O Pelznickel é uma tradição viva preservada pelas comunidades do Vale do Itajaí. Esta página não busca substituir esse conhecimento, mas compartilhar o encontro entre essa manifestação e o processo de pesquisa desenvolvido para o projeto Seres do Folclore Brasileiro. Se você deseja conhecer a história, os grupos, os eventos e as ações de preservação do Pelznickel, recomendamos visitar o site da Sociedade do Pelznickel, principal referência sobre essa tradição.
SAIBA MAIS:
Cada comunidade, família e participante constrói seu próprio Pelznickel. Máscaras, chifres, fibras vegetais, galhos e outros elementos da indumentária variam conforme a história local, os materiais disponíveis e as escolhas de quem brinca. Embora a tradição preserve referências compartilhadas, elas não estabelece um modelo único a ser reproduzido. É justamente essa diversidade que revela seu caráter comunitário e mantém o Pelznickel vivo como patrimônio cultural.
As imagens a seguir ilustram essa diversidade: à esquerda, a interpretação escultórica desenvolvida para o projeto Seres do Folclore Brasileiro; à direita, uma síntese visual construída a partir de características recorrentes observadas durante a pesquisa.
Interpretação escultórica desenvolvida para Dança dos Mascarados.
Sintese visual de elementos recorrentes observados durante a pesquisa
Nas comunidades de colonização germânica do Sul do Brasil, especialmente no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, surge durante o período natalino uma figura que caminha entre o medo e a brincadeira: o Pelznickel.
Ao entardecer de datas próximas ao Natal, personagens mascarados aparecem vindos das matas que cercam as cidades. Vestidos com roupas rústicas, adornos vegetais, máscaras e, muitas vezes, chifres, percorrem ruas e casas carregando galhos, correntes ou objetos sonoros. Sua presença provoca surpresa, curiosidade e respeito — principalmente entre as crianças.
A tradição tem origem em narrativas trazidas por imigrantes germânicos que chegaram à região no século XIX. Nessas histórias, o Pelznickel aparece como contraponto à figura de São Nicolau. Enquanto o santo recompensa as crianças bem-comportadas com doces e presentes, o Pelznickel assume o papel de advertência simbólica, visitando aqueles que não se comportaram durante o ano.
No contexto catarinense, entretanto, o personagem deixou de existir apenas como figura narrativa. Ele se transformou em prática cultural comunitária. Moradores organizam desfiles, encontros e aparições públicas que mantêm viva a tradição, transmitindo-a entre gerações como parte da identidade local.
Hoje, a manifestação é preservada por grupos culturais e pela Sociedade do Pelznickel, fundada em 2005 no município de Guabiruba. A tradição foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial da cidade, e Guabiruba recebeu o título de Capital Catarinense do Pelznickel.
Mais do que personagem, o Pelznickel aparece como presença liminar — figura que atravessa a festa lembrando que as máscaras não pertencem a indivíduos, mas às culturas que continuam caminhando através delas.
O CICLO NATALINO BRASILEIRO
O ciclo natalino brasileiro reúne um amplo conjunto de celebrações populares que, entre o Advento e o Dia de Reis, transformam ruas, igrejas, comunidades e casas em espaços de encontro, devoção e memória. Embora cada manifestação possua sua própria história, seus personagens, músicas e modos de fazer, todas compartilham um mesmo princípio: celebrar o nascimento de Cristo por meio da cultura popular.
Ao longo do território brasileiro, tradições de diferentes origens — indígenas, africanas e europeias — encontraram novos significados, dando origem a expressões únicas como a Folia de Reis, o Pastoril, o Reisado, as Cheganças, o Guerreiro, o Cavalo-Marinho, o Boi de Reis, os Ranchos de Reis e o Pelznickel. Cada uma preserva modos particulares de cantar, dançar, representar e transmitir conhecimentos entre gerações.
É nesse amplo mosaico de manifestações que se insere o Pelznickel, tradição preservada no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Embora tenha raízes nas comunidades de imigração germânica, sua permanência no Brasil transformou profundamente sua forma de existir, tornando-o uma expressão singular do patrimônio cultural brasileiro. Compreender o ciclo natalino é compreender também o lugar ocupado pelo Pelznickel dentro dessa grande rede de celebrações que mantêm viva a memória, a identidade e a participação comunitária.
