Muito antes de serem reunidas sob um único nome, as águas já eram habitadas, guardadas, criadas e transformadas por diferentes presenças. Em cada povo, elas assumem relações próprias com o corpo, o território, os animais, os antepassados, a saúde, a doença, o nascimento e a morte. Este levantamento não procura equivalências. Aproxima narrativas sem retirar de cada uma seu nome, seu território e seu sistema de conhecimentos.
Não existe uma única maneira originária de compreender as águas. Entre os povos reunidos neste levantamento, rios, lagoas, cachoeiras e nascentes aparecem como moradas, corpos, caminhos, territórios de memória e lugares de transformação. Em suas águas vivem diferentes seres, forças, antepassados e relações, cada qual pertencente a uma língua, a um território e a um sistema próprio de conhecimentos. Os percursos abaixo não procuram reuni-los sob uma única imagem: oferecem caminhos para que cada narrativa seja encontrada em suas fontes e reconhecida a partir do povo que a preserva.
🫧Povo Kuikuro - Na porção sul da Terra Indígena do Xingu, em Mato Grosso, vivem os Kuikuro, povo de língua da família Karib que integra o sistema cultural do Alto Xingu e mantém vínculos históricos com a região dos rios Culuene, Buriti e Curisevo. Entre os materiais produzidos por seus professores encontra-se “A origem da água”, versão de Sepé Kuikuro, publicada em 2002 no Livro das Águas — Índios no Xingu. A narrativa apresenta Sagakagagü, Taũgi e um tempo em que as águas ainda não haviam formado os mares, rios, lagos e igarapés. Para preservar a voz de quem a transmitiu, não a recontamos aqui: convidamos o leitor a conhecê-la diretamente na versão de Sepé, acompanhada por sua própria ilustração.
Narrativa: A origem da água — versão de Sepé Kuikuro
Saiba mais: Povo Kuikuro · Livro das Águas — Índios no Xingu · Sepé Kuikuro
Na voz de João Paulo: Corpo chão coração
Livro: Waimahsã: peixes e humanos — autoria indígena: João Paulo Lima Barreto
Leitura complementar: Complementaridade e transformação Yepamahsã
Saiba mais sobre a região: Povos indígenas do Rio Negro
🫧 Povo Panará — Na Terra Indígena Panará, localizada nas cabeceiras dos rios Iriri e Ipiranga, entre o norte de Mato Grosso e o sul do Pará, vivem os Panará, povo de língua da família Jê. Na narrativa “A origem da água”, transmitida por Peranko Panará, os antigos retiravam do cipó a água necessária à vida, até encontrarem uma grande tartaruga capaz de falar a mesma língua que eles. É ela quem conhece o modo de fazer a água surgir: cavando a terra com o casco, alcança a água subterrânea e continua seu trabalho até formar os rios. A narrativa oferece uma perspectiva distante da imagem de uma mulher que governa as águas. Entre os Panará, a origem da água aparece ligada ao conhecimento e à ação de uma tartaruga, reconhecida pelos antigos como sujeito de fala e transformação. O encontro não revela uma “Mãe-d’Água”, mas uma relação entre humanos, animal, terra e água que deve ser conhecida na versão do próprio povo.
Narrativa: A origem da água — versão de Peranko Panará
Saiba mais: Povo Panará
Publicação: Livro das Águas — Índios no Xingu
🫧 Povo Desana — Na região do Alto Rio Negro, entre o Brasil e a Colômbia, vivem os Desana, que se autodenominam Umukomasã e mantêm comunidades principalmente nos rios Tiquié e Papuri e em seus afluentes. Entre os registros de autoria indígena encontra-se Antes o mundo não existia, composto por Umusi Pãrõkumu e Tõrãmʉ̃ Kẽhíri — Firmiano Arantes Lana e Luiz Gomes Lana, pai e filho do clã Desana Kehíripõrã. Na narrativa, a futura humanidade parte do Lago de Leite, identificado com o oceano, e percorre as águas no interior de uma grande cobra-canoa, chamada Canoa de Transformação. Ao longo da viagem, suas paradas nas Malocas de Transformação participam da formação da humanidade e de suas diferenças. Nessa perspectiva, a água não aparece como cenário nem como território governado por uma figura feminina: ela é caminho de origem, deslocamento e transformação. A narrativa Desana, portanto, não oferece outra versão da “Mãe-d’Água”, mas uma compreensão na qual a própria constituição dos povos está ligada a uma viagem pelas águas.
Narrativa: Antes o mundo não existia — Umusi Pãrõkumu e Tõrãmʉ̃ Kẽhíri
Livro completo: Acessar o PDF
Saiba mais: Povo Desana — Povos Indígenas no Brasil
🫧 Povo Yanomami — Na floresta situada entre o norte do Amazonas, o oeste de Roraima e o sul da Venezuela vivem os Yanomami, denominação que reúne comunidades falantes de diferentes línguas da família Yanomami. Nos conhecimentos narrados pelo xamã Davi Kopenawa em A queda do céu, a origem dos Yanomami passa pelas profundezas das águas: Omama retira delas Thuëyoma, filha de Tëpërësiki, ser aquático relacionado às plantas cultivadas, e da união dos dois surge o primeiro Yanomami. As águas também são habitadas pelos mãu unari, espíritos aquáticos pertencentes ao vasto conjunto dos xapiri, cujas imagens, cantos e movimentos são conhecidos pelos xamãs. Essa perspectiva reúne água, ancestralidade, cultivo, corpo e conhecimento xamânico. Não encontramos nela uma “Mãe-d’Água” isolada que governa os rios, mas seres aquáticos envolvidos na própria origem da humanidade e nas relações que sustentam a vida Yanomami.
Narrativa visual: Omamani mau upë monapë ukërii wii thëã — Quando Omama abriu a fonte das águas, Joseca Yanomami, 2012
Outra perspectiva das águas: Xapiri Thuëyoma a — O espírito mulher das águas Thuëyoma atrai os outros espíritos, Joseca Yanomami, 2012
Livro: A queda do céu — Palavras de um xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert
Saiba mais: Povo Yanomami — Povos Indígenas no Brasil
🫧 Povo Iny-Karajá — Ao longo do rio Araguaia, especialmente na Ilha do Bananal e em territórios de Tocantins, Goiás e Mato Grosso, vivem os Iny, conhecidos pelos não indígenas como Karajá. Em uma de suas narrativas de origem, os primeiros Iny formavam os Berahatxi Mahadu, o povo do fundo das águas, e habitavam uma aldeia subaquática antes de chegarem à superfície por uma passagem chamada inysedena, “lugar da mãe da gente”. A vida fora das águas ofereceu as praias, a amplitude e as riquezas do Araguaia, mas trouxe também a doença e a morte; quando tentaram regressar, encontraram a passagem fechada por ordem de Koboi, chefe do povo subaquático. A narrativa situa as águas como morada anterior da humanidade e lugar de uma sociedade já constituída, não como domínio de uma única figura feminina. A expressão “lugar da mãe da gente” nomeia a passagem entre esses mundos e não deve ser convertida automaticamente em uma “Mãe-d’Água”. Na perspectiva Iny, o próprio povo emerge das águas, e o Araguaia permanece como território de origem, memória, organização da vida e relação com os seres que o habitam.
