Pesquisa Sultão do Mato e a Ema Celeste
Brasília - Cerrado - Brasil
Brasília - Cerrado - Brasil
Uma ressalva importante, para manter uma pesquisa rigorosamente honesta: a literatura consultada documenta com mais profundidade a astronomia de povos de tronco Tupi-Guarani, além de etnias como os Karajá e os Tukano. Um sistema astronômico específico e detalhado atribuído aos Xavante, Xerente ou Xacriabá no próprio Planalto Central não foi localizado nas fontes disponíveis nesta pesquisa. Isso não significa que esse conhecimento não exista — apenas que não encontrei, até o momento, um registro acadêmico amplamente publicado que o descreva em detalhe.
Entre diferentes povos indígenas do Brasil, o céu nunca foi apenas um conjunto de estrelas. Ele constitui um território vivo, atravessado por histórias, animais, ciclos e caminhos. Muito antes da chegada dos mapas celestes europeus, diversos povos observavam a Via Láctea não pelas figuras desenhadas entre as estrelas, mas pelas grandes manchas escuras que atravessam seu interior. Nessas regiões de sombra emerge a Ema Celeste — chamada Landutim pelos Tupinambá e Guirá Nhandu pelos Guarani, uma das constelações sazonais centrais do calendário astronômico dos povos originários do Brasil. Ela aparece na segunda quinzena de junho, anunciando o inverno para os povos do sul e o início da estação seca para os do norte. No céu ocidental, sua silhueta sobrepõe-se às regiões de Escorpião, Centauro e Cruzeiro do Sul. O Saco de Carvão — a grande nebulosa escura próxima ao Cruzeiro do Sul — forma sua cabeça.
Ilustração autoral inspirada na representação da Ema Celeste apresentada em Céus Astro-Culturais: Ema Guarani, Garça Tukano, Porco-Selvagem Maia e o Carneiro das Montanhas Navajo, organizado por Paulo Henrique Colonese (Fiocruz/COC, Coleção Culturas Estelares, v. 3, 2021).
A Ema não nasce da luz.
Ela nasce da ausência.
Sua silhueta é formada justamente pelo espaço escuro entre as estrelas, revelando outra maneira de olhar o firmamento. Em vez de unir pontos luminosos para construir figuras imaginárias, essa tradição reconhece formas que já existem no próprio céu. O vazio torna-se presença. A escuridão também produz imagem.
Essa forma de observar revela uma compreensão profunda da relação entre céu e território. O movimento da Ema acompanha a passagem das estações, orienta o tempo das águas, informa períodos de plantio, deslocamento e transformação da paisagem. O céu deixa de ser distante e torna-se continuidade da própria terra.
Entre as narrativas de matriz Tupi-Guarani registradas e sistematizadas pelo etnoastrônomo Germano Bruno Afonso ao longo de décadas de pesquisa com pajés de todas as regiões do Brasil, preserva-se um mito no qual a Ema tenta beber toda a água da Terra. Seu impulso é constante, insaciável. O Cruzeiro do Sul aparece como a força que segura sua cabeça — e impede esse desequilíbrio —, não como instrumento de dominação, mas como princípio de contenção. O mito não é apenas narrativa: ele descreve uma relação astronômica real. A Ema e o Cruzeiro do Sul ocupam posições adjacentes no céu austral, e sua dança sazonal orientava calendários de plantio, colheita e deslocamento de povos inteiros. O mito apresenta uma imagem delicada do equilíbrio:
Toda força que avança necessita de outra que lhe ofereça direção.
Foi essa imagem que orientou o desenvolvimento desta escultura.
O Sultão do Mato surge como aquele que carrega o Cruzeiro do Sul junto ao corpo. A constelação não aparece distante no firmamento, mas inscrita em sua guia de sete voltas, formada por contas encarnadas, búzio da costa e conchinha azul. O céu torna-se vestimenta. A direção transforma-se em presença física.
O Sultão do Mato
A canção Sultão do Mato, composta por Paulo César Pinheiro e interpretada por Glória Bomfim, constituiu um dos principais campos sensíveis desta investigação. Cantora, sambista e yalorixá, Glória Bomfim reúne em sua trajetória a musicalidade afro-brasileira e a experiência dos terreiros, conferindo à interpretação uma presença ritual marcante. A canção tem uma batida percussiva sincopada, lembrando uma embolada, e sua melodia cresce em degraus à medida que descreve o personagem. Mais do que ilustrar a escultura, a música orientou escolhas materiais, simbólicas e formais. Dela emergiram o bastão, o abano, a guia e a presença do Cruzeiro do Sul como eixo da composição. O processo escultórico não buscou representar literalmente sua narrativa, mas permitir que ela atravessasse lentamente a matéria.
O percurso inicial desta pesquisa, entretanto, seguia outra direção. A investigação começou a partir das memórias relacionadas ao Santuário dos Pajés — território de 30 hectares onde vivem famílias Fulni-ô, Guajajara e Wapixana no coração do Noroeste de Brasília, resistindo desde 2008 à especulação imobiliária que consumiu ao menos 72 hectares de Cerrado para erguer condomínios de alto padrão. Um de seus ícones foi o pajé Santxiê Tapuya, referência de força e resistência na luta contra essa especulação, que enfrentou tratores e ameaças até sua morte em 2014. A aproximação revelou um limite ético importante: existem conhecimentos que não podem ser retirados de seus contextos nem convertidos diretamente em representação artística. Reconhecer esse limite — e recuar diante dele — tornou-se parte fundamental do próprio processo.
"Eu não sei que santo é esse, meu mano. Mas o dia que eu souber eu não conto..."
— Paulo César Pinheiro, Sultão do Mato, interpretação de Glória Bomfim.
SAIBA MAIS: Para conhecer as atividades culturais e educativas desenvolvidas pela comunidade, acesse o perfil oficial do Santuário dos Pajés: @santuario_dos_pajes.
Em vez de representar aquilo que pertence a comunidades específicas, a pesquisa voltou-se para aquilo que o próprio território oferecia ao olhar: o céu do Cerrado.
Brasília talvez seja um dos lugares onde essa experiência se torna mais evidente. O horizonte amplo, a luminosidade característica da estação seca e a presença constante da abóbada celeste fazem da observação do firmamento parte da experiência cotidiana. Foi nesse encontro entre o céu brasiliense e a cosmologia indígena que a Ema Celeste passou a orientar esta obra.
Assim, a escultura não procura ilustrar um mito nem representar uma entidade.
Ela investiga uma relação.
Entre céu e terra.
Entre movimento e contenção.
Entre luz e escuridão.
Entre diferentes matrizes culturais que continuam produzindo a paisagem simbólica brasileira.
O Sultão não domina a Ema.
Ele sustenta o equilíbrio necessário para que ela continue seu percurso.
O Cruzeiro do Sul deixa de ser apenas uma constelação.
Transforma-se em direção viva, carregada junto ao corpo.
A Ema continua caminhando pelo céu.
E o território continua ensinando aqueles que aprendem a olhar.
O primeiro gesto desta obra não foi modelar a matéria. Foi respeitar um território
Fontes
CORREIO BRAZILIENSE. Minissérie resgata a história do Planalto Central até a construção de Brasília. 2020.
METRÓPOLES. Indígenas resistem em Brasília desde antes da construção da capital. 2024.
MULTIRIO. Astronomia indígena e Ensino Fundamental. 2022.
CIÊNCIA E CULTURA — UFBA. De olho na astronomia indígena.
EBC. Fique por dentro dos mitos e usos das constelações indígenas. 2016.
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