O que já vivia nessas águas antes que a literatura lhe desse uma imagem coletiva?
Por ser um dos seres mais difundidos do folclore brasileiro, a Iara poderia parecer uma investigação simples. Sua imagem está em livros, ilustrações, escolas, músicas e produções audiovisuais: uma mulher de grande beleza, cabelos longos e voz encantadora, cujo corpo termina em cauda de peixe. Mas como investigar o saber do povo sobre a Iara sem assumir que essa imagem conhecida por todos corresponde às diferentes presenças das águas reconhecidas pelos povos originários?
A pergunta inicialmente dirigida à Iara logo se abriu para outra: quantos povos conhecem a Iara por esse nome e com esse corpo?
Até onde esta pesquisa alcançou, diferentes povos indígenas reconhecem, em seus respectivos territórios, seres, espíritos, encantados, donos ou mães relacionados às águas. Seus nomes, corpos e modos de presença não são os mesmos. O ponto de aproximação não está numa aparência comum, mas nas relações estabelecidas com rios, nascentes, lagos, mangues e outros territórios aquáticos — relações frequentemente atravessadas por respeito, cuidado, regras de conduta e reconhecimento de que as águas não pertencem somente aos humanos.
Entre os registros consultados, a maior correspondência em língua portuguesa aparece sob o nome Mãe-d’Água. Entretanto, nenhuma das fontes indígenas pesquisadas até este momento apresentou, de maneira segura, a mesma figura popularmente difundida como Iara: uma mulher com metade do corpo em forma de peixe, que utiliza sua beleza e seu canto para atrair homens. Em alguns territórios, a Mãe-d’Água sequer possui corpo feminino ou pisciforme.
Por esse motivo, esta investigação não reunirá as diferentes Mães-d’Água sob o nome de Iara, nem tratará suas cosmologias como etapas incompletas de uma única narrativa. A Mãe-d’Água, enquanto presença conhecida por diferentes povos originários e comunidades tradicionais, receberá posteriormente uma página própria dentro do projeto. Nela, será estudada a partir de seus territórios, de seus diferentes nomes e das relações que estabelece com as águas — sem receber antecipadamente um corpo de peixe.
Aqui, no Eixo II, a investigação seguirá outro caminho. Partiremos do nome Iara e da imagem feminina com cauda de peixe associada às águas doces para compreender como essa figura adquiriu o corpo, a voz e os atributos pelos quais hoje é coletivamente reconhecida. Investigaremos os encontros entre narrativas indígenas, registros coloniais, seres aquáticos, sereias europeias, literatura brasileira e cultura de massa, mantendo o cuidado de não transformar diferentes tradições numa origem única.
Não procuramos demonstrar que a Iara é falsa, nem eleger uma versão como verdadeira. Procuramos compreender como muitas águas passaram a ser vistas por meio de um único corpo — e o que continua vivo sob essa imagem.
A partir deste ponto, a pesquisa se divide em dois caminhos complementares.
Este caminho acompanha a formação da imagem coletiva da Iara. Seu nome, seu corpo feminino, sua cauda de peixe e seu canto serão investigados separadamente, procurando as narrativas que acrescentaram cada uma dessas características.
continua...