Depois de acompanhar diferentes histórias da Matinta, uma imagem começa a permanecer comigo: uma mulher idosa, sozinha, batendo à porta para pedir alimento ou fumo. Antes de pensar em sua transformação, detenho-me nessa chegada. Quem é essa mulher durante o dia? Como vive? Quem percebe sua falta? O que acontece quando sua presença incomoda mais do que sua necessidade mobiliza?
Nas versões em que alguém promete uma oferta para interromper o assobio, encontro uma tensão: a pessoa entrega alguma coisa para conseguir sossego. Essa relação me faz perguntar se a ajuda pode acontecer sem acolhimento. Dar algo pela porta pode aliviar uma necessidade imediata e, ainda assim, manter quem pede do lado de fora.
É nessa distância entre oferecer e acolher que começo minha investigação.
A imagem de uma mulher idosa que chega à porta para pedir alimento ou fumo abriu uma pergunta na minha investigação: o que enxergamos quando olhamos para a Matinta — uma ameaça ou uma pessoa cuja presença não queremos acolher? Para aprofundar essa leitura, procurei estudos que aproximam suas narrativas das experiências de envelhecimento, pobreza e exclusão.
Encontrei essa discussão no artigo Amazônia e narrativa: reflexões sobre o protagonismo da mulher velha em dois contos orais da Matintaperera, de Andressa de Jesus Araújo Ramos, Rubenil da Silva Oliveira e Maria do Perpétuo Socorro Galvão Simões. Ao analisar duas narrativas recolhidas pelo IFNOPAP, os autores abordam a representação da velhice feminina e a discriminação que pode atingir uma pessoa tanto por ser mulher quanto por ser idosa. Esse estudo oferece fundamento para olhar a Matinta também pelas relações sociais que atravessam sua figura.
A pesquisa sobre as versões de Curuçambaba, em Bujaru, no Pará, acrescenta as relações entre gênero, velhice e pobreza. A partir dessas referências, meu olhar se desloca para quem é reconhecida como Matinta: como sua aparência, sua idade e sua condição de vida participam desse reconhecimento? Quando uma mulher passa a ser temida, o que deixamos de perceber sobre ela?
Para desenvolver essa questão, aproximo a pesquisa de Ecléa Bosi, autora de Memória e sociedade: lembranças de velhos. Sua obra dá espaço às experiências narradas por pessoas idosas e permite pensar a perda de vínculos, de reconhecimento e de oportunidades de transmitir o que viveram. Essa perspectiva amplia minha compreensão do abandono: ele pode envolver a falta de uma escuta, de uma relação ou de um lugar onde a pessoa se sinta pertencente.
É nesse encontro que construo meu paralelo com a Matinta. O pedido à porta não comprova, por si só, que ela esteja abandonada; nas histórias, pode fazer parte de uma promessa ou de uma troca. Mas essa chegada provoca em mim uma questão sobre o acolhimento. Oferecer algo para que alguém vá embora é diferente de reconhecer sua presença, seus desejos e sua história.
Também me interessa preservar a vontade dessa mulher. O pedido de fumo não precisa ser reduzido a uma necessidade de sobrevivência: ele abre espaço, na minha leitura, para pensar hábito, prazer e escolha. A pessoa idosa continua tendo desejos e contradições. Reconhecê-la apenas como alguém que precisa de cuidados pode diminuir sua autonomia e deixar sua voz em segundo plano.
Minha investigação passa, então, a acompanhar a distância entre ser percebida e ser acolhida. A Matinta me permite perguntar como uma presença se torna incômoda e por que, às vezes, respondemos ao medo com mais prontidão do que à necessidade de atenção. O que acontece quando uma pessoa precisa perturbar para ser ouvida? Essa pergunta orienta a aproximação que construo entre suas narrativas e o abandono das pessoas idosas.
