Algumas obras são construídas. Outras parecem revelar um mundo enquanto são construídas.
As imagens reunidas nesta página acompanham diferentes momentos da criação de Sultão do Mato e a Ema Celeste. Mais do que registrar etapas técnicas, elas permitem observar como matéria, corpo, símbolos e relações foram se organizando ao longo do processo.
A obra não surgiu de uma imagem inteiramente resolvida de antemão. Estrutura, volumes, texturas, cores e pequenos elementos foram sendo construídos em camadas, enquanto a pesquisa continuava atravessando a modelagem.
Aos poucos, cada escolha passou a estabelecer relações com as demais: o corpo do Sultão, a presença da Ema, o cajado, as pedras, os fios, as contas, os adornos e os detalhes incorporados à escultura deixaram de funcionar como elementos isolados para constituir um mesmo universo.
A fotografia de processo permite acompanhar justamente aquilo que a obra concluída já não mostra: as decisões, transformações, tentativas e descobertas que permanecem sob sua superfície final.
Ao percorrer esta galeria, o visitante não acompanha apenas o nascimento de duas figuras, mas a construção gradual da relação entre elas — o Sultão do Mato e a Ema Celeste surgindo, pouco a pouco, como partes de uma mesma presença.
A estrutura começa no arame.
Antes do volume e da aparência, o corpo do Sultão surge como linha, equilíbrio e possibilidade.
Dois corpos em construção
Sultão e Ema começam juntos.
As estruturas de arame estabelecem proporções, alturas e a relação espacial entre as duas figuras antes da modelagem.
A matéria encontrada
O fruto entra na estrutura.
Sua forma passa a integrar o volume do Sultão, participando das decisões formais da escultura.
A matéria encontra o corpo
A cabaça entra na estrutura.
Sua forma passa a integrar o volume do Sultão, mostrando como uma matéria encontrada pode alterar e orientar o desenvolvimento da figura.
O corpo começa a se formar
A estrutura recebe os primeiros volumes.
O fruto já integrado à obra passa a constituir o grande corpo da Ema, enquanto arames e massa começam a definir pernas, pescoço e a estrutura destinada ao Sultão.
A Ema ganha forma
Cabeça, pés e novos volumes começam a definir a ave.
A estrutura de arame vai desaparecendo à medida que a modelagem estabelece sua anatomia.
A presença da Ema
A modelagem conecta pescoço, peito e corpo.
A ave começa a adquirir uma silhueta contínua, enquanto o Sultão permanece em estrutura.
O Sultão emerge
Sobre o dorso da Ema, o corpo humano começa a ganhar volume.
As duas figuras passam a ser percebidas como uma composição conjunta.
A Ema ganha plumagem
Cor e textura transformam o corpo da ave.
Verdes passam a cobrir pescoço e pernas, enquanto penas começam a ocupar o corpo e a cauda, aproximando a estrutura da presença imaginada para a Ema Celeste.
Duas presenças se encontram
O Sultão ganha corpo sobre a Ema.
Enquanto a ave já apresenta cor e plumagem, a figura humana continua em modelagem, estabelecendo o contraste entre diferentes momentos de construção dentro da mesma obra.
A composição se revela
Gestos, cabelos e adornos começam a individualizar o Sultão.
As duas figuras já podem ser percebidas como uma única composição, embora detalhes e acabamentos ainda estejam em desenvolvimento.
olhar antes do rosto
Os olhos são construídos separadamente.
Pequenos elementos recebem cor e detalhe antes de serem incorporados ao Sultão, mostrando a escala minuciosa do trabalho.
Os detalhes também possuem seu próprio processo.
Contas, pedras, pequenos elementos modelados e a cruz são preparados separadamente antes de encontrarem seu lugar na escultura.
Pintura e acabamento transformam cada pequeno elemento.
O trabalho minucioso dos adornos acontece antes de sua incorporação ao conjunto
Contas, pedras e cruz passam a formar uma única composição.
Elementos produzidos e reunidos separadamente encontram sua organização final antes de serem incorporados ao Sultão.
Pequenas partes do rosto
Antes da expressão, os elementos são preparados separadamente.
Pequenos volumes modelados serão incorporados ao rosto enquanto a figura já carrega os olhos produzidos anteriormente.
O volume da cabeça
A forma é construída antes dos detalhes.
A massa acrescentada à cabeça permite redefinir proporções e preparar o espaço onde o rosto será modelado.
O rosto começa pelo olhar
Os olhos orientam a construção da expressão.
Ao redor deles, pálpebras, sobrancelhas e volumes faciais começam a transformar uma superfície ainda aberta em um rosto.
A expressão emerge
Nariz, boca, orelhas e marcas da modelagem completam uma nova etapa do rosto.
A figura passa a adquirir uma fisionomia própria, embora pintura, cabelos e acabamento ainda estejam por vir.
