Que se abra o chão diante daquele que caminha.
Antes da cidade, havia caminho.
Antes do asfalto, havia raiz.
Antes do nome escrito na placa, havia pata, folha, fruto, toca, água e fogo.
Que venha aquele que atravessa o Cerrado sem pedir licença às fronteiras traçadas pelo homem.
Que venha o corpo alto, sustentado por pernas compridas.
Que venha o animal que observa de longe, escuta antes de avançar e conhece passagens que os nossos olhos não encontram.
Não o chamamos para que abandone sua condição animal.
Não o erguemos para fazê-lo semelhante a nós.
Abrimos espaço para acompanhar sua passagem.
Pisa devagar, Lobo-Guará.
O chão guarda tudo o que o fogo não conseguiu apagar.
Aquele que se aproxima já não ocupa uma única forma.
Nas narrativas A’uwẽ, Aihö’ubuni atravessa o limite entre a aparência humana e o corpo do Lobo-Guará. A lembrança dessa transformação acompanha a obra, mas não a encerra. Aqui, o movimento segue outra direção: é o animal que se ergue e experimenta uma presença humanoide sem deixar de carregar sua anatomia, seus sentidos e seu pertencimento ao Cerrado.
As patas procuram mãos.
A coluna procura altura.
O focinho interroga o rosto.
O animal se levanta, mas não se entrega inteiramente à forma humana.
Que permaneça aberta a passagem.
Que ninguém determine o instante exato em que termina o bicho e começa o homem.
Talvez essa divisão nunca tenha existido fora de nossa vontade de classificar, possuir e dominar.
Ergue-te, Lobo-Guará.
Não para te tornares humano, mas para devolver ao humano a sua parte animal.
Que se mostrem agora as patas escurecidas.
Há um fogo que pertence aos ciclos do Cerrado e há outro que avança como instrumento de destruição. Há o calor que desperta sementes e há a chama que devora, repetida, aquilo que já não consegue se recompor.
O Lobo-Guará atravessa essa diferença com o próprio corpo.
O negro de suas patas pode ser a cor natural de sua pelagem.
Pode ser também a fuligem acumulada no caminho.
Sob os pelos, o vermelho pode lembrar o urucum, a carne exposta ou a pele atingida pelo calor.
Não sabemos se o corpo está queimando ou se está se transformando.
Sabemos apenas que ele não atravessa o território sem receber suas marcas.
Que a cinza não esconda a origem do incêndio.
Que a beleza da chama não absolva aquele que ateou o fogo.
Que a paisagem queimada não seja chamada de vazia, pois sob o solo ainda trabalham raízes profundas, memórias vegetais e vidas que esperam a possibilidade de retornar.
Avança, Lobo-Guará.
Leva nas patas o testemunho daquilo que o Cerrado suportou.
Diante do fogo, colocamos a lobeira.
O animal encontra o fruto.
O fruto atravessa o animal.
A semente retorna ao chão.
Nenhum dos dois permanece igual depois do encontro.
A planta alimenta aquele que caminha; aquele que caminha amplia a possibilidade de a planta nascer em outro lugar. Entre ambos existe uma aliança sem contrato, uma continuidade realizada pelo corpo, pelo deslocamento e pela matéria devolvida à terra.
Que o fruto não seja ornamento.
Que a semente não seja promessa vazia.
Que ela atravesse a cinza.
Que encontre a umidade escondida.
Que reconheça, sob a superfície ferida, a floresta invertida que sustenta o Cerrado.
O Lobo-Guará não guarda esse conhecimento em livros. Ele o transporta nas patas, no ventre, no percurso e naquilo que deixa depois de passar.
Come, Lobo-Guará.
Caminha, Lobo-Guará.
Devolve ao território aquilo que poderá nascer sem nós.
Agora o caminho se curva.
O animal que estava distante aproxima-se.
O corpo que caminhava sozinho encontra o círculo.
Traz consigo o fruto, a fuligem, o mel, a pedra, a transformação e o silêncio das áreas que permanecem vivas apesar de tudo.
Não entra como símbolo domesticado da cidade.
Não entra como mascote separado de seu território.
Não entra para confirmar que o Cerrado está protegido.
Entra para perguntar quem poderá continuar caminhando quando as últimas passagens forem fechadas.
Que a turmalina escura conserve a memória do calor e da pressão.
Que a obsidiana dos olhos não devolva uma imagem confortável.
Que as pedras do solo mantenham acesa a matéria mineral de onde todos os corpos se levantam.
A roda se abre para receber aquele que não pertence inteiramente ao humano, à fera, ao mito ou ao monumento.
Que entre com quatro patas.
Que entre erguido.
Que entre queimado.
Que entre transformando-se.
Que entre trazendo na boca a possibilidade de outra floresta.
O Lobo-Guará entra na roda.