Referências para acompanhar essa leitura:
Leia o estudo sobre a mulher velha nas narrativas da Matinta
Leia a pesquisa sobre gênero, velhice e pobreza nas versões de Bujaru
Conheça a discussão sobre memória e exclusão a partir de Ecléa Bosi
Ao olhar para a Matinta como uma mulher idosa que bate à porta e pede alimento ou fumo, minha investigação se aproxima de uma pergunta do presente: como respondemos às necessidades de quem envelhece? Para desenvolver esse paralelo, preciso olhar também para as condições de vida das pessoas idosas, para as violências que enfrentam e para as formas de proteção disponíveis.
O Censo de 2022 registrou 32.113.490 pessoas com 60 anos ou mais no Brasil, aproximadamente 15,8% da população. No Amapá, essa faixa de idade correspondia a 8,4% dos moradores. Embora o estado tenha uma população proporcionalmente mais jovem, o envelhecimento também avança em seu território: considerando especificamente as pessoas com 65 anos ou mais, sua participação passou de 3,4% em 2010 para 5,5% em 2022. São faixas etárias diferentes, identificadas aqui para preservar a precisão dos dados. Em ambas, encontramos uma realidade que exige atenção ao cuidado, à autonomia e à participação das pessoas mais velhas. biblioteca.ibge.gov.br
Os registros mais recentes de violência mostram outra dimensão dessa realidade. No Relatório de Gestão da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos de 2025, as denúncias envolvendo pessoas idosas representam 22,54% da distribuição por grupo vulnerável apresentada para o Disque 100, a segunda maior participação depois das denúncias envolvendo crianças e adolescentes. Esse percentual diz respeito aos registros recebidos pelo serviço, não à proporção de pessoas idosas brasileiras que sofreram violência. Ainda assim, evidencia a presença expressiva desse grupo entre as demandas por proteção. www.gov.br
No Amapá, uma divulgação do Governo do Estado publicada em junho de 2026, com dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública referentes a 2025, informa 5.288 ocorrências envolvendo pessoas idosas como vítimas. Entre elas, aparecem 1.271 registros de estelionato, 1.207 de furto e 689 de ameaça. A violência alcança, portanto, o dinheiro, os bens e a segurança cotidiana. Perder recursos por um golpe ou viver sob ameaça pode comprometer as condições materiais e a liberdade de uma pessoa. agenciaamapa.com.br
Nesse levantamento, 2.080 ocorrências aconteceram nas residências das vítimas, cerca de 39,3% do total, em cálculo feito a partir dos números divulgados. A casa aparece como um lugar importante para compreender essas situações, embora o endereço da ocorrência, sozinho, não identifique o agressor nem sua relação com a vítima. Estar dentro de casa ou acompanhado de outras pessoas não garante, por si só, segurança, respeito ou cuidado. agenciaamapa.com.br
A mobilização para enfrentar essas violências continuou em 2026. Em junho, a Polícia Civil do Amapá documentou um ciclo de 11 dias de atividades da Operação Virtude em 14 municípios, com checagem de denúncias, fiscalização de medidas protetivas e ações educativas. Esse registro mostra o alcance territorial da operação, mas não apresenta uma contagem estadual de vítimas ou ocorrências para todo o ano de 2026. amapa.gov.br
Esses números não constituem uma contagem de pessoas idosas abandonadas. Reúnem denúncias e ocorrências de diferentes violências, em sistemas distintos, e não devem ser somados. O abandono exige uma investigação própria, assim como a negligência e o isolamento. Uma pessoa pode morar sozinha e manter autonomia, vínculos e apoio; outra pode viver acompanhada e ter suas necessidades ignoradas. Para esta pesquisa, interessa perceber a qualidade dessas relações: existe alimento, cuidado, acesso aos próprios recursos, respeito às escolhas e espaço para falar?
É nesse ponto que a Matinta à porta se aproxima da questão que desejo investigar. Na mulher idosa que pede alguma coisa, vejo a possibilidade de pensar quem precisa insistir para ser percebido. O alimento remete à necessidade de sustento; o fumo também permite pensar o desejo, o hábito e aquilo que alguém escolhe para si. A pessoa que envelhece continua tendo vontade, história e capacidade de decidir. Reduzi-la às suas necessidades básicas pode apagar justamente aquilo que a torna singular.
Minha leitura artística se constrói nesse encontro entre a narrativa e o presente. A porta concentra uma relação: alguém chega, pede e espera; alguém escuta e decide como responder. O pedido recebe atenção porque reconhecemos a pessoa ou porque queremos nos livrar do incômodo? Essa pergunta dá direção à investigação escultórica da Matinta e ao paralelo com o abandono das pessoas idosas, sem reduzir a diversidade de suas narrativas a uma única explicação.
Fontes e leituras:
População por idade e sexo no Amapá — Censo 2022, IBGE
Relatório de Gestão da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos — 2025
Ocorrências envolvendo pessoas idosas no Amapá — dados de 2025, divulgados em junho de 2026
Operação Virtude no Amapá — ações de junho de 2026
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A investigação não acontece apenas diante da matéria. Ao longo da construção da escultura, experiências sensoriais, observações do território e estímulos encontrados durante o percurso também atravessam o processo. Esses registros acompanham a investigação e podem ser acessados abaixo. em Imersão Sensorial.
🎥Imersão sensorial: O Último Azul
O filme O Último Azul entra nesta investigação como uma experiência de aproximação com a velhice, a autonomia e o direito de continuar escolhendo os próprios caminhos. Ao acompanhar sua protagonista idosa em uma travessia pela Amazônia, meu olhar se volta para o que acontece quando outras pessoas passam a decidir onde alguém deve estar, como deve viver e quais desejos ainda pode realizar.
As águas, os deslocamentos e os encontros do filme oferecem estímulos para pensar o corpo em relação ao território. Durante essa imersão, minha atenção se dirige aos gestos, às pausas, à respiração e às maneiras pelas quais a presença de uma mulher idosa ocupa a cena. O que seu corpo comunica? Como sua vontade aparece diante das tentativas de conduzir sua vida? Essas perguntas orientam a experiência de assistir e observar.
O encontro com a Matinta acontece pela presença dessa mulher e pela tensão entre sua vontade e a resposta que recebe. Nas narrativas em que a Matinta aparece como uma idosa que pede alimento ou fumo, há alguém que se aproxima, deseja alguma coisa e provoca uma reação. O filme amplia minha atenção para essa relação: antes de responder ao pedido, conseguimos reconhecer quem está pedindo?
Essa imersão também me ajuda a não reduzir a velhice à fragilidade. A investigação precisa acolher o desejo, a curiosidade, a resistência e a possibilidade de partir. Ao pensar a Matinta, quero manter espaço para uma mulher que necessita de vínculos e cuidado, mas que também possui escolhas, vontades e uma vida que não cabe apenas no olhar dos outros.
O Último Azul passa, assim, a integrar as referências sensoriais da pesquisa, aproximando a questão do abandono de outra igualmente importante: o direito de envelhecer sem perder o comando da própria vida.
Referência
O ÚLTIMO AZUL (The Blue Trail). Direção: Gabriel Mascaro. Produção: Rachel Daisy Ellis e Sandino Saravia Vinay. Brasil, México, Chile e Países Baixos: Desvia Filmes, Cinevinay, Quijote Cine e Viking Film, 2025. 1 filme (86 min), sonoro, colorido. Disponível na Netflix. Acesso em: 9 set. 2026.
O filme Pacarrete, dirigido por Allan Deberton, entra nesta investigação pela presença de uma mulher idosa que deseja continuar dançando e ser reconhecida por sua arte. Bailarina aposentada, ela vive em Russas, no interior do Ceará, e pretende oferecer uma apresentação à cidade durante a celebração de seus duzentos anos. Seu desejo, porém, encontra a indiferença de quem está ao redor. Deberton Filmes
Essa aproximação me permite pensar o abandono também como recusa de reconhecimento. Uma pessoa pode estar presente na vida de uma comunidade e, ainda assim, encontrar pouco espaço para aquilo que deseja compartilhar. Na minha leitura, a vontade de dançar abre uma questão que atravessa a pesquisa da Matinta: o que acontece quando uma mulher idosa insiste em ocupar um lugar que os outros já não querem lhe oferecer?
Na dimensão sensorial, minha atenção se dirige ao corpo que dança, à voz, aos movimentos e à relação entre gesto e espaço. A dança oferece um caminho para observar a velhice como presença ativa: um corpo que guarda conhecimento, procura expressão e continua capaz de provocar quem o observa. Essa referência me interessa especialmente porque desloca meu olhar do corpo idoso como alguém que apenas recebe cuidado para alguém que também tem algo a oferecer.
A aproximação com a Matinta passa pelo olhar lançado sobre uma mulher considerada incômoda. A própria sinopse de Pacarrete apresenta a bailarina como alguém “considerada louca”. Esse julgamento me leva a perguntar como a diferença se transforma em rótulo e como um rótulo pode autorizar a desconsideração de uma pessoa. Na investigação da Matinta, quero observar essa passagem entre a presença de uma mulher, a reação que ela desperta e a imagem que os outros constroem dela.
Pacarrete acrescenta, assim, uma dimensão importante ao paralelo com o abandono: o direito de continuar criando, desejando e participando da vida coletiva. A mulher que pede alimento ou fumo também pode carregar saberes, lembranças e vontades que ninguém perguntou quais eram. Conseguimos reconhecer o que ela tem a oferecer, além de enxergar aquilo de que precisa?
Referência
PACARRETE. Direção e produção: Allan Deberton. Brasil: Deberton Filmes, 2019. 1 filme (97 min), sonoro, colorido. Distribuição brasileira: Vitrine Filmes.
O filme Thelma, dirigido por Josh Margolin, entra nesta investigação pela relação entre envelhecimento, violência patrimonial e autonomia. A história acompanha uma mulher de 93 anos que, depois de sofrer um golpe telefônico de alguém que se passa por seu neto, decide sair em busca do dinheiro que lhe foi roubado. O vínculo afetivo é usado para enganá-la, transformando sua preocupação com alguém querido em instrumento de exploração.
Essa referência aproxima a pesquisa das situações de estelionato encontradas nos dados sobre pessoas idosas no Amapá. Na minha leitura, o golpe ameaça mais do que os recursos financeiros: pode abalar a confiança de alguém em si e nas relações que mantém. Interessa-me observar o que acontece depois dessa violência e como a mulher atingida encontra espaço para responder. Quando uma pessoa idosa sofre um golpe, nós a ajudamos a recuperar sua segurança ou passamos a tratar suas escolhas como um problema?
Na dimensão sensorial, minha atenção se dirige ao esforço dos deslocamentos, ao ritmo dos gestos e à relação do corpo com os objetos e os obstáculos do caminho. A linguagem de aventura oferece uma possibilidade de observar a ação a partir de um corpo idoso. Quero perceber como os limites físicos convivem com a iniciativa, a persistência e a necessidade de apoio, sem transformar esses limites na definição inteira de uma pessoa.
O encontro com a Matinta acontece pela capacidade de agir dessa mulher. Ao investigar a idosa que bate à porta, preciso considerar também sua intenção: ela chega, pede, insiste e provoca uma resposta. Thelma amplia esse olhar para uma velhice que participa dos acontecimentos e procura interferir no próprio destino. A necessidade de ajuda pode coexistir com a vontade de decidir como essa ajuda será recebida.
Essa imersão acrescenta à pesquisa uma tensão entre cuidado e controle. Proteger alguém exige atenção aos riscos, mas também escuta e respeito. Para pensar a Matinta, essa relação importa: como oferecer cuidado sem retirar da mulher idosa o direito de conduzir a própria vida? O filme passa a integrar a investigação como estímulo para observar um corpo que enfrenta a vulnerabilidade, estabelece alianças e continua desejando agir.
Referência
THELMA. Direção e roteiro: Josh Margolin. Estados Unidos, 2024. 1 filme (98 min), sonoro, colorido. Distribuição nos Estados Unidos: Magnolia Pictures.