Narrativa: Origem do povo do fundo das águas — Povos Indígenas no Brasil
Livro bilíngue: Narrativas Karajá — Iny Ljyy: Iny Ljyky
Livro completo: Acessar a publicação em PDF
Sobre a publicação: Textos e desenhos de autoria indígena — Iphan
🫧 Povo Ikólóéhj-Gavião — Na Terra Indígena Igarapé Lourdes, situada na bacia do rio Machado ou Ji-Paraná, no leste de Rondônia, vivem os Ikólóéhj, povo de língua da família Mondé. Em uma narrativa de Digüt Tsorabá registrada no livro Couro dos espíritos, os goihanei habitam os rios e constituem uma coletividade própria: possuem chefe, relações familiares e capacidade de advertir, proteger e transformar a vida humana. As filhas de Malolan, chefe dos goihanei, casam-se com dois homens; quando a água brota do chão, a chuva aumenta e os rios cobrem as aldeias, essa família sobrevive refugiada em um buriti que cresce com a cheia. A narrativa não apresenta uma senhora única das águas, mas um mundo aquático povoado, organizado e relacionado por parentesco ao mundo humano. Por isso, aproximá-la da “Mãe-d’Água” apagaria justamente sua perspectiva: o caminho indicado aqui conduz aos goihanei e às palavras de Digüt Tsorabá, preservando seus nomes e sua origem Ikólóéhj.
Livro e narrativa: Couro dos espíritos: namoro, pajés e cura entre os índios Gavião-Ikolen de Rondônia — obra solicitada pelos próprios Ikólóéhj, com narrativas de Catarino Sebirop Gavião, Digüt Tsorabá Gavião e outros narradores; o registro informa que o texto integral não está disponível digitalmente.
Na voz do povo: Nós, Ikólóéhj Gavião: nossa terra e as mudanças climáticas — publicação de autores Ikólóéhj sobre território, água e transformações ambientais, com acesso ao documento.
Saiba mais: Povo Ikólóéhj — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Enawenê-Nawê — No noroeste de Mato Grosso, em um território atravessado pelos rios da bacia do Juruena, vivem os Enawenê-Nawê, povo de língua Aruak. Entre eles, a relação com as águas aparece de maneira decisiva no Yaõkwa, longo ciclo ritual que envolve deslocamentos até os rios, construção de barragens tradicionais, pesca, cantos, alimentos e trocas com os yakairiti, seres de fome permanente que participam da manutenção da vida. O peixe retirado do rio não é apenas alimento: oferecido cerimonialmente, ele sustenta relações entre humanos, seres espirituais, clãs e território. Essa perspectiva desloca novamente nossa investigação. Em vez de procurar nas águas uma figura feminina equivalente à “Mãe-d’Água”, encontramos um sistema de reciprocidades do qual dependem a ordem social e a continuidade do mundo. Para conhecer essa relação sem falar pelos Enawenê-Nawê, o caminho mais importante é a coleção de histórias registrada em sua língua por jovens do próprio território, na qual anciãos, pescadores, mestres de canto e lideranças apresentam suas experiências com os rios e com o Yaõkwa.
Na voz do povo: Povo Enawenê-Nawê — Ritual Yaõkwa — coleção de entrevistas feitas por jovens Enawenê-Nawê com parentes e anciãos, em parceria com a Associação Indígena Enawenê-Nawê.
Relato: Yakalali Nasali — O pescador de flechas — Tewenakwa Enawene narra seu aprendizado da pesca e suas primeiras permanências nas barragens.
Território e memória: Adowinã Weyotera — Rio Preto pertence ao meu povo — relato de Kolarene Enawene, mestre dos cantos do Yaõkwa, pajé e liderança de seu povo.
Documento: Plano de Salvaguarda do Ritual Yaõkwa — publicação construída com lideranças, professores, mulheres e outros representantes Enawenê-Nawê, disponível integralmente.
🫧 Povo Kariri-Xocó — No município de Porto Real do Colégio, em Alagoas, os Kariri-Xocó vivem às margens do baixo São Francisco, rio chamado Opará e inseparável de sua memória, de seus deslocamentos e de sua permanência territorial. Neste levantamento surge uma fonte singular: Mãe-d’água: uma história dos Cariris, publicada em 2008 por Tkaynã, indígena Kariri-Xocó Fulni-ô, em coautoria com Laura Bacellar. A obra conduz à história de Orupadã Tinga e apresenta a Mãe-d’Água por meio de referências ao cotidiano, aos ensinamentos e à visão de mundo de seu povo. A publicação confirma que existe uma formulação Kariri-Xocó da Mãe-d’Água e oferece um caminho legítimo para conhecê-la, mas sua antiguidade e as transformações sofridas durante os séculos de contato precisam permanecer como questões abertas.
Narrativa: Mãe-d’água: uma história dos Cariris, de Tkaynã e Laura Bacellar. São Paulo: Scipione, 2008. O livro não foi localizado em acesso digital aberto.
Sobre a obra: Representação, memória e identidade Cariri presentes na obra Mãe D’água — artigo completo, com acesso gratuito, dedicado à análise do livro.
Na voz do povo: Nhenety Kariri-Xocó — memória, história e tradições — acervo mantido por Nhenety, guardião das tradições Kariri-Xocó.
Publicação do povo: Kariri-Xocó — Coleção Índios na Visão dos Índios — livro produzido com a participação da comunidade e disponível em PDF.
Saiba mais: Povo Kariri-Xocó — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Munduruku — Os Munduruku, que se autodenominam Wuy jugu, vivem principalmente ao longo do Tapajós e de seus afluentes, no Pará, com comunidades também no Amazonas e em Mato Grosso. Em sua história, Karosakaybu fez surgir o Tapajós — Idixidi, em língua Munduruku — utilizando o sumo de três caroços de tucumã, para impedir que seres humanos transformados em porcos perseguissem seu filho. A formação do rio participa, assim, da mesma história em que pessoas se transformam em peixes, aves, árvores e outros seres: água, povo, animais e floresta não possuem origens independentes. O Tapajós é apresentado pelos Munduruku como o berço do qual seu povo surgiu e como um território marcado por lugares sagrados, antepassados e acontecimentos que permanecem vivos. Encontramos o próprio rio como obra ancestral, memória coletiva e condição de existência — razão pela qual sua defesa atual contra barragens, garimpos e portos não pode ser separada da defesa da história Munduruku.
Na voz do povo: Somos feitos do Sagrado! — Movimento Munduruku Ipereg Ayu
Carta: Dos Munduruku para o Brasil — declaração coletiva na qual o povo chama o Tapajós de Idixidi e afirma pertencer a suas águas.
Narrativa e território: O Tapajós é o berço de onde nosso povo surgiu — estudo de acesso aberto construído a partir da luta e das narrativas Munduruku, incluindo a criação do rio por Karosakaybu.
Saiba mais: Povo Munduruku — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Baré — Os Baré vivem principalmente no médio e alto Rio Negro e no rio Xié, no Amazonas, região em que a colonização provocou deslocamentos forçados e a perda de sua antiga língua Aruak; hoje, muitas comunidades falam Nheengatu. Em relatos da comunidade Baré de Campinas do Rio Preto, as profundezas dos rios abrigam cidades encantadas, povoadas por seres com casas, roças, profissões, chefias e relações familiares. Cobras-grandes, botos e arraias possuem seus próprios chefes, enquanto encontros entre moradores de cima e habitantes do fundo podem produzir atração, proteção, conhecimento, doença ou vingança pela pesca excessiva e pelo desrespeito aos animais. Alguns humanos estabelecem parentesco com os encantados e aprendem a transitar entre os dois mundos. A perspectiva Baré encontrada aqui não concentra as águas em uma personagem feminina: o rio contém outra sociedade, com a qual é necessário saber conviver. Esses testemunhos foram registrados em 2014, oferecem, um caminho para conhecer como os próprios Baré narram hoje a continuidade dessas presenças.