Cada manifestação carrega sua história, seus mestres, seus instrumentos e seus cantos. Juntas, elas formam um grande mosaico cultural que atravessa gerações e mantém vivo o sentido mais profundo do Natal: a presença, a partilha e a celebração da vida.
PERSONAGENS DO CICLO NATALINO DO PELZNICKEL
O Pelznickel integra um conjunto de personagens preservados pelas comunidades de origem germânica do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Em vez de atuar sozinho, ele participa de um sistema simbólico em que cada figura desempenha uma função específica nas celebrações do ciclo natalino. Juntos, esses personagens expressam valores como responsabilidade, esperança, hospitalidade e convivência comunitária.
A Christkindl, cujo nome significa "Menino Jesus" no dialeto alemão badense, representa a bondade, a renovação e a esperança associadas ao nascimento de Cristo. Tradicionalmente interpretada por uma jovem vestida de branco, distribui doces às crianças e simboliza a recompensa, contrapondo-se ao aspecto mais severo do Pelznickel.
O Sackmann é a figura de advertência, com visual mais humano (barba e chapéu). Ele atua no contexto lúdico e ritualístico de Natal, focando na responsabilidade e boas atitudes.
Já Opa e Oma representam a memória das primeiras famílias de imigrantes, a hospitalidade e o ambiente doméstico que acolhe visitantes, parentes e vizinhos. Sua presença evidencia que o Natal também é construído em torno da partilha e da convivência entre gerações.
Os trabalhadores da roça, inspirados no cotidiano agrícola do Vale do Itajaí, simbolizam o trabalho coletivo, a solidariedade e o vínculo das comunidades com a terra. Eles lembram que a tradição não nasce apenas da festa, mas da vida cotidiana das pessoas que a preservam.
Assim, compreender o Pelznickel significa compreender todo esse conjunto de personagens. Nenhum deles existe isoladamente. Cada um ocupa um lugar próprio dentro da celebração, contribuindo para que o ciclo natalino catarinense permaneça vivo e seja transmitido de geração em geração.
A SAÍDA DO PELZNICKEL DA MATA
A primeira saída ocorre tradicionalmente em 6 de dezembro, data dedicada a São Nicolau. Nesse momento, o Pelznickel percorre ruas e residências anunciando a chegada do ciclo natalino. Sua presença desperta surpresa e respeito, lembrando às crianças e às famílias que o período de preparação para o Natal começou. Mais do que punir, a primeira visita funciona como advertência e convite à reflexão.
Entre a primeira e a segunda aparição estabelece-se um intervalo de aproximadamente dezoito dias. Na tradição popular, esse período representa uma oportunidade para rever atitudes, fortalecer os vínculos familiares e cultivar valores como respeito, solidariedade e responsabilidade. É um tempo de espera que confere sentido ao reencontro com o personagem.
A segunda saída acontece na véspera de Natal, em 24 de dezembro, quando o Pelznickel retorna às ruas para concluir simbolicamente o ciclo iniciado semanas antes. Tradicionalmente, esse momento concentrava maior expectativa, encerrando o percurso ritual que antecede a celebração do nascimento de Cristo.
Nas últimas décadas, entretanto, a tradição passou por importantes transformações. A atuação da Sociedade do Pelznickel e das comunidades locais ressignificou o personagem, privilegiando seu caráter educativo e comunitário. A entrega voluntária de chupetas e mamadeiras pelas crianças, por exemplo, converteu-se em um rito de passagem afetivo, marcando o crescimento infantil e substituindo antigas narrativas de punição por experiências de acolhimento e celebração.
Assim, o calendário do Pelznickel organiza mais do que datas festivas. Ele estrutura um percurso simbólico de preparação, reflexão e renovação, reafirmando que o ciclo natalino é vivido como uma experiência coletiva transmitida entre gerações.
A DINÂMICA DAS SAÍDAS
Ao contrário de outras manifestações natalinas que realizam cortejos durante todo o mês de dezembro, a tradição do Pelznickel preservada em Guabiruba organiza suas aparições em dois momentos principais, separados por um intervalo simbólico. Essa estrutura transforma a brincadeira em um verdadeiro ciclo ritual, no qual o tempo também educa.
Entre as tradições preservadas no Vale do Itajaí, um dos momentos mais aguardados do ciclo natalino é a saída do Pelznickel da mata. Antes de percorrer ruas e visitar residências, o personagem é simbolicamente associado ao ambiente florestal, de onde emerge para encontrar a comunidade.
