A palavra folclore foi criada em 1846 pelo pesquisador inglês William John Thoms, a partir da união de duas palavras da tradição linguística germânica: folk, que significa povo, e lore, que significa saber, conhecimento ou ensinamento. Em sua origem, portanto, folclore significa literalmente "o saber do povo".
Ao criar esse termo, Thoms buscava substituir a expressão popular antiquities ("antiguidades populares"), reunindo em uma única palavra o vasto conjunto de conhecimentos preservados pelas comunidades por meio da tradição. Não se referia apenas a histórias fantásticas ou personagens imaginários, mas a tudo aquilo que um povo cria, preserva e transmite ao longo das gerações.
Desde sua origem, o conceito de folclore compreende narrativas orais, cantigas, festas, danças, culinária, medicina popular, modos de falar, brincadeiras, religiosidade, artesanato, ofícios tradicionais, crenças, costumes e inúmeras outras manifestações que expressam a experiência coletiva de uma comunidade. Trata-se, portanto, de um patrimônio vivo, construído pela memória e pela convivência entre as pessoas.
No Brasil, pesquisadores como Luís da Câmara Cascudo ampliaram essa compreensão ao reconhecer o folclore como um importante campo de estudo da cultura brasileira. Em suas obras, o folclore não aparece apenas como um conjunto de lendas, mas como uma forma de compreender os modos de viver, pensar, criar e interpretar o mundo presentes nas diferentes regiões do país.
É nesse sentido que o projeto Seres do Folclore Brasileiro utiliza essa palavra. O termo não é empregado para reduzir essas narrativas ao imaginário infantil ou ao entretenimento, mas para reconhecer sua origem como saberes transmitidos pelos povos. Cada ser investigado nesta pesquisa é compreendido como parte de uma rede de memórias, territórios, práticas culturais e experiências coletivas que permanecem vivas na oralidade, nas festas populares, nas manifestações religiosas, nas comunidades tradicionais e na relação entre as pessoas e seus lugares.
Assim, ao adotar a palavra Folclore, este projeto reafirma seu significado original: o saber do povo. Um conhecimento construído coletivamente, preservado pela tradição e continuamente recriado por aqueles que o vivem, o narram e o transmitem às gerações futuras.
O guardião da Alma Brasileira
Luís da Câmara Cascudo: o grande pesquisador do folclore brasileiro
Se William John Thoms criou a palavra folklore, foi Luís da Câmara Cascudo (1898–1986) quem lhe deu uma das maiores contribuições no Brasil. Historiador, jornalista, professor e pesquisador potiguar, Cascudo dedicou mais de seis décadas ao estudo da cultura popular brasileira, tornando-se uma das principais referências no tema.
Sua pesquisa ultrapassou o universo das lendas e dos personagens fantásticos. Para Cascudo, o folclore compreendia o conjunto dos conhecimentos transmitidos de geração em geração: narrativas orais, festas populares, danças, cantigas, religiosidade, culinária, medicina popular, brincadeiras, artesanato, modos de falar, costumes e formas de viver que expressam a identidade cultural do povo brasileiro.
Entre suas obras mais importantes destaca-se o Dicionário do Folclore Brasileiro, publicado em 1954, considerado até hoje uma das principais referências sobre o tema. Ao longo de sua vida, também escreveu livros fundamentais como História da Alimentação no Brasil, Geografia dos Mitos Brasileiros, Rede de Dormir, Civilização e Cultura e dezenas de outros estudos que registram diferentes aspectos da memória cultural do país.
Cascudo compreendia o folclore como um fenômeno vivo e em permanente transformação. Em uma de suas definições mais conhecidas, afirmou que "o folclore é a cultura do popular, tornada normativa pela tradição", destacando que essas manifestações permanecem vivas porque continuam sendo praticadas, compartilhadas e recriadas pelas comunidades.
É essa tradição de pesquisa que inspira o projeto Seres do Folclore Brasileiro. Assim como Câmara Cascudo percorreu o país registrando os saberes preservados pela oralidade e pela experiência cotidiana, esta pesquisa busca dialogar com territórios, comunidades e memórias para compreender como esses seres continuam presentes na cultura brasileira contemporânea. A escultura torna-se, nesse contexto, uma forma de investigação, documentação e preservação da memória cultural.
COMISSÃO NACIONAL DE FOLCLORE
Fortalecendo os estudos do folclore brasileiro desde 1947
O que é?
A Comissão Nacional de Folclore (CNF) é uma instituição dedicada ao estudo, à documentação, à preservação e à valorização das manifestações da cultura popular brasileira. Desde sua criação, reúne pesquisadores, educadores e estudiosos comprometidos com a continuidade dos saberes tradicionais. A criação da Comissão Nacional de Folclore, em 1947, representa um marco na história dos estudos da cultura popular brasileira. Até então, as manifestações populares eram pesquisadas de forma dispersa por escritores, historiadores e intelectuais de diferentes regiões do país. A Comissão nasceu para reunir esses pesquisadores, incentivar investigações sistemáticas e construir uma rede nacional dedicada ao estudo dos saberes tradicionais.
Seu trabalho não consistia apenas em registrar lendas ou festas populares. A Comissão compreendia o folclore como um campo de conhecimento capaz de revelar modos de viver, formas de organização social, religiosidade, alimentação, linguagem, música, artesanato, técnicas tradicionais e as múltiplas expressões culturais presentes no cotidiano brasileiro.
Ao promover congressos, encontros científicos, publicações e pesquisas de campo, a Comissão contribuiu para consolidar o folclore como área de investigação acadêmica no Brasil. Um de seus maiores legados foi a elaboração da Carta do Folclore Brasileiro, documento que orientou gerações de pesquisadores e ampliou a compreensão do folclore para além das lendas e personagens tradicionais.
Mais do que preservar o passado, a Comissão defendia que o folclore é um patrimônio vivo, em constante transformação, produzido continuamente pelas comunidades. Essa compreensão influenciou profundamente os estudos da cultura popular brasileira e continua presente nas discussões sobre patrimônio cultural e memória coletiva.
CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO
A Carta do Folclore Brasileiro é um dos documentos mais importantes para a compreensão e o estudo da cultura popular no país. Aprovada em 1951 durante o I Congresso Brasileiro de Folclore, ela estabeleceu princípios que orientam pesquisadores, educadores e instituições na valorização, documentação e preservação das manifestações culturais brasileiras.
Mais do que definir o que é folclore, a Carta reconhece que as tradições populares constituem um patrimônio cultural construído coletivamente ao longo do tempo. Seus princípios defendem o respeito à diversidade regional, a importância da pesquisa de campo, o registro das manifestações culturais e a participação das próprias comunidades na preservação de seus saberes.
Em 1995, o documento foi revisado para incorporar novas perspectivas sobre patrimônio cultural, ampliando sua compreensão do folclore e reforçando o papel das comunidades como protagonistas na continuidade de suas tradições. Essa atualização aproximou a Carta das discussões contemporâneas sobre identidade cultural, memória coletiva e salvaguarda do patrimônio imaterial.
Para o projeto Seres do Folclore Brasileiro, a Carta representa uma referência fundamental. Seus princípios dialogam diretamente com a proposta desta pesquisa, que busca compreender os seres do folclore não como elementos isolados, mas como expressões vivas da memória, do território, da oralidade e das práticas culturais que continuam sendo transmitidas entre gerações. Cada escultura nasce desse compromisso com a pesquisa, com a escuta das comunidades e com o reconhecimento da cultura popular como um patrimônio vivo e em permanente transformação.