Nos relatos Baré: Aprender a (não) ser visto na Amazônia: encantados e gente-peixe nos rios Negro e Uaupés — artigo aberto que preserva falas de Lucilene Baré, Valdiza de Jesus Baré, Antônio Buyawaçu e outros moradores.
Livro: Baré: povo do rio — inclui Baré-mira iupirungá: origem do povo Baré, narrada por Bráz França Baré.
Comunicação indígena: Rede Wayuri — rede formada por comunicadores indígenas, entre eles comunicadores Baré, que produz notícias para as comunidades do Rio Negro.
Saiba mais: Povo Baré — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Yudjá — Os Yudjá, também conhecidos pelo nome externo Juruna, são um povo de língua da família Juruna, do tronco Tupi, historicamente ligado às ilhas e penínsulas do rio Xingu. Atualmente, vivem em dois núcleos separados: um na Volta Grande do Xingu, no Pará, e outro no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Entre os Yudjá do alto Xingu, os pa’i vivem em malocas no fundo dos rios. Criados como peixes por um demiurgo, são também gente e não possuem uma forma original definitiva: assumem corpos de peixe para se deslocar, mas mantêm vida social, alimentos, objetos e relações próprias. O encontro com eles pode alterar a perspectiva humana, fazendo alguém experimentar o mundo conforme o olhar dos habitantes das águas. O rio, portanto, não é somente o lugar onde os Yudjá vivem: é parte de sua origem e abriga outros sujeitos e pontos de vista. Reconhecer uma fronteira móvel entre humanidade, peixe e transformação — razão contida no próprio nome Yudjá: “nós fomos criados neste rio”.
Livro: Um peixe olhou pra mim: o povo Yudjá e a perspectiva — pesquisa de Tânia Stolze Lima, disponível integralmente em acesso aberto, construída a partir de 26 meses de convivência e diálogo com os Yudjá.
Livro e relato sobre os pa’i: Um peixe olhou pra mim: o povo Yudjá e a perspectiva, de Tânia Stolze Lima — obra integralmente dedicada à vida social e à perspectiva Yudjá. As descrições dos pa’i, de suas malocas subaquáticas e de sua condição de peixe-gente encontram-se especialmente entre as páginas 205 e 217.
Na voz do povo: Por que nos separamos? — reportagem das comunicadoras Yudjá/Juruna Railane e Weslane sobre o rio, a separação de seu povo e os efeitos de Belo Monte.
Rio e território: Xingu, o rio que pulsa em nós — monitoramento realizado pelos Yudjá/Juruna da Terra Indígena Paquiçamba.
Saiba mais: Povo Yudjá — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Kamayurá — Os Kamayurá, que também se reconhecem como Apyap, vivem no Alto Xingu, em Mato Grosso, especialmente nas aldeias Ypavu e Morená, próximas à lagoa Ypavu, cujo nome significa “água grande”. Na narrativa “Começo dos rios”, conta-se que naquela região ainda não havia rios pelos quais as pessoas pudessem navegar. Kwat decidiu formar uma lagoa extensa como o mar, mas a água pertencia a Kanutsipem, identificado como seu dono. A água precisou, portanto, ser procurada, trazida e conduzida até o território, dando origem à lagoa e aos caminhos fluviais. A narrativa não apresenta a água como matéria vazia nem como domínio de uma figura feminina: ela estava sob a guarda de outro sujeito e sua chegada reorganizou o espaço, tornando possível a navegação e a vida junto aos rios. O que aparece é uma relação entre água, posse, deslocamento e transformação do território — perspectiva Kamayurá que deve permanecer ligada aos nomes Kwat, Kanutsipem e Ypavu, sem ser convertida em Iara ou em uma “Mãe-d’Água”.
Narrativa: “Começo dos rios”, em Mitos e outras narrativas Kamayurá — capítulo aberto; a narrativa está identificada pelo número 13.
Livro completo: Mitos e outras narrativas Kamayurá, organizado por Pedro Agostinho — acesso direto ao PDF.
Na voz do povo: Arquivo Kamayurá: pesquisa, documentação e transmissão da memória, de Kanawayuri Kamaiurá e Mayaru Kamayurá — projeto conduzido por pesquisadores do próprio povo para recuperar, discutir e decidir coletivamente o destino dos registros de seus antepassados.
Saiba mais: Povo Kamayurá — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Kadiwéu — Os Kadiwéu vivem na Terra Indígena Kadiwéu, entre a Serra da Bodoquena e o Pantanal de Mato Grosso do Sul, em uma região atravessada pelos rios Nabileque e Aquidabã. Na narrativa Alagadiélali, contada pelo Kadiwéu Antônio Mendes, um ser com esse nome habitava uma lagoa e devorava os animais que se aproximavam para beber. Para enfrentá-lo, o Criador assumiu a aparência do martim-pescador, matou-o dentro da água e levou seu corpo para a terra. A gordura de Alagadiélali foi então distribuída entre os animais, explicando por que alguns possuem mais gordura e outros menos. A narrativa introduz uma relação particular: aquilo que vivia na lagoa não permaneceu separado do mundo terrestre, mas passou a constituir materialmente os corpos dos animais. Não encontramos aqui uma senhora das águas nem uma figura equivalente à Iara; encontramos uma passagem entre água, matéria e corpo. Como o registro escrito localizado é do século XX, ele não permite, sozinho, datar a narrativa como anterior a 1873 — mas oferece acesso a uma história nomeada e identifica o narrador Kadiwéu que a transmitiu.
Narrativa: Alagadiélali — narrativa de Antônio Mendes
Registro da narrativa: Lendas Terena e Kadiwéu, de José Fernandes e Orlando Antunes Batista, publicado em 1981.
Na voz do povo: Relatos e fatos Kadiwéu — publicação construída com professores e comunidades Kadiwéu.
Território e presente: Plano de Vida do Território Indígena Kadiwéu — documento coletivo que inclui a água entre os eixos de cuidado do território.
Saiba mais: Povo Kadiwéu — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Trumai — Os Trumai, falantes de uma língua isolada, chegaram à região dos formadores do Xingu na primeira metade do século XIX e atualmente vivem em diferentes aldeias no centro do Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Entre os registros realizados em sua própria língua encontra-se uma visita à lagoa Arupara Xu, lugar onde os Trumai viveram no passado. Durante a visita, uma mulher Trumai narra acontecimentos que ouviu de seus parentes, enquanto um jovem do povo realiza a filmagem. Esse registro conduz a pesquisa por um caminho diferente: a água não aparece necessariamente personificada por um ser, mas como um lugar nomeado que conserva histórias familiares, antigas ocupações e deslocamentos do povo. Arupara Xu funciona como território de memória — é preciso retornar fisicamente à lagoa para contar o que ali aconteceu. A contribuição Trumai está justamente nesse deslocamento: antes de procurar uma “Mãe-d’Água”, somos levados a reconhecer que uma lagoa pode ser, ela própria, parte viva da história de um povo. A gravação foi realizada em 2003 e não permite datar os acontecimentos narrados; o deslocamento dos Trumai para o Xingu, contudo, está documentado desde a primeira metade do século XIX.
Na voz do povo: The Lagoon Named Arupara Xu — registro audiovisual em língua Trumai, realizado na própria lagoa em 2003.
Arquivo de narrativas: Documentação da língua e da memória Trumai — reúne relatos históricos, lembranças de antigas aldeias e gravações de falantes Trumai.
Livro: Livro de História — publicação da formação de professores indígenas com relatos sobre a trajetória dos povos do Xingu, incluindo a chegada dos Trumai pelo rio Kuluene.
Saiba mais: Povo Trumai — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Boe (Bororo) — Os Boe, oficialmente conhecidos como Bororo, vivem atualmente em terras descontínuas de Mato Grosso, enquanto seu território histórico se estendia da Bolívia ao centro-sul de Goiás, alcançando as bacias do Xingu, do Paraguai e do Araguaia. Em um bakaru — palavra Boe que não designa somente uma história, mas um conhecimento transmitido pelos mais velhos e capaz de orientar a vida — apresentado por Fernando Kudoro Bororo, uma pesca é preparada no córrego Kujibo-pó, hoje chamado Coxipó. Dentro da armadilha encontra-se Aroe Jakomea, ser aquático que se manifesta como um peixe vermelho com listras amarelas. Quando Meriri Baru o atinge com uma flecha, as águas irrompem e inundam o território. Refugiado no morro de Santo Antônio, Meriri Baru lança pedras em fogo sobre a inundação até que ela recue; depois, seguindo um rastro deixado na lama, encontra uma veada, e desse encontro começa uma nova formação de seres e do próprio povo. A água não está submetida a uma senhora nem isolada em uma personagem: ela responde à agressão contra um habitante do córrego, desfaz o mundo existente e deixa na lama as condições para que outra vida se organize. O bakaru acrescenta, portanto, uma perspectiva decisiva ao levantamento: tocar um ser das águas pode alterar conjuntamente o território, os corpos e a continuidade do povo. Sua transmissão pertence ao tempo próprio do bakaru; o registro contemporâneo não autoriza convertê-la em uma data histórica anterior a 1873.
Na voz do povo: O povo Boe-Bororo: a origem de todos, de Fernando Kudoro Bororo — o relato integral começa na página 3 do arquivo.
Educação e transmissão: Relatório de Agostinho Eibajiwu — registra o ensino desse bakaru por meio da narração, da língua Boe, dos desenhos das crianças e da participação da anciã Leonida Akiri Kurireudo.
Audiovisual: Boe Ero Kurireu — A Grande Tradição Bororo, filme de Paulinho Ecerae Kadojeba no qual os Boe falam sobre seu próprio povo.
Saiba mais: Povo Boe (Bororo) — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Kawaiwete — Autodenominação que significa “povo verdadeiro”, os Kawaiwete vivem hoje em três regiões: no Território Indígena do Xingu, no Rio dos Peixes, em Mato Grosso, e no baixo Teles Pires, entre Mato Grosso e Pará. No trabalho Salto Sagrado do Povo Kayabi, a pesquisadora indígena Dineva Maria Kayabi registra que o Salto Kayabi, no Rio dos Peixes, guarda a força dos pajés e é morada de Ita Mait. Um pajé ancestral teria permanecido entre suas pedras e ainda poderia ser ouvido cantando durante a noite. A aproximação ao Salto exige acompanhamento e comunicação do pajé, proteção e silêncio: a água se torna brava e o vento levanta as folhas. O próprio Salto é compreendido como vivo, guardando a cultura, a sabedoria e a espiritualidade Kawaiwete; destruí-lo significa enfraquecer o povo. Essa perspectiva não concentra as águas em uma figura feminina semelhante à Iara. O que encontramos é um lugar aquático dotado de vida, presença ancestral e capacidade de reagir a quem se aproxima — rio, pedras, vento, pajés e povo formando uma relação que não pode ser desmontada sem perda.
Na voz de Dineva Kayabi: Salto Sagrado do Povo Kayabi: resistência, desafios e ameaças — trabalho apresentado em 2016 por pesquisadora e educadora Kawaiwete.
Relato preservado: Realidades e expectativas de jovens indígenas na construção de seus projetos de vida — reproduz, nas páginas 107 e 108, as palavras de Dineva Kayabi sobre o Salto, o pajé ancestral e a reação das águas.
Produção do povo: Projeto de documentação Kaiabi-Kawaiwete — Museu do Índio — apresentação construída pelo projeto de pesquisadores indígenas, com informações sobre a história, a língua e o território Kawaiwete.
Saiba mais: Povo Kawaiwete — Instituto Socioambiental
🫧 Povo Wauja — Os Wauja vivem no Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso, principalmente nas proximidades da lagoa Piyulaga, ligada por um canal ao rio Tamitatoala, mais conhecido como Batovi. Em sua narrativa sobre Kamalu Hai, uma grande serpente-canoa percorre as águas carregando sobre o corpo numerosos potes, alguns dos quais cantam enquanto sobem o rio. Por onde passa, Kamalu Hai deixa seus excrementos, que se transformam na argila recolhida pelos Wauja para produzir sua cerâmica. Alguns potes caem durante a viagem e assumem outras formas; um descendente da serpente permanece nas águas profundas, enquanto ela segue pelo Xingu até encontrar no mar espaço suficiente para submergir. A narrativa desfaz qualquer separação simples entre ser, embarcação, rio, corpo, barro, canto e objeto: a cerâmica não é apenas feita com uma matéria retirada da margem, mas nasce da passagem de um corpo aquático ancestral pelo território. Também não encontramos uma figura equivalente à Iara. Kamalu Hai não seduz nem representa genericamente as águas; ela transporta formas, produz matéria e participa da origem de uma prática pela qual os Wauja são reconhecidos. Para esta investigação escultórica, sua contribuição é especialmente significativa: antes de ser modelado pelas mãos, o barro já possui corpo, percurso e memória.
Narrativa e imagens Wauja: Visões do tabaco: desenhos xamânicos dos Wauja — apresenta a narrativa de Kamalu Hai e desenhos de Itsautaku, Takara, Ajoukumã e outros conhecedores Wauja.
Livro aberto: Kamalu Hai e o canto da cobra-canoa: arte e cosmologia Wauja — publicação bilíngue sobre a narrativa, a cerâmica e os grafismos Wauja.
Na voz do povo: As histórias de Kamukuwaká e Yakuwixeku — livro elaborado pelo Coletivo de Professores e Historiadores Wauja a partir de expedições, entrevistas, oficinas e pesquisas nas aldeias.
Saiba mais: Povo Wauja — Instituto Socioambiental
Em 2026, o dado oficial mais recente continua sendo o do Censo Demográfico de 2022, que identificou, por autodeclaração, 391 etnias, povos ou grupos indígenas vivendo no Brasil. Diante dessa diversidade, os 18 povos reunidos nesta pesquisa não formam um catálogo das concepções originárias sobre as águas, nem representam tudo o que cada um deles conhece, preserva ou pode compartilhar. Constituem apenas os caminhos que foi possível alcançar por meio de narrativas publicadas, livros, registros audiovisuais, pesquisas indígenas, documentos coletivos e fontes abertas. Muitos conhecimentos permanecem na oralidade, em línguas próprias, sob o cuidado de especialistas e comunidades; outros não foram publicados, não estão acessíveis ou foram interrompidos pela violência colonial. Portanto, a ausência de um povo neste levantamento não significa ausência de histórias, seres ou relações com as águas. E mesmo entre os povos aqui apresentados, cada narrativa é apenas uma entrada para um sistema de conhecimentos muito mais amplo. Este bloco não encerra os saberes originários nem fala em nome de seus povos: oferece caminhos para que o leitor se aproxime das fontes, reconheça seus autores e perceba por que toda essa diversidade não pode ser reunida sob uma única “Mãe-d’Água”.
Referência: O Brasil Indígena — IBGE — resultados do Censo Demográfico de 2022 sobre etnias, povos, grupos e línguas indígenas.
Depois dos caminhos apresentados pelos 18 povos originários, a pesquisa alcança outra camada das águas brasileiras: aquela construída nas experiências das comunidades ribeirinhas e dos povos de matrizes africanas. “Ribeirinho” não nomeia um único povo, uma origem comum ou uma tradição uniforme. Reúne comunidades formadas em territórios distintos, atravessadas por presenças indígenas, africanas, europeias e por histórias locais de encontro, conflito e parentesco. Nelas, o rio não constitui apenas a paisagem: oferece alimento, trabalho e deslocamento, marca o tempo das cheias e vazantes, impõe perigos e conserva lugares de memória. É nesse convívio cotidiano que nomes como Mãe-d’Água, Dona das Águas, Cobra Grande, mães, donos e encantados podem indicar diferentes presenças, advertências e modos de pedir licença — sem que sejam necessariamente o mesmo ser em todas as comunidades.
Os povos de terreiro também não oferecem uma explicação única para essas presenças. Candomblés, umbandas, batuques, tambores de mina, encantarias e outras tradições preservam conhecimentos provenientes de diferentes povos africanos e reelaborados em territórios brasileiros. Neles, mar, rios, cachoeiras, nascentes, chuvas, pântanos e lama podem participar de relações próprias com orixás, voduns, inquices, encantados e antepassados. Essas relações variam conforme a nação, a casa, a linhagem religiosa e o território: não podem ser reduzidas a uma correspondência fixa entre cada divindade e um tipo de água, nem reunidas automaticamente sob o nome “Mãe-d’Água”. Nos territórios ribeirinhos, saberes originários, africanos e afro-brasileiros puderam se aproximar e transformar-se ao longo do tempo, mas encontro não significa equivalência. A partir daqui, a pergunta deixa de ser “de qual tradição veio a Mãe-d’Água?” e passa a ser: em cada território, quem pronuncia esse nome, a que presença se refere e que relação com as águas ele preserva?
Voz ribeirinha: Desenvolvimento da hidrelétrica favoreceu poucos — depoimento sobre a relação de pescadores e comunidades amazônicas com a Mãe da Água, a Mãe da Floresta e os encantados do rio.
Paisagens ribeirinhas: Pensando paisagens ribeirinhas, sentidos arqueológicos e lugares na Amazônia — apresenta marcas, moradas e relações atribuídas à Cobra Grande e à Mãe da Água.
Na voz dos povos de terreiro: As águas, o ambiente e os povos de religião de matrizes africanas — encontro com sete sacerdotes e sacerdotisas de candomblé e umbanda sobre a centralidade sagrada das águas e da natureza.
Para aprofundar: A água no candomblé: a relação entre o ser humano e a natureza — estudo sobre as diferentes formas assumidas pelas águas nas tradições de candomblé.
A escolha da Mãe-d’Água para o Espírito Santo não afirma que o ser tenha nascido no estado, que pertença exclusivamente aos capixabas ou que seja compreendido da mesma maneira por todos os povos e comunidades aqui reunidos. Ela nasce do encontro da pesquisa com um território marcado por relações profundas — e também por rupturas — entre corpos e águas. No litoral norte vivem os Tupinikim, em territórios atravessados por rios, manguezais e mar. Antes de alcançar o oceano entre Regência e Povoação, o Rio Doce percorre o território do povo Krenak, para quem é Watu, um ancestral vivo. Em sua foz, comunidades ribeirinhas sustentaram gerações por meio da pesca e viveram um processo de luto quando os rejeitos da mineração atingiram o rio. Mais ao norte, entre São Mateus e Conceição da Barra, o Sapê do Norte conserva nas águas relações quilombolas de trabalho, memória, espiritualidade e resistência. Essas experiências não compõem uma única narrativa nem transformam seus povos em portadores de uma mesma Mãe-d’Água. São relações distintas que revelam por que, neste território, ferir a água significa também ferir corpos, histórias e modos de existência.
É nesse encontro que a investigação encontra a razão para situar a Mãe-d’Água no Espírito Santo e formula sua própria resposta escultórica. Se em algumas narrativas o ser das águas aparece como aquele que atrai, submerge ou afoga, na obra o movimento se inverte: a Mãe-d’Água não leva ninguém para o fundo. É ela quem não consegue respirar. Seu corpo emerge da água transformada em lama, ferido e sufocado pelos rejeitos da mineração. A escultura não atribui essa imagem aos Tupinikim, aos Krenak, às comunidades quilombolas ou aos moradores de Regência e Povoação; assume-a como elaboração autoral produzida pelo encontro com esses territórios. A Mãe-d’Água está no Espírito Santo porque é aqui que a pesquisa pergunta: o que acontece com um ser das águas quando a própria água é ferida?
Na vila de Povoação, situada na margem norte da foz do Rio Doce, Geni de Oliveira Ramos, nascida em 1928, preservava histórias ouvidas dentro de casa. Seu pai trabalhava como jangadeiro entre Regência e Colatina e narrava acontecimentos vividos durante as travessias. Em entrevista gravada em 2002, quando o pesquisador lhe perguntou sobre a Mãe-d’Água, Dona Geni respondeu que nunca a havia visto, mas que seu pai “contava que via”. Sua resposta não informa a aparência do ser, não descreve seus atos e não autoriza completar a história com características recolhidas em outros lugares. O que ela preserva é outra coisa: a lembrança de que o nome circulava na família de um homem cuja vida e cujo trabalho dependiam do Rio Doce. Em Povoação, portanto, a Mãe-d’Água chega a esta pesquisa não como uma imagem pronta, mas como uma presença transmitida pela palavra — do jangadeiro para a filha e da filha para o registro. A narrativa permanece incompleta, mas seu território é preciso.
Na voz de Dona Geni: A educação e a experiência de si nos relatos de uma narradora às margens do Rio Doce — artigo de Fabiano Oliveira Moraes e Monique Linciano de Azevedo Costa, baseado na entrevista realizada em Povoação em 1º de março de 2002.
Limite do registro: o documento confirma a presença do nome Mãe-d’Água na memória familiar de Dona Geni, mas não permite determinar a forma do ser, a origem dessa narrativa ou há quanto tempo ela circulava na comunidade.
