, usamos Matinta Pereira como nome principal e preservamos as outras formas quando aparecem nas fontes. Cada uma delas pode nos ajudar a encontrar novos relatos e acompanhar os caminhos dessa memória.
As histórias da Matinta já circulavam de boca em boca quando começaram a aparecer nos livros. Para acompanhar esse percurso, podemos olhar para alguns registros do século XIX. Eles mostram como determinados autores ouviram, descreveram e interpretaram essas histórias em sua época.
Um deles é o texto As populações indígenas e mestiças na Amazônia: sua linguagem, suas crenças e seus costumes, publicado por José Veríssimo em 1887. Ao examinar esse documento, a pesquisadora Josebel Akel Fares encontra uma descrição diferente da mulher que se transforma em pássaro: Veríssimo apresenta um pequeno ser de uma perna só, acompanhado por uma velha, que percorre a noite pedindo tabaco. Nessa descrição, aparecem elementos que também lembram o Saci, como o barrete vermelho.
No mesmo texto, Veríssimo registra outras formas: um velho com a cabeça amarrada, como alguém doente, que pede tabaco; e um feiticeiro que toca uma flauta cuja melodia imita seu nome. Ele também menciona uma pequena ave das capoeiras com canto associado ao nome da Matinta. Essas descrições são apresentadas aqui a partir da leitura e dos trechos reunidos por Fares.
Esses registros abrem uma pergunta: o que cada autor conseguiu ouvir e o que acrescentou ao escrever? Um livro guarda parte de uma história, mas também carrega as escolhas de quem a registrou. Por isso, vamos acompanhar cada documento com seu autor, sua época e seu lugar, aproximando essas páginas das vozes que continuam contando sobre a Matinta.
Matinta e Saci: nomes que se encontram nos livros
Depois de José Veríssimo, outro registro importante aparece em Poranduba amazonense, publicado por João Barbosa Rodrigues em 1890. A obra reúne narrativas e outros registros amazônicos e nos ajuda a acompanhar as aproximações entre Matinta, Saci e seus diferentes nomes.
Ao discutir esse livro, os pesquisadores Rubens da Silva Ferreira e Cleide Furtado Nascimento apresentam Maty-taperê como uma forma relacionada ao nome Matinta Pereira. Nessa leitura, a Matinta também é aproximada do Saci. Isso mostra que, nos registros escritos, os nomes e as características desses seres por vezes se cruzam. A informação chega aqui pelo estudo dos pesquisadores; a passagem original de Barbosa Rodrigues ainda precisa ser conferida diretamente.
Essa aproximação pode surpreender quem conhece apenas o Saci de uma perna só e a Matinta como mulher que se transforma em ave. Josebel Akel Fares observa que autores antigos associaram a Matinta ao Saci ou a descreveram como pássaro. Entre esses registros, houve também diferenças na identificação da ave.
Para nossa pesquisa, esse encontro abre uma pergunta: quando um autor aproxima Matinta e Saci, quais histórias está reunindo? Vamos acompanhar essas relações olhando para cada descrição e para sua procedência. Assim, podemos compreender como os nomes se encontraram nos livros e continuar escutando o que cada comunidade conta sobre a Matinta.
Quando a Matinta chega pela voz de quem conta
Depois dos registros antigos, seguimos para as histórias contadas pelos moradores. Uma dessas entradas é o acervo do projeto Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia Paraense, o IFNOPAP, da Universidade Federal do Pará.
O primeiro episódio do podcast Conto Ribeirinho, dedicado à Matinta, apresenta gravações feitas em Abaetetuba e Ananindeua, em 1994. São vozes de pessoas contando histórias que fazem parte da memória desses lugares. A apresentação do episódio destaca que as manifestações da Matinta mudam de uma localidade para outra: ela pode aparecer como pássaro ou gente, e seus pedidos incluem café, tabaco e outros produtos.
Há um detalhe interessante nesse material: a equipe preservou os ruídos das antigas gravações para manter seu caráter histórico. Ao ouvir, encontramos também as marcas do registro feito naquele tempo.
A pesquisadora Josebel Akel Fares chama atenção para algo que a passagem da fala para o papel pode deixar escapar: as pausas, os olhares e os gestos de quem conta. Em suas visitas a Bragança, ela também observou familiares e vizinhos participando das narrativas, pedindo determinadas histórias, corrigindo detalhes e contando trechos. A memória circulava entre várias pessoas durante o próprio encontro.
Por isso, a partir daqui, cada relato será acompanhado de seu lugar, de quem o contou e de como foi registrado, sempre que essas informações estiverem disponíveis. Esses detalhes ajudam a conhecer a Matinta junto das pessoas que mantêm suas histórias vivas.
Quer ouvir essas histórias?
O primeiro episódio do podcast Conto Ribeirinho reúne relatos sobre a Matinta gravados em Abaetetuba e Ananindeua, no Pará, em 1994. As vozes fazem parte do acervo do IFNOPAP e foram reunidas em uma produção da Na Cuia em parceria com a UFPA.
Ao ouvir, preste atenção no jeito de contar, nas pausas e nas diferenças entre as histórias.
Ouvir o episódio “Matinta Pereira” na Rádio UFPA
A pergunta sobre a primeira Matinta nos levou a Matiá, uma mulher indígena apresentada na história As filhas da Matinta, do escritor e contador de histórias amapaense Joca Monteiro.
Uma notícia publicada pelo Diário do Amapá, em abril de 2015, descreve uma apresentação dessa história. Segundo o jornal, o enredo se passa no Oiapoque, envolve um conflito entre os povos Galibi-Marworno e Palikur e apresenta Matiá como uma mulher com poderes extraordinários, associada à Matinta Pereira. A notícia traz apenas um resumo, sem contar como acontece essa transformação.
A busca também encontrou As filhas da Matinta — Oiapoque entre os livros da coletânea Histórias do Amapá, apresentada no blog de Joca Monteiro. Ali, o autor relata seu trabalho de percorrer os municípios amapaenses e conversar com mestres da cultura popular para reunir histórias. Ainda precisamos conhecer o livro e identificar de quem veio especificamente o relato de Matiá.
Matiá seria, então, a primeira Matinta? Temos uma história que pode ajudar a explorar essa pergunta, mas os registros encontrados ainda não permitem responder. Por enquanto, sabemos que ela aparece numa narrativa apresentada por Joca Monteiro e situada no Oiapoque.
Esse caminho nos leva a conhecer melhor os dois povos mencionados no enredo: Galibi-Marworno e Palikur. Suas histórias e seus territórios serão o próximo passo da pesquisa.
Conhecer a notícia sobre “As filhas da Matinta”
Conhecer o trabalho de Joca Monteiro
O que contam os relatos do Uaçá?
As histórias sobre as guerras entre Palikur e Galibi foram registradas pela antropóloga Lux Boelitz Vidal em pesquisa realizada em 1996 e publicada em 2001. Ao ouvir diferentes narradores, ela encontrou versões que mudam conforme o povo e a pessoa que conta.
Entre os Palikur, uma das versões conta que os guerreiros recebem ajuda dos karuãna, seres de outro mundo, para enfrentar seus inimigos. O conflito atravessa também o mundo do fundo das águas, onde acontece uma luta envolvendo uma grande cobra.
Entre os Galibi-Marworno de Kumarumã, os relatos também variam. Firmino conta que os povos fizeram um acordo e cada um seguiu para seu rio. Getúlio descreve disputas por meio de cantos e desafios, ligados ao direito de ocupar o Uaçá. Ao terminar, lembra que os dois povos passaram a se considerar irmãos e a cooperar. www.scielo.br
E Matiá? Nesse conjunto de relatos, não encontramos seu nome nem uma referência explícita à Matinta. Encontramos histórias de conflitos, acordos e encontros com seres de outros mundos. Elas ajudam a conhecer o território para onde a busca nos levou; a ligação específica com Matiá continua em aberto.
Leia os relatos registrados por Lux Vidal.
Os Karipuna são um dos povos indígenas da região de Oiapoque, no extremo norte do Amapá. Suas comunidades se distribuem principalmente ao longo do rio Curipi, na Terra Indígena Uaçá. Entre elas está a aldeia Manga, onde encontramos um relato que liga a Matinta Pereira à memória da formação da comunidade.
A história Karipuna reúne famílias de diferentes origens, ligadas por relações de parentesco, pela vida nas aldeias e por conhecimentos transmitidos entre gerações. O kheuól, língua de base francesa falada pelo povo, também participa dessa transmissão. Nas histórias contadas pelos mais velhos, ficam guardadas lembranças dos lugares, dos animais, dos seres e dos cuidados necessários para viver naquele território.
Foi buscando conhecer a trajetória de sua própria comunidade que Samara dos Santos, pesquisadora Karipuna e descendente dos fundadores da aldeia Manga, registrou o depoimento de Constância Monteiro dos Santos. Segundo Constância, antes da permanência das famílias que deram origem à aldeia, outras pessoas já haviam tentado morar naquele lugar. Elas, porém, acabavam partindo porque temiam a presença de um ser conhecido como Matinta Pereira.
Na explicação que acompanha o depoimento, Samara registra que a aparição da Matinta na mata, perto das casas, poderia provocar mal-estar, dor de cabeça e até a morte. O medo alcançava, portanto, a saúde e a própria vida dos moradores. Nesse relato, a Matinta está ligada a uma consequência concreta: deixar a moradia e procurar outro lugar para viver.
A formação da aldeia também envolveu a busca por melhores condições de sustento. Em 1973, Florêncio Primo dos Santos e seus genros, Teodoro dos Santos e Olímpio Forte, saíram da aldeia Santa Izabel à procura de terras para suas roças. Os espaços de plantio estavam distantes e havia dificuldades com formigas-de-fogo. Subindo o Curipi, encontraram o lugar onde se estabeleceria Manga. As lembranças reunidas por Samara falam de casas, plantações, pesca, chegada de parentes e crescimento da comunidade. É nessa história de ocupação e permanência que o depoimento sobre a Matinta aparece.
O registro não descreve sua aparência, seu assobio ou uma transformação em pássaro. Ele revela outra dimensão da Matinta: uma presença reconhecida na mata e lembrada pelas famílias ao contar a história do lugar. Aqui, conhecer esse ser passa também por ouvir quem vive no território e compreender o que sua presença significava na vida dos moradores.
Conheça essas histórias pelas palavras de quem pertence ao povo Karipuna
Samara dos Santos reúne depoimentos de moradores sobre a formação da aldeia Manga, incluindo a lembrança de Constância Monteiro dos Santos sobre a presença da Matinta.
Leia os relatos registrados por Samara dos Santos — a passagem sobre a Matinta está na página 22
Cora Carolina Aniká dos Santos apresenta narrativas transmitidas em sua família e contadas por sua mãe, Maria Sônia Aniká. O trabalho traz as histórias da Cobra Aramari, da Cobra Kadaikaro e da Lagarta Sini. A Matinta é mencionada entre as narrativas conhecidas da aldeia, mas sua história não é transcrita.
Leia as narrativas Karipuna registradas por Cora Carolina Aniká dos Santos
Em Mitos e lendas do Amapá, Joseli Dias apresenta “O caçador de Matintas”, história de Florêncio, um lavrador da vila do Cantazal que decide descobrir quem está por trás dos assobios noturnos.
Um comerciante lhe explica que a Matinta pode assumir a forma de coruja e, quando perseguida, transformar-se também em outros animais. Florêncio procura um jeito de revelar sua identidade, apesar dos pedidos insistentes da mãe para que desista.
Ele aprende que deve oferecer tabaco durante o assobio: quem aparecer na manhã seguinte para buscá-lo será a Matinta. Coloca o plano em prática e reúne os moradores diante de sua casa, esperando reconhecimento por desmascará-la. Mas quem chega para pedir o fumo é sua própria mãe. Bibliotecas
O desfecho permite uma leitura sobre a perseguição: Florêncio procura uma ameaça fora de casa e encontra alguém de sua própria família. A história aproxima o medo da Matinta das relações entre vizinhos e parentes — e da vontade de expor publicamente uma pessoa.
Fonte: DIAS, Joseli. Mitos e lendas do Amapá, seção “O caçador de Matintas”, p. 33–36.
Leia o livro no acervo do Senado Federal — PDF
Na história amapaense O caçador de Matintas, de Joseli Dias, a coruja aparece como uma das formas assumidas pela Matinta. Essa associação abre uma questão que atravessa a pesquisa: o que acontece com o animal quando seu aparecimento é interpretado como uma ameaça? A presença da coruja nas narrativas merece ser compreendida, mas também precisamos olhar para a ave que vive, caça e se reproduz nos mesmos territórios.
Uma das espécies envolvidas nesse temor é a suindara (Tyto furcata), conhecida como coruja-da-igreja, coruja-das-torres e rasga-mortalha. Seu rosto claro, em forma de coração, e sua vocalização forte ajudam a reconhecer a espécie. O nome rasga-mortalha associa o som da ave ao tecido usado para envolver os mortos. O ruído é uma vocalização do animal, inclusive durante o voo; não deve ser confundido com um tecido sendo rasgado pelas asas. Um guia publicado pelo ICMBio descreve justamente essa chamada característica. gov.br
O hábito noturno, a aparição inesperada e os sons pouco familiares oferecem elementos para pensar a construção do medo. Contudo, a vocalização de uma coruja não constitui evidência de que alguém morrerá. A interpretação de mau agouro pertence à história cultural da relação com a ave; não é uma função biológica de seu canto.
Também é necessário evitar uma identificação automática: a Matinta não corresponde a uma única espécie de coruja, e diferentes narrativas podem associá-la a outras aves ou formas. Mesmo quando um relato menciona uma coruja, precisamos preservar o que foi contado, sem acrescentar uma identificação zoológica que a fonte não oferece.
Não existe uma única “visão indígena da coruja”. Cada povo tem seus conhecimentos, suas narrativas e suas maneiras de compreender as relações entre humanos, animais e outros seres. Por isso, a pesquisa no Amapá precisa começar pelas fontes ligadas aos povos do próprio território.
Entre os Karipuna do Amapá, há registros de seres dos mundos do fundo das águas e da mata que podem se apresentar com aparência animal. Na descrição reunida pelo Instituto Socioambiental, essas presenças têm vida própria em seus mundos e assumem revestimentos de animais ao circular no mundo humano: penas, pelos ou pele. Essa compreensão ajuda a perceber que uma aparência animal pode carregar relações que ultrapassam a classificação biológica. A fonte, porém, não estabelece uma interpretação específica para todas as corujas nem autoriza identificar qualquer ave como Matinta. povosindigenas.org.br
As aves também aparecem em narrativas sobre convivência e território. No registro do Turé das Aves, a professora Karipuna Edilena dos Santos explica uma história que ouviu de Tangahá Karipuna, da aldeia Espírito Santo. Ela relaciona os lugares escolhidos pelos pássaros à distribuição dos povos pelos rios e ao cuidado com seus espaços. É uma referência importante porque mostra que as aves podem participar da transmissão de conhecimentos sobre pertencimento, diversidade e responsabilidade territorial. www2.unifap.br
Esses registros permitem tratar a dimensão espiritual com respeito e precisão. Reconhecer a importância das narrativas não exige transformar seus significados em uma justificativa para perseguir os animais.
A perseguição às corujas por sua associação com o mau agouro é documentada pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Em uma ação de educação ambiental, a instituição registra que suindaras são caçadas e mortas em regiões amazônicas por causa desse temor. Temos, portanto, um problema de conservação reconhecido por uma instituição científica da Amazônia. gov.br
Nas fontes consultadas, não encontramos uma contagem confiável de corujas mortas por esse motivo no Amapá. Isso impede apresentar números locais ou estimar uma suposta matança anual. O dado disponível documenta a prática de perseguição, sem medir sua extensão no estado.
Também seria incorreto atribuir essa violência aos povos indígenas como um conjunto. A associação entre corujas e perigo circula em diferentes ambientes sociais; para identificar quem agride os animais, onde e por qual motivo, são necessários registros específicos.
A suindara é uma predadora noturna que se alimenta principalmente de pequenos roedores. Ao caçar, participa da regulação dessas populações e das relações alimentares do ambiente. Outras espécies de corujas têm dietas diferentes, que podem incluir insetos e outros pequenos animais. Por isso, sua função ecológica precisa ser compreendida conforme a espécie, e não resumida a uma única alimentação. gov.br
Seu corpo apresenta adaptações para encontrar presas na escuridão. O disco de penas ao redor da face ajuda a direcionar os sons aos ouvidos; a disposição assimétrica dos ouvidos favorece a localização sonora; e características das penas reduzem o ruído do voo. O que pode parecer uma chegada misteriosa resulta também dessas capacidades de caça. Instituto Butantan
Como referência de educação ambiental, o Museu Goeldi informa que uma família de corujas pode consumir entre três e cinco mil ratos por ano. Esse valor deve ser entendido como uma estimativa divulgada pela instituição, variável conforme as condições, e não como uma medida feita nas populações do Amapá. Ele ajuda a dimensionar o papel dessas aves: eliminar uma coruja também significa retirar um predador que participa do equilíbrio ambiental. gov.br
A proteção começa por atitudes concretas: não agredir, perseguir ou capturar corujas; não destruir seus ninhos; e evitar perturbar seus locais de abrigo. A Lei de Crimes Ambientais prevê proteção à fauna silvestre e inclui condutas como matar ou capturar animais sem a devida autorização, além de danificar ou destruir ninhos e abrigos naturais. planalto.gov.br
Diante de uma ave ferida ou em situação de risco, o encaminhamento deve ser orientado por profissionais. Os Centros de Triagem de Animais Silvestres do Ibama recebem animais resgatados, realizam avaliação e recuperação e definem sua destinação. Ibama
No Amapá, o Cetas de Macapá pode ser consultado pelo telefone (96) 99193-0098 ou pelo e-mail cetas.ap@ibama.gov.br. O contato consta no diretório oficial do Ibama. Ibama
A educação ambiental pode acolher as lembranças dos moradores, ouvir suas histórias e apresentar o comportamento da ave. O objetivo é impedir que o medo se transforme em agressão. A Matinta pode continuar presente na memória do território, enquanto as corujas continuam vivas nele.
Para conhecer as fontes:
Museu Goeldi — perseguição às suindaras e educação ambiental
UNIFAP — pesquisa que registra o Turé das Aves e o depoimento de Edilena dos Santos
Ibama — contatos dos Centros de Triagem de Animais Silvestres
Ao reunir essas fontes, percebo que a Matinta chega até nós por caminhos diferentes: a lembrança de uma moradora, a escrita de um pesquisador, uma história publicada em livro, uma narrativa recriada para ser contada. Minha posição nesta pesquisa é acompanhar esses caminhos e reconhecer quem fala em cada um deles. Isso permite aproximar os registros sem fazer com que uma versão responda por todas as outras.
A busca por Matiá nos levou ao Oiapoque e às narrativas dos povos Galibi-Marworno e Palikur. Nos relatos registrados por Lux Vidal, encontramos guerras, acordos e encontros com seres de outros mundos. Entretanto, ainda falta localizar o relato que liga especificamente Matiá à Matinta. Essa diferença entre as fontes precisa permanecer visível: os registros sobre os conflitos ajudam a conhecer o contexto regional, mas não comprovam a procedência dessa história.
Não considero essa lacuna uma prova de apagamento histórico nem de invenção do autor contemporâneo. As fontes consultadas ainda não permitem escolher entre essas explicações. A questão exige conhecer a origem do relato e como ele é reconhecido pelos narradores dos povos mencionados. Uma história pode continuar sendo transmitida sem aparecer nas publicações que conseguimos acessar. O limite do nosso levantamento não deve ser confundido com o limite da memória dessas comunidades.
Entre os Karipuna, o depoimento de Constância Monteiro dos Santos oferece outro ponto de aproximação. A Matinta aparece na lembrança das famílias que deixavam o lugar onde mais tarde se formaria a aldeia Manga. Ali, sua presença participa da história de morar, temer e partir. O relato aproxima esse ser das decisões cotidianas e da relação dos moradores com a mata próxima às casas.
A língua acrescenta uma pergunta a esse encontro. O depoimento está publicado em português, mas o trecho consultado não esclarece em qual língua a conversa aconteceu. Ainda não sabemos como a Matinta é nomeada nessa narrativa quando contada em kheuól, nem se houve tradução. Não cabe afirmar que algo se perdeu sem conhecer o registro original. Cabe procurar essa dimensão: o nome pronunciado, as expressões usadas, as pausas e os sentidos que os próprios falantes reconhecem. A maneira de contar também faz parte da história.
Quando aproximamos os registros antigos e recentes, percebemos que o corpo da Matinta também varia. A descrição de um ser de uma perna só e barrete vermelho, encontrada em José Veríssimo, convive na pesquisa com formas humanas, aves e possibilidades de transformação em outros animais. Essas diferenças não demonstram uma evolução ordenada, como se uma aparência tivesse necessariamente dado origem à seguinte. Elas mostram que as fontes preservam maneiras distintas de reconhecer sua presença.
O Tapera naevia e a suindara precisam, por sua vez, ser reconhecidos como aves diferentes. Sua aproximação com a Matinta depende de cada narrativa e de cada referência. O nome do ser, o animal associado a ele e a descrição de seu corpo nem sempre coincidem. Manter essa distinção ajuda a compreender por que uma única imagem não dá conta de todos os relatos.
Também me importa o que essas associações produzem na vida dos animais. A pesquisa sobre as corujas mostrou que o medo do mau agouro pode se transformar em perseguição. Preservar as histórias e proteger as aves são responsabilidades que podem caminhar juntas. Podemos ouvir o que uma presença significa para os moradores e, ao mesmo tempo, apresentar o comportamento do animal e combater sua agressão.
Até aqui, o Amapá nos trouxe histórias ligadas a lugares e pessoas: a memória Karipuna da aldeia Manga, a busca por Matiá no Oiapoque e o relato em que o caçador de Matintas encontra a própria mãe. É a partir desses encontros que amplio agora a pesquisa para outros territórios brasileiros. A comparação permitirá acompanhar mudanças de nome, aparência e significado e, ao final, explicar a escolha do Amapá no projeto, considerando tanto suas particularidades quanto a circulação mais ampla da Matinta.
A Matinta circula por diferentes territórios brasileiros e assume outras formas conforme o lugar, a fonte e quem conta a história. Pode aparecer como uma mulher que se transforma, uma pessoa acompanhada por uma ave ou uma presença reconhecida pelo assobio. Conhecer essas versões amplia a pesquisa sem apagar as particularidades que encontramos no Amapá.