Essa narrativa reforça uma característica singular da tradição catarinense. Diferentemente de outras figuras natalinas europeias, o Pelznickel brasileiro foi reinterpretado a partir da Mata Atlântica. Sua indumentária incorpora líquens, musgos, galhos, cipós e outros elementos naturais, aproximando o personagem da paisagem onde a tradição passou a existir.
A saída da mata representa uma passagem entre dois mundos: o da natureza e o da comunidade. O silêncio da floresta é interrompido pelo som dos sinos, das correntes e dos passos sobre o chão. Esses sinais anunciam que o tempo cotidiano dá lugar ao tempo ritual do Natal.
Quando o Pelznickel alcança as ruas, sua presença desperta surpresa, respeito e expectativa. O personagem percorre casas e espaços públicos, encontrando crianças e famílias em uma celebração que mistura brincadeira, memória e educação comunitária. Mais do que assustar, sua visita convida à reflexão sobre atitudes, convivência e responsabilidade.
Assim, a caminhada do Pelznickel não deve ser compreendida apenas como um deslocamento físico. Ela simboliza a chegada da floresta à cidade e reafirma o vínculo entre território, tradição e identidade. A cada dezembro, a comunidade revive esse percurso, renovando uma prática transmitida entre gerações e reconhecendo na Mata Atlântica um dos elementos constitutivos do Pelznickel brasileiro.
O PELZNICKEL E O TERRITÓRIO DA MATA
Embora tenha chegado ao Brasil com os imigrantes de origem germânica, o Pelznickel preservado em Guabiruba não permaneceu inalterado. Ao longo das gerações, a tradição foi reinterpretada pelas comunidades do Vale do Itajaí, incorporando materiais, paisagens e modos de vida próprios da Mata Atlântica. O resultado não foi uma simples reprodução de um personagem europeu, mas o surgimento de uma manifestação cultural profundamente enraizada no território catarinense.
Essa transformação pode ser observada na própria indumentária. Em vez das pesadas peles utilizadas para enfrentar o inverno europeu, muitos grupos passaram a utilizar barba-de-velho, musgos, folhas de palmeira, cipós, galhos e outros elementos encontrados na floresta local. O personagem deixa de representar apenas um visitante do imaginário natalino para tornar-se uma criatura que parece emergir da própria mata.
A relação com a floresta também se manifesta no processo de preparação. A coleta dos materiais naturais constitui um momento coletivo, realizado com respeito ao ambiente e transmitido entre gerações. O traje não é produzido apenas para vestir um brincante, mas para reafirmar o vínculo entre a comunidade e a paisagem que a cerca.
Essa adaptação demonstra que as tradições populares permanecem vivas justamente porque dialogam com o lugar onde são praticadas. Ao atravessar o oceano, o Pelznickel trouxe uma memória cultural; ao encontrar a Mata Atlântica, adquiriu uma nova identidade. A floresta deixou de ser apenas cenário e passou a integrar o próprio corpo do personagem.
Por isso, o Pelznickel preservado em Santa Catarina não pode ser compreendido apenas por sua origem europeia. Sua forma contemporânea resulta do encontro entre herança imigrante, criatividade popular e biodiversidade brasileira, constituindo uma manifestação cultural singular, construída pelas comunidades que a mantêm viva até os dias de hoje.
ELEMENTOS RECORRENTES DA TRADIÇÃO
A ilustração ao lado foi desenvolvida como um recurso didático e não pretende representar um modelo oficial de Pelznickel. Seu objetivo é reunir, de forma sintética, os elementos recorrentes identificados durante a pesquisa de campo, na bibliografia especializada e no diálogo estabelecido com a Sociedade do Pelznickel.
Máscaras, chifres, fibras vegetais, barba-de-velho, galhos, sinos, correntes, cajados e demais componentes aparecem com frequência nas comunidades pesquisadas, mas sua combinação nunca é exatamente a mesma. Cada grupo, família ou localidade constrói sua própria presença mascarada, adaptando materiais, formas e soluções visuais à sua história, aos recursos disponíveis, ao ambiente natural e às escolhas de quem brinca.
Essas variações revelam que o Pelznickel não é um personagem fixo, mas uma tradição viva em permanente recriação. Alguns elementos permanecem por seu forte valor simbólico e por sua importância para o reconhecimento da figura; outros surgem, desaparecem ou são transformados conforme as necessidades da comunidade e a criatividade dos artesãos responsáveis pela confecção das indumentárias.