Antes de chegar ao Espírito Santo e encontrar o mar, o Rio Doce atravessa, em Minas Gerais, o território do povo Krenak. Para esse povo, ele é Watu: não apenas um curso de água do qual se retiram recursos, mas uma presença viva com quem se estabelecem relações de parentesco. Em entrevista concedida após o rompimento da barragem de Fundão, Ailton Krenak afirma que Watu “é uma entidade; tem personalidade. Ele não é um ‘recurso’”. Ao falar das consequências da chegada dos rejeitos, não descreve somente a contaminação de uma água exterior à comunidade: diz que milhares de famílias foram separadas do corpo do rio e que Watu entrou em coma. A violência contra o rio alcança, assim, aqueles que vivem com ele, porque não existe uma fronteira absoluta entre o corpo das águas, a vida coletiva e o território.
A perspectiva Krenak não deve ser convertida numa narrativa sobre a Mãe-d’Água nem utilizada para atribuir ao povo uma figura que ele não apresentou. Sua presença neste percurso produz outro deslocamento: se Watu é entidade, parente e corpo vivo, os rejeitos não atingiram apenas uma paisagem ou interromperam o uso de um recurso natural. Feriram alguém. Ao acompanhar o Rio Doce até sua foz no Espírito Santo, a pesquisa passa a reconhecer que a água encontrada em Povoação não começa ali: ela carrega, ao longo de todo o percurso, relações, memórias e violências que não respeitam as fronteiras entre os estados.
Na voz de Ailton Krenak: “Não foi um acidente”, diz Ailton Krenak sobre a tragédia de Mariana — entrevista concedida ao Instituto Socioambiental em 2016, na qual o autor fala de Watu, do rompimento da barragem e da separação entre as comunidades e o corpo do rio.
Saiba mais: Povo Krenak — Povos Indígenas no Brasil
Na região da foz, o Rio Doce participava da vida cotidiana de Regência e Povoação como fonte de alimento, trabalho, deslocamento, lazer e memória familiar. Quando os rejeitos da barragem de Fundão alcançaram o litoral capixaba, em novembro de 2015, não houve apenas uma alteração na paisagem. Em Regência, moradores acompanharam a mudança da cor das águas como quem acompanha uma despedida: reuniram-se no píer, carregaram cruzes, realizaram protestos e deitaram seus próprios corpos no chão para representar a morte do rio. Dona Alda, nascida na vila, recordou que havia criado ali filhos, netos e bisnetos e definiu a chegada dos rejeitos como “um tapa de mão fechada” na comunidade. Antonio Ferreira Guimarães resumiu a ruptura de maneira direta: “Acabou o rio, acabou a pesca.” Em Povoação, do outro lado da região da foz, moradores denunciaram a falta de informação e o sentimento de abandono enquanto a pesca, base econômica e alimentar de muitas famílias, era interrompida.
O luto não foi uma metáfora criada posteriormente para interpretar o desastre: foi uma palavra e uma experiência assumidas pelos próprios moradores. Dez anos depois, Suely Souza Dias, presidente da Associação de Piscicultura da Foz do Rio Doce, descreveu o momento em que o mar mudou de cor: “Foi como se alguém da família tivesse morrido.” As mulheres que limpavam, preparavam e comercializavam o pescado também perderam trabalho e autonomia, mas muitas não foram inicialmente reconhecidas pelos programas de indenização. O que desapareceu não pode ser medido somente pela quantidade de peixes ou pela renda interrompida. Perder o acesso ao rio significou perder práticas, sons, sabores, encontros e formas de reconhecer a si mesmo dentro do território. Regência e Povoação mostram que, quando a água é ferida, o dano continua nos corpos e na memória daqueles que permanecem em suas margens.
Vozes de Regência em 2015: “O que sempre foi motivo de alegria virou tristeza” — relatos de moradores durante a chegada dos rejeitos à foz do Rio Doce.
Povoação: Desastre ambiental: Vila de Povoação, na foz do Rio Doce, se sente esquecida — registro da Defensoria Pública do Espírito Santo realizado em novembro de 2015.
Dez anos depois: Mulheres lutam por direitos e sonham com a volta da “magia” de Regência — depoimentos de pescadoras, marisqueiras e moradoras publicados em 2025.
O povo Tupinikim vive no litoral norte do Espírito Santo, principalmente no município de Aracruz. A Terra Indígena Comboios está situada entre o rio Comboios e o mar; a Terra Indígena Tupinikim reúne aldeias próximas ao rio Piraquê-Açu e a seus ambientes estuarinos. Essa localização amplia a compreensão territorial do desastre do Rio Doce: a destruição não terminou na calha do rio nem em sua foz. Ao alcançar o oceano, os rejeitos entraram em um sistema interligado de rios, manguezais, estuários, praias e áreas de pesca do qual dependem a alimentação, o trabalho, a memória e a vida coletiva Tupinikim. Sua presença neste levantamento não atribui ao povo uma narrativa sobre a Mãe-d’Água. Ela mostra que as águas do Espírito Santo não podem ser separadas por linhas no mapa: o que fere um rio pode atravessar sua foz, alcançar outros territórios e alterar relações construídas durante gerações. O percurso da escultura passa, portanto, pelo território Tupinikim porque acompanha as águas e as consequências materiais e imateriais da mineração onde quer que elas tenham chegado.
Pesquisa etnográfica: O povo indígena Tupinikim no contexto do desastre ambiental no Rio Doce — estudo de Sandro José da Silva sobre os efeitos do desastre nos territórios Tupinikim de Aracruz.
Diagnóstico territorial: Populações indígenas — Projeto Rio Doce/FGV — levantamento dos danos materiais e imateriais sofridos pelos povos Tupinikim e Guarani.
Saiba mais: Povo Tupinikim — Povos Indígenas no Brasil
Entre os vales do rio Cricaré — também chamado rio São Mateus — e do rio Itaúnas, nos atuais municípios de São Mateus e Conceição da Barra, encontra-se o território quilombola do Sapê do Norte. Suas comunidades descendem de populações negras que permaneceram, circularam e construíram formas próprias de vida nessa região durante e depois da escravidão. Muito antes de serem reconhecidas pelo Estado como comunidades quilombolas, famílias ligadas por parentesco, trabalho, religiosidade e resistência já compartilhavam matas, sapezais, roças, casas de farinha, caminhos, rios, córregos, lagoas e áreas de pesca. Por isso, o Sapê do Norte não corresponde somente a um conjunto de propriedades delimitadas: é um território negro tecido pelas relações entre as comunidades e pelos trajetos que as conectam.
As águas participavam diretamente dessa organização. Córregos e lagoas forneciam peixes, água para as casas e para os animais, lugares de banho, lavagem de roupas, cultivo, brincadeira e encontro. Os cursos d’água também orientavam caminhos e ajudavam a localizar famílias e comunidades — algumas delas conservam a água no próprio nome, como Roda d’Água, Córrego do Alexandre, Córrego do Sertão, Córrego Santa Isabel e Córrego do Macuco. São Domingos e Santana, por exemplo, estão relacionadas aos córregos de mesmo nome, afluentes do Cricaré. Água, memória familiar e território aparecem, portanto, como partes de uma mesma geografia.
Essa geografia foi profundamente alterada a partir da segunda metade do século XX, quando extensas áreas foram ocupadas por monoculturas de eucalipto e cana-de-açúcar. Matas foram derrubadas, comunidades ficaram cercadas pelos plantios e muitos córregos, lagoas e nascentes desapareceram, foram assoreados, contaminados ou tiveram suas margens ocupadas. Em levantamento realizado pelo movimento quilombola no início dos anos 2000, moradores identificaram cerca de duzentos córregos e áreas alagadas que existiam no território e haviam sido atingidos por esse processo. Em carta pública de 2024, mulheres de dezessete comunidades denunciaram que os rios e córregos restantes estavam poluídos ou soterrados e que havia plantações dentro de lagoas e nascentes.
A resposta das comunidades também acontece pela água. Em Angelim II, Flávia Santos e outros moradores retiraram eucaliptos das margens de uma lagoa seca e plantaram espécies nativas. A lagoa estava presente nas lembranças de sua avó, que lavava roupas naquele lugar, criava os filhos com os peixes pescados ali e narrava uma paisagem que as gerações mais novas já não encontravam. As nascentes recuperadas receberam os nomes de pessoas da comunidade: Luzia, Dona Joana, Soraldo e Brandino. Nomear as águas com os nomes dos ancestrais transforma a recuperação ambiental em continuidade da memória: não se restaura somente uma fonte hídrica, mas um lugar de convivência que liga os vivos aos que vieram antes.
A presença do Sapê do Norte neste percurso não atribui às comunidades uma narrativa única sobre a Mãe-d’Água. Ela revela uma relação territorial concreta: quando uma nascente é soterrada, não desaparece apenas um “recurso natural”. Perdem-se alimentos, caminhos, práticas cotidianas, lembranças e lugares onde o conhecimento era transmitido. Quando uma comunidade recupera uma nascente, recupera também parte das condições necessárias para permanecer em seu território. Aqui, a água guarda nomes — e cada nome impede que uma história seja apagada.
Na voz das mulheres do território: Carta das Mulheres Quilombolas do Sapê do Norte — documento coletivo sobre território, violência, água e permanência.
Memória das águas: Sem água, quilombolas recuperam nascentes degradadas pelo agronegócio — relato de Flávia Santos sobre a lagoa de sua avó e as nascentes que receberam nomes de ancestrais.
Relatos do território: Comunidades quilombolas recuperam terra e água após décadas de monocultura de eucalipto — entrevistas com integrantes do movimento quilombola do Sapê do Norte.
História e territorialidade: “Donos do lugar”: a geografia negra e camponesa do Sapê do Norte — estudo sobre a formação histórica do território e as redes entre suas comunidades.
Direito à água em 2026: Defensoria garante água potável para comunidades quilombolas do norte do Espírito Santo — decisão que demonstra a permanência da luta pelo acesso à água.
Os rios do Espírito Santo não sustentam somente corpos, trabalhos e comunidades. Também constituem territórios de fé. Nas religiões de matriz africana, a natureza participa do culto: rios, cachoeiras, nascentes, matas, praias e mares são lugares de encontro com o sagrado, realização de obrigações e transmissão de conhecimentos. A vida religiosa não termina na construção do terreiro. Ela acompanha as águas utilizadas nos cuidados com as pessoas, nas folhas, nos alimentos, nos objetos consagrados e nos ritos realizados fora da casa. Embora os fundamentos variem entre Candomblé, Umbanda, suas nações, linhagens e casas, a destruição de um curso d’água pode atingir diretamente as condições materiais e espirituais necessárias à continuidade de uma comunidade religiosa.
Nas tradições afro-brasileiras, Oxum está profundamente relacionada às águas doces, aos rios, às cachoeiras, à fertilidade, à gestação, ao nascimento e à continuidade da vida. Iemanjá, divindade de origem iorubá inicialmente vinculada às águas fluviais e ao rio Ògùn, na região da atual Nigéria, teve seu culto reconstruído pela diáspora africana. No Brasil, tornou-se amplamente relacionada ao mar, à maternidade, à pesca e à proteção daqueles que vivem das águas. Nesse processo histórico, títulos e imagens como Mãe-d’Água, Rainha do Mar e sereia passaram a se aproximar de Iemanjá em festas, cantos, relatos e representações públicas. Essa aproximação revela as transformações ocorridas em território brasileiro, mas não torna Oxum, Iemanjá, Mãe-d’Água e sereia uma única entidade. Cada nome conserva histórias, fundamentos e relações próprias.
No Rio Doce, essa relação entre água e religião foi atingida de forma concreta pelo rompimento da Barragem de Fundão. O Diagnóstico Socioambiental dos Danos Decorrentes do Rompimento da Barragem de Fundão, produzido pelo Lactec e disponibilizado pelo Ministério Público Federal, registrou a situação de uma Casa de Oxum localizada em Barbados, Colatina, no Espírito Santo. Após a chegada dos rejeitos, houve falta d’água, interrupção temporária das atividades do terreiro e diminuição dos rituais realizados no rio. O documento também registrou relatos de ofensa à entidade pelos rejeitos.
Essa expressão dá nome a uma dimensão do desastre que não pode ser reduzida à contaminação ambiental. A lama atingiu um rio relacionado a Oxum, impediu práticas religiosas e abalou o vínculo de uma comunidade com seu território sagrado. Quando já não se sabe se é possível tocar a água, entrar no rio ou utilizar seus elementos dentro da casa, não se perde apenas o acesso a um recurso: interrompem-se obrigações, encontros, cuidados e formas de transmissão da fé. O próprio diagnóstico reconheceu alterações nas práticas culturais, nas redes comunitárias e nos lugares de culto associados ao Rio Doce.
A lama percorreu aproximadamente 660 quilômetros até alcançar o oceano no Espírito Santo. Em seu caminho, atravessou águas doces vinculadas ao culto de Oxum e chegou ao mar, território amplamente relacionado a Iemanjá no Brasil. Para o povo de terreiro, portanto, o desastre também foi religioso. Atingiu a matéria da qual os ritos dependem, os lugares onde a fé é praticada e as relações mantidas com as entidades. Quando a mineração fere a água, pode ferir também o sagrado.
Impacto documentado: Relatórios do Diagnóstico Socioambiental do Rio Doce — Lactec/MPF — consultar o Relatório de Linha de Base, volume II: Meio Biótico e Bens Arqueológicos e Culturais, que registra os danos sofridos pela Casa de Oxum em Barbados, Colatina.
Oxum e o pensamento das águas: Pensar-viver-água em Oxum para (re)encantar o mundo
Iemanjá entre África e Brasil: Iemanjá, a grande mãe africana do Brasil: rito e representação
Na voz de uma sacerdotisa: Mãe Liliana d’Oxum fala sobre Iemanjá, as religiões e o meio ambiente
A aproximação entre Oxum, Iemanjá, Mãe-d’Água e sereia não decorre de uma origem comum. Ela foi construída no Brasil pelo encontro entre tradições religiosas africanas, narrativas das águas, experiências de pescadores e ribeirinhos, devoções católicas, literatura, música e artes visuais. Essas referências passaram a compartilhar títulos, atributos e formas corporais, até parecerem partes de uma única figura. Entretanto, seus percursos permanecem distintos: Oxum e Iemanjá são orixás; Mãe-d’Água é um nome que assume sentidos diferentes conforme o território e a comunidade; sereia é uma forma narrativa e visual que pode representar diversas presenças aquáticas.
Oxum é amplamente relacionada, nas tradições afro-brasileiras, aos rios, às cachoeiras, às nascentes, à fertilidade, à gestação e à continuidade da vida. Iemanjá tem origem na tradição iorubá e foi inicialmente vinculada às águas fluviais, especialmente ao rio Ògùn, na região de Abeokutá, na atual Nigéria. Reconstruído pela diáspora, seu culto passou a ocupar no Brasil uma relação predominante com o mar, a maternidade, a pesca e a proteção daqueles que vivem das águas. A proximidade entre as duas passa pela água e pela maternidade, mas não elimina os fundamentos que distinguem cada entidade.
Mãe-d’Água percorre um campo mais amplo. A expressão pode nomear uma senhora das águas, uma presença narrada por determinada comunidade ou um título religioso atribuído a uma entidade. Quando Oxum ou Iemanjá são chamadas de mães das águas, o nome está inserido nos fundamentos e na devoção de uma tradição religiosa. Em outros contextos, Mãe-d’Água pode indicar uma presença que não é Oxum nem Iemanjá. Seu significado depende de quem pronuncia o nome, da água à qual ele se refere e do sistema de conhecimentos em que está inserido.
A imagem da sereia tornou-se um dos principais meios de aproximar essas referências do imaginário nacional. No caso de Iemanjá, a mulher com cabelos longos surgindo do mar — algumas vezes com cauda de peixe, outras com vestido azul ou branco — reuniu elementos da sereia, da mãe protetora e das representações católicas de Nossa Senhora. Essa composição não nasceu de um único terreiro nem corresponde à totalidade do culto. Foi consolidada pela circulação de imagens em festas públicas, ilustrações, esculturas, imprensa, literatura, rádio, discos e canções.
Essa transformação ocorreu em uma sociedade que perseguia as religiões de matriz africana e, ao mesmo tempo, incorporava seletivamente elementos negros à imagem da cultura brasileira. Para alcançar o espaço público, Iemanjá foi frequentemente apresentada por meio de formas já reconhecidas e consideradas mais aceitáveis: a mãe universal, a santa, a mulher branca vestida de azul e a sereia do mar. Sua presença se tornou familiar, mas parte de sua origem africana e de seus fundamentos religiosos foi ocultada. O público aprendeu a admirar uma determinada imagem de Iemanjá enquanto os terreiros responsáveis pela continuidade de seu culto permaneciam submetidos ao racismo e à marginalização.
A música popular teve participação decisiva nesse processo. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais analisou 193 canções produzidas entre 1933 e 2014 e constatou que Iemanjá saiu do campo especificamente religioso e se tornou uma presença habitual no cancioneiro brasileiro. Nas músicas, sua imagem foi organizada principalmente em torno de duas formas reconhecíveis: a mãe protetora, aproximada das santas católicas, e a sereia bela, sedutora e ligada ao imaginário ocidental. A canção popularizou seu nome, mas também produziu uma Iemanjá progressivamente autônoma em relação às religiões afro-brasileiras.
As composições de Dorival Caymmi tiveram papel importante nessa passagem. Em obras como É doce morrer no mar, gravada em 1943, e Dois de fevereiro, de 1957, Iemanjá, os pescadores, a oferenda e os mistérios do mar alcançaram o rádio e entraram em casas muito distantes dos terreiros e das comunidades pesqueiras da Bahia. A música tornou audível uma presença religiosa africana dentro da cultura nacional. Ao mesmo tempo, essa passagem exigiu traduções: certos elementos foram destacados porque podiam ser reconhecidos pelo público, enquanto outros permaneceram fora das canções e das imagens difundidas.
Foi nessa circulação que Iemanjá se aproximou intensamente da Mãe-d’Água e ganhou o corpo público da sereia. Depois, a força dessa imagem passou a alcançar outras entidades e narrativas femininas relacionadas à água, contribuindo também para aproximações com Oxum. A confusão contemporânea, portanto, não nasceu apenas da falta de informação. Ela foi produzida por uma cultura que reuniu referências diferentes numa imagem mais fácil de reconhecer, cantar, ilustrar e consumir.
Isso não significa que as aproximações sejam falsas ou que devam ser desfeitas. Elas fazem parte da história cultural e religiosa do Brasil. O que precisa ser recuperado é aquilo que a imagem comum deixou encoberto. Oxum não se resume à água doce; Iemanjá não se resume ao mar ou à sereia; Mãe-d’Água não é um nome exclusivo de nenhuma das duas; e sereia não identifica, por si só, uma entidade religiosa. As quatro podem se encontrar nas águas brasileiras sem possuir a mesma origem, o mesmo corpo ou o mesmo fundamento.
Música e difusão: Senhora das águas e da canção: representação social de Iemanjá na música popular brasileira — estudo de 193 canções que examina como Iemanjá foi transportada dos terreiros para o cancioneiro popular.
Representações artísticas: Deusa, Sereia, Rainha do Mar: representações artísticas de Iemanjá — pesquisa sobre as diferentes formas visuais assumidas por Iemanjá.
Iemanjá na diáspora: Iemanjá, a grande mãe africana do Brasil: rito e representação — estudo sobre as transformações de seu culto entre as águas fluviais africanas e o mar brasileiro.
Oxum e as águas doces: Pensar-viver-água em Oxum para (re)encantar o mundo
Em 2026, não existe base para afirmar que o Rio Doce esteja recuperado. Mais de dez anos depois do rompimento de Fundão, o Governo Federal iniciou uma nova etapa de monitoramento da água em 173 pontos de 32 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, com análises que incluem microrganismos, metais pesados, compostos orgânicos e agrotóxicos. O trabalho está previsto para durar 36 meses e produzir um diagnóstico sobre a segurança da água consumida pela população. A própria necessidade desse acompanhamento prolongado revela que o desastre não terminou quando a lama alcançou o mar: seus efeitos permanecem sob investigação, enquanto a reparação instituída pelo acordo de 2024 deverá se estender pelas próximas duas décadas. Em 2026, portanto, o Rio Doce não pertence apenas ao passado do desastre. Ele permanece como território vivo, ferido, disputado e ainda à espera de respostas.
Acompanhamento oficial: Monitoramento da água em 173 pontos — Funasa · Nova etapa do monitoramento — Funasa · Acordo de Reparação do Rio Doce
Esta pesquisa começou com um nome — Mãe-d’Água — e encontrou muitas águas que não podem ser reunidas em uma única presença. O nome, isoladamente, não revela quem habita o rio, quem guarda a nascente, quem fala por meio da cachoeira ou quem recebe uma obrigação no mar. Para compreendê-lo, é necessário saber quem o pronuncia, em qual território, diante de que água e dentro de qual sistema de conhecimentos. Fora dessas relações, nomes diferentes parecem equivalentes, entidades religiosas são transformadas em imagens genéricas e saberes pertencentes a povos e comunidades distintos perdem sua origem.
O percurso pelo Espírito Santo torna essa questão inseparável do presente. Aqui, a água é parente, memória familiar, sustento, caminho, território quilombola e fundamento religioso; mas também é um corpo submetido à mineração, à monocultura, ao soterramento de nascentes e à interrupção de práticas coletivas. Em 2026, enquanto o Rio Doce continua sob monitoramento e sua reparação permanece em curso, não é possível tratar essas relações como lembranças de um mundo desaparecido. Elas continuam vivas porque existem povos e comunidades que as preservam, reivindicam e refazem.
Ao final, esta página não estabelece uma definição única para a Mãe-d’Água. Estabelece um compromisso: nenhuma presença das águas deve ser separada da voz que a transmite, do território que lhe dá sentido e das condições que permitem que essa relação continue existindo.
Elvis Bittencourt