PROCESSO
PROCESSO
O Alecrim Dourado foi desenvolvido por meio do Método Investigação Encarnada — processo cênico-escultórico de pesquisa viva. Ao longo da criação, a obra foi construída em camadas sucessivas, articulando matéria, observação, escuta, imersão simbólica e registros de diário de bordo.
Gesto inaugural
O processo teve início com o preparo e o consumo do chá de alecrim, compreendido como gesto de abertura, escuta e ativação do Estudo Vivo. A estrutura foi construída sobre um toco de madeira natural, preservando seus anéis de crescimento e rachaduras. Um disco de capim-dourado foi incorporado à base, estabelecendo o primeiro diálogo simbólico entre memória vegetal e território.
Entrada do ser vivo
Durante a pesquisa, uma muda viva de alecrim foi incorporada ao ateliê. A planta passou a participar do processo não como referência decorativa, mas como presença ativa. Cheiro, textura, ritmo de crescimento e desenho dos galhos tornaram-se parte da observação diária.
O Alecrim deixou de existir apenas como texto e passou a coexistir fisicamente no espaço de trabalho.
Brotação
Registros do diário de bordo referentes à ativação cromática das ramificações e à consolidação do corpo em processo.
Formação do corpo
A escultura foi construída em camadas sucessivas. Cabeça, tronco, braços e pernas surgiram gradualmente, juntamente com as primeiras ramificações. O eixo corporal foi organizado em espiral, estabelecendo um movimento ascendente e um gesto próximo ao benzimento.
As extremidades não receberam folhas aplicadas; o corpo passou a brotar.
Objetos de memória
Ao longo do processo foram desenvolvidos elementos simbólicos que acompanham a obra:
• flauta em biscuit, associada à cantiga;
• pequeno vidro com rolha contendo fragmento natural de alecrim, compreendido como memória condensada e remédio doméstico;
• rosário vegetal em fio verde e contas de ágata, com flor vermelha central e coração na extremidade, relacionado ao cuidado, ao afeto e à continuidade.
Esses objetos não foram pensados como adornos, mas como camadas de experiência acumulada.
Imersões e estudo vivo
O processo foi acompanhado por práticas sensoriais e observações ligadas ao campo da memória, da fé e do cuidado.
Entre as experiências incorporadas ao diário de bordo encontram-se:
• preparação de chás;
• observação da planta viva;
• documentários sobre fé e espiritualidade;
• registros de benzedeiras e rezadeiras brasileiras;
• cantigas populares;
• animes e narrativas que abordam memória, transformação e passagem do tempo.
Essas experiências não serviram como ilustração da obra, mas como campo de escuta e aprofundamento simbólico.
Memória do corpo
Após a consolidação da forma corporal, iniciou-se a fase denominada Memória do Corpo.
Nela, o trabalho passou a concentrar-se nas rugas, tensões, pequenas cicatrizes, texturas e marcas superficiais. O objetivo não era envelhecer a figura, mas permitir que ela carregasse experiência.
Durante essa etapa surgiu espontaneamente a associação com o arquétipo do sátiro. Essa aproximação não foi planejada, emergindo da própria matéria em transformação. Onde o sátiro europeu se associa ao excesso e à embriaguez, o Alecrim Dourado manifesta cuidado, cantiga e benzeção, deslocando esse arquétipo para o universo da cultura popular brasileira.
Estado atual
O Alecrim Dourado permanece compreendido como uma obra em processo contínuo. Mais do que representar uma planta, a escultura procura dar corpo a uma presença ligada à memória, ao cuidado e à permanência.
"A matéria não foi obrigada a obedecer uma forma. Foi escutada até começar a guardar memória.”