Por essa razão, os elementos apresentados nesta prancha devem ser compreendidos como recorrências observadas, e não como regras ou padrões obrigatórios. Eles representam características que aparecem de maneira frequente nas manifestações investigadas, sem esgotar a diversidade existente entre comunidades, grupos e famílias do Vale do Itajaí.
A riqueza dessa tradição reside justamente em sua capacidade de preservar uma identidade comum sem abrir mão das singularidades locais. Cada Pelznickel carrega marcas da comunidade que o produziu e do território onde nasceu, reafirmando que a cultura popular permanece viva porque continua sendo recriada por aqueles que a praticam.
Para conhecer essa manifestação em toda a sua pluralidade, recomenda-se visitar as ações promovidas pela Sociedade do Pelznickel e explorar os registros produzidos pelas próprias comunidades que, geração após geração, mantêm essa tradição viva.
EVOLUÇÃO DAS MÁSCARAS
As máscaras apresentadas nesta prancha representam diferentes momentos da trajetória do mascaramento associado ao Pelznickel. Elas não constituem uma linha evolutiva rígida nem substituem umas às outras. Correspondem a soluções visuais desenvolvidas em contextos históricos, geográficos e culturais distintos, revelando como uma tradição pode conservar sua essência ao mesmo tempo em que transforma sua aparência.
Na região de Baden, na Alemanha, predominavam máscaras simples confeccionadas com tecidos, fuligem e materiais disponíveis no cotidiano camponês. Seu principal objetivo era ocultar a identidade do brincante durante as visitas natalinas, enfatizando o anonimato e a disciplina comunitária.
Com a imigração para Santa Catarina, essa tradição encontrou um território completamente diferente. O clima, a vegetação e os materiais da Mata Atlântica favoreceram novas soluções construtivas. Há cerca de 50 ou 60 anos, quando Guabiruba ainda pertencia a Brusque, preservavam-se máscaras de aspecto rústico produzidas com estopa, papelão, carvão, cascas de árvores e outros recursos acessíveis às comunidades rurais, mantendo forte vínculo com o improviso e a tradição artesanal.
Em Guabiruba, por sua vez, observa-se uma nova etapa desse processo. Máscaras moldadas em látex e borracha passaram a conviver com barba-de-velho, musgos, galhos, chifres e demais elementos da floresta, consolidando a imagem do Pelznickel como uma criatura da Mata Atlântica. Não se trata da substituição da tradição anterior, mas da continuidade de um processo de adaptação cultural construído pelas próprias comunidades.
Nesta pesquisa, o Krampus é apresentado apenas como uma tradição paralela do universo alpino. Embora compartilhe a origem germânica e algumas características visuais, desenvolveu-se de maneira independente, associado a outros contextos históricos, religiosos e culturais. Por essa razão, não deve ser compreendido como uma etapa evolutiva do Pelznickel preservado em Santa Catarina.
Assim, mais do que uma sucessão de máscaras, esta prancha evidencia a capacidade das culturas populares de dialogar com novos territórios sem perder sua identidade. O Pelznickel brasileiro nasce desse encontro entre memória imigrante, criatividade comunitária e a paisagem da Mata Atlântica, afirmando-se hoje como uma manifestação cultural singular e autenticamente brasileira.
BRASILEIRO
Ao longo desta pesquisa, tornou-se evidente que o Pelznickel preservado em Santa Catarina não pode ser compreendido apenas como a continuidade de uma tradição europeia. Embora suas raízes estejam ligadas aos imigrantes vindos da região de Baden, sua permanência só foi possível porque encontrou um novo território, novos materiais e novas formas de existir.
No Vale do Itajaí, a máscara deixou de vestir peles pesadas para incorporar líquens, folhas, galhos, musgos e a barba-de-velho da Mata Atlântica. As comunidades adaptaram técnicas, transformaram significados e construíram uma identidade própria, profundamente ligada à paisagem catarinense. O personagem passou a dialogar com outro clima, outra floresta e outra experiência coletiva, tornando-se parte do patrimônio cultural brasileiro.
Esse reconhecimento ultrapassa o campo simbólico. Em Guabiruba, o Pelznickel foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do município pela Lei nº 2.516/2012. Posteriormente, a tradição recebeu reconhecimento estadual por meio da Lei nº 17.697/2019, que a inscreveu como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina. Esses instrumentos legais reafirmam o valor histórico e comunitário de uma manifestação preservada por gerações.
