O ritual que acompanha o Alecrim Dourado não corresponde a uma cerimônia fixa. Ele nasce da escuta, da memória e dos pequenos gestos de cuidado transmitidos entre gerações. O texto a seguir foi escrito durante o processo da obra e integra o campo poético do Estudo Vivo.
ALECRIM DOURADO
(texto ritual)
Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado,
primeiro foi som — a voz da mãe baixinha cantando enquanto o corpo aprendia a dormir.
Antes da palavra, o ritmo.
Antes do sentido, o cheiro que ficava no ar.
Alecrim, alecrim dourado.
O canto que embala o sono é o mesmo que volta quando o corpo adoece,
o ramo que passa devagar pela testa quente,
a mão da benzedeira que não pergunta idade nem nome,
apenas repete o gesto antigo porque sempre funcionou.
Foi meu amor que me disse assim:
que a flor do campo é o alecrim.
E quando ouvi, reconheci,
porque já estava em mim muito antes de saber.
O tempo cresce e o alecrim muda de lugar sem mudar de sentido,
verde no nascimento,
dourado na velhice.
Entra no chá, entra na reza, entra na roda,
vai para o cabelo, acompanha o riso,
amarra promessa em dia de festa.
Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado.
Depois, sem aviso, o mesmo cheiro retorna mais baixo.
Não embala mais — acompanha.
Não protege — permanece.
E quando o corpo já não responde
e o tempo pesa mais do que o nome,
o que retorna não é o medo.
É a lembrança simples.
Na hora da morte,
ele não chama por si.
Ele lembra.
Lembra da primeira voz.
Lembra do colo.
Lembra que o amor tinha nome de mãe
e que foi ela quem disse, uma vez,
sem saber que dizia para sempre.
O ramo que esteve no começo fica até o fim,
na despedida silenciosa,
no gesto simples de colocar junto ao corpo
aquilo que acompanhou toda a travessia.
Então, o canto retorna.
Não como memória —
mas como presença.
Alecrim, alecrim dourado,
que nasceu no campo sem ser semeado.
Foi meu amor que me disse assim:
que a flor do campo é o alecrim.
Há saberes que não sobrevivem nos livros, mas nas vozes que continuam cantando.