No Pará, o levantamento de Josebel Akel Fares reúne configurações bastante diferentes. A partir de Walcyr Monteiro, apresenta Matintas com asas, capazes de se transformar em pássaro, e sem asas, acompanhadas por uma ave. Retomando Eduardo Galvão, menciona uma mulher que deixa a cabeça na rede enquanto o corpo percorre a cidade. Essas descrições mostram que a transformação em coruja é uma possibilidade entre outras, e não uma aparência obrigatória. ojs.uel.br
As relações com os moradores também variam. Em Taperaçu Campo, em Bragança, Fernando Alves da Silva Júnior registra ofertas de tabaco, café e peixe, feitas com a expectativa de conseguir tranquilidade. Já a pesquisa sobre Curuçambaba, em Bujaru, aproxima os relatos de possíveis avistamentos das representações de gênero, velhice e pobreza. Além da pergunta sobre como a Matinta aparece, surge outra: quem é reconhecido como Matinta e o que essa identificação revela sobre as relações da comunidade? periodicos.ufpa.br
No Nordeste, encontramos uma referência particular em Porto de Galinhas, no município de Ipojuca, em Pernambuco. O Site de Dicas publica um relato atribuído a um morador conhecido como Pedro Bala, informando que foi recolhido em 1990. Na história, ele voltava de uma casa de farinha quando, ao atravessar uma pinguela, ouviu uma ave passar sobre sua cabeça. Não conseguiu vê-la, mas escutou um chamado que parecia repetir “saia dela”. Assustado, abandonou a carga e fugiu. Depois, teria identificado aquela presença como Matinta. Nessa versão, o encontro acontece pelo som e pelo movimento de uma ave invisível, sem a visita posterior de uma mulher para buscar fumo. É um registro de divulgação cuja procedência de coleta é informada pela própria página. www.sitededicas.com.br
Na região do Gurupi, na divisa entre Pará e Maranhão, Fares recupera uma lembrança de infância sobre histórias contadas por uma moradora vinda de Bragança. Esse episódio ajuda a acompanhar outro movimento: as narrativas viajam com seus contadores. A referência documenta a transmissão de um repertório amazônico naquela região de fronteira, sem estabelecer uma versão única para o Maranhão. ojs.uel.br
No Amazonas, o jornalista Lúcio Albuquerque menciona a “matinta pirera” entre as histórias conhecidas desde a infância e recorda parentes de Itacoatiara que transmitiam narrativas recebidas dos mais velhos. Nas comunidades ao longo da BR-319, entre Amazonas e Rondônia, uma publicação da Gestão Ambiental da rodovia também inclui a Matinta entre as presenças das narrativas orais compartilhadas por pessoas mais velhas e durante atividades coletivas. São registros de circulação e transmissão, embora essas fontes não desenvolvam uma versão local completa. www.rondoniadinamica.com
A Matinta alcança outros públicos também pela literatura, pela educação e pelo audiovisual. No Ceará, a Secretaria da Educação disponibiliza uma recontagem escrita por Matheus Picanço. No Rio de Janeiro, a MultiRio apresenta esse ser em sua produção. Essas obras participam de sua circulação pelo país, mas sua publicação em determinado estado não comprova, por si só, uma tradição oral daquele território. A memória de uma comunidade e uma recriação artística são caminhos diferentes de transmissão, e ambos precisam ter sua procedência reconhecida. apistorage.seduc.ce.gov.br
Esse percurso mostra uma presença brasileira com registros especialmente ligados à Amazônia e referências que alcançam o Nordeste e outros espaços do país. Não permite, entretanto, atribuir uma mesma história a todos os estados. Também não estabelece onde teria surgido a primeira Matinta: uma publicação antiga registra o que chegou ao seu autor, enquanto uma história de origem preserva a explicação daquela versão. Nenhuma dessas situações, isoladamente, encerra a questão.
No projeto Seres do Folclore Brasileiro, escolhi o Amapá pela possibilidade de aprofundar relações concretas entre a Matinta, a memória e o território. A pesquisa encontrou fontes produzidas por pesquisadoras Karipuna, lembranças relacionadas à formação da aldeia Manga e narrativas amapaenses que atravessam o medo, a convivência e o parentesco. Esses encontros dão consistência ao recorte e permitem acompanhar pessoas e lugares identificados.
A vinculação ao Amapá não declara uma origem exclusiva nem limita a Matinta às fronteiras do estado. Ela estabelece o lugar a partir do qual conduzo esta investigação. Organizar o projeto por territórios é uma maneira de aprofundar os encontros locais e acompanhar suas conexões com o restante do Brasil. A Matinta permanece múltipla; o Amapá é o ponto escolhido para escutar, com maior atenção, uma parte dessa diversidade.
Fontes e relatos para conhecer:
Josebel Akel Fares — diferentes configurações da Matinta e transmissão de narrativas — PDF
Fernando Alves da Silva Júnior — pesquisa em Taperaçu Campo, Pará
Relato atribuído a Pedro Bala, em Porto de Galinhas, Pernambuco
Lúcio Albuquerque — memória familiar ligada a Itacoatiara, Amazonas
Secretaria da Educação do Ceará — recontagem de Matheus Picanço — PDF