A anatomia é construída a partir da postura.
Torso, braços e pernas ganham volumes enquanto o movimento do Sultão se torna cada vez mais evidente.
O corpo modelado passa a sustentar seus elementos.
A posição das mãos, o movimento dos braços e os objetos incorporados tornam mais clara a ação da figura.
As primeiras camadas de pintura transformam a superfície modelada.
A anatomia permanece visível, mas luz, sombra e tonalidades passam a aprofundar os volumes construídos durante a modelagem.
Aquilo que surgiu em partes começa a existir como uma única presença.
Ao longo do processo, cada elemento percorreu seu próprio caminho: primeiro as linhas de arame estabeleceram o gesto; a matéria orgânica encontrada ofereceu volume ao corpo da Ema; a modelagem construiu anatomias; olhos, penas, contas, pedras e adornos foram trabalhados separadamente; e a pintura transformou pouco a pouco as superfícies.
Nesta etapa, essas partes finalmente passam a conviver no mesmo corpo escultórico. O Sultão já não pode ser compreendido isoladamente da Ema, assim como a Ema deixa de funcionar apenas como suporte para a figura humana. Posturas, curvas e direções fazem com que uma presença continue na outra.
O longo pescoço da ave conduz o movimento para cima. O corpo do Sultão acompanha esse impulso, com a cabeça voltada ao alto e um dos braços elevado. Em contraste, o cajado desce pela lateral da composição, enquanto as pernas da Ema estabelecem o contato com a base. A obra começa, assim, a encontrar seu equilíbrio entre terra e elevação, sustentação e movimento.
A fotografia registra um momento em que a escultura já permite reconhecer aquilo que será sua presença final, mas o processo ainda não terminou. Restam detalhes, adornos e acabamentos que continuarão modificando sua leitura.
Depois de tantas etapas observadas separadamente, Sultão do Mato e a Ema Celeste começam, enfim, a existir como uma única obra.
Depois da estrutura, da modelagem, da pintura e da construção separada de tantos pequenos elementos, Sultão do Mato e a Ema Celeste aparece concluída. Pela frente, tornam-se visíveis a relação entre os dois corpos, a elevação dos braços do Sultão, o movimento ascendente da Ema e a concentração de penas, contas, pedras, tecidos e objetos que atravessam a composição.
Ao contornar a escultura, elementos pouco perceptíveis pela frente passam ao primeiro plano. A plumagem posterior, os fios, os tecidos e os adornos revelam que a construção não privilegia uma única direção de observação. A obra continua acontecendo quando o visitante muda de posição.
De outro ângulo, relações que se sobrepunham nas imagens anteriores se separam. É possível acompanhar a curva do pescoço da Ema, a posição do Sultão sobre seu dorso e a maneira como braços, pernas, penas e adornos avançam em diferentes direções no espaço.
De perto, a relação entre as duas figuras revela uma nova camada da obra.
O enquadramento aproxima corpo, gesto e matéria. As contas atravessam o peito do Sultão, penas e tecidos envolvem sua figura, enquanto a cabeça da Ema surge ao seu lado. Pedras, fios, pequenos objetos e diferentes superfícies passam a ser percebidos individualmente.
Depois de acompanhar a construção da obra em etapas, o olhar pode agora se deter naquilo que a visão do conjunto muitas vezes esconde: os pequenos encontros entre materiais que ajudam a constituir cada presença.
A última imagem retorna ao lugar onde toda a construção se sustenta.
A base encerra o percurso da galeria. Sobre ela repousam os longos pés da Ema e, em sua lateral, permanece a identificação gravada pelo artista. Depois dos arames, da modelagem, dos olhos construídos separadamente, das penas, pedras, contas, tecidos, pintura e acabamento, a obra recebe sua marca e sua data.
Ano: 2026
Artista: Elvis Bittencourt
Série: Estudos Fundadores — Seres do Folclore Brasileiro: uma investigação escultórica da memória e do território.
Técnica: Escultura em porcelana fria (biscuit)
Materiais: biscuit, arame, pigmentos, penas, tecidos, contas, pedras naturais, elementos orgânicos e base em madeira
Dimensões: 52 × 30 × 30 cm
Peso: 2.295 g
Tempo de execução:
15 dias
Pesquisa e concepção:
Investigação Encarnada — processo cênico-escultórico de pesquisa viva
Referências:
Ema Celeste e saberes astronômicos de povos originários do Brasil; céu e paisagem do Cerrado; canção Sultão do Mato, de Paulo César Pinheiro, na interpretação de Glória Bomfim; relações entre céu e terra, movimento e contenção, luz e escuridão.
Entre a terra que sustenta e o céu que orienta, o Sultão e a Ema habitam o lugar onde o território também se torna constelação.
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