Mais do que proteger uma festa, esse reconhecimento evidencia que o patrimônio cultural permanece vivo quando continua sendo praticado, reinventado e transmitido entre as pessoas. O Pelznickel brasileiro é resultado desse processo: uma tradição de origem europeia que encontrou na Mata Atlântica um novo corpo e, nas comunidades do Vale do Itajaí, uma nova voz.
Assim, afirmar que o Pelznickel é 100% brasileiro não significa negar sua origem, mas reconhecer que identidade cultural também se constrói pela permanência, pela transformação e pelo pertencimento. Hoje, ele integra a memória de Santa Catarina e faz parte da diversidade do patrimônio cultural do Brasil.
O que o Pelznickel me ensinou?
Sobre o corpo e a máscara
O Pelznickel ampliou minha compreensão da máscara como experiência corporal. A transformação não acontece apenas quando o rosto é coberto, mas quando todo o corpo passa a sustentar outra presença. A máscara deixa de ser um objeto para tornar-se uma forma de relação entre quem brinca, a comunidade e o território.
Sobre a migração cultural
O encontro com o Pelznickel revelou que as tradições não atravessam oceanos intactas. Trazida por imigrantes germânicos, essa manifestação encontrou no Vale do Itajaí novos materiais, outra paisagem, outro clima e novas formas de viver. Preservar uma tradição não significa mantê-la congelada, mas permitir que continue dialogando com o lugar onde vive.
Sobre autoria e comunidade
Pesquisar uma manifestação viva exige reconhecer que ela possui detentores, memórias e formas próprias de transmissão. O trabalho do artista não consiste em substituir essa voz, mas em dialogar com ela. A criação autoral nasce da escuta e do respeito à comunidade que mantém a tradição.
Sobre o tempo
O Pelznickel ensinou que tradições não permanecem vivas por permanecerem iguais. Elas permanecem vivas porque continuam sendo recriadas. O Pelznickel de hoje não é o mesmo do século XIX, e justamente por isso continua fazendo sentido para quem o vive.
Sobre o Brasil
Aos quarenta anos, formado em Artes e dedicado há anos à cultura popular, encontrei no Pelznickel uma manifestação da qual nunca havia ouvido falar. Esse encontro revelou não apenas a riqueza dessa tradição, mas também a dimensão do patrimônio cultural brasileiro que ainda permanece pouco conhecido fora de seus próprios territórios.
Sobre o projeto Seres do Folclore Brasileiro
O Pelznickel confirmou um dos princípios centrais desta pesquisa: cada manifestação encontrada transforma também o pesquisador. O projeto tornou-se uma oportunidade de conhecer tradições que eu jamais teria encontrado por outros caminhos e de estabelecer, por meio da escultura, um diálogo entre essas experiências e minha linguagem artística. As obras não procuram representar a tradição, mas registrar o encontro vivido com ela.
TEXTO RITUAL
Convocação do Pelznickel
(texto ritual)
Escuta.
Antes da música.
Antes da dança.
Antes da mesa de Natal.
Escuta o caminho da mata.
Porque há passos chegando.
Não são passos de festa.
Nem passos de guerra.
São passos antigos.
Entre galhos e folhas secas
uma figura atravessa o limiar.
Pelznickel.
Nem santo.
Nem demônio.
Brincante da rua,
guardião da mata.
Quando ele caminha
as correntes falam.
Quando ele levanta o cajado
o guizo desperta o chão.
Tin.
Tin.
Tin.
Não é ameaça.
É lembrança.
Porque na noite mais escura do ano
o mundo pergunta baixinho:
Quem foi justo?
Quem repartiu o pão?
Quem cuidou do pequeno?
Quem atravessou o ano
sem esquecer do outro?
Pelznickel não responde.
Ele dança na borda da roda.
Entre o riso
e o arrepio.
Entre a brincadeira
e o silêncio.
Seus chifres lembram a mata.
Seu manto carrega o tempo.
Seus passos acordam o chão antigo.
Ele não vem para castigar.
Ele vem para lembrar
que nenhuma festa floresce
onde o coração endurece.
Porque Pelznickel não é apenas figura.
Ele é alma antiga.
Ele é território.
O cajado toca o chão.
O guizo responde.
Tin.
Tin.
Tin.
O círculo se abre.
Entre fogo, riso e memória
o velho guardião atravessa o limiar.
Pelznickel entra na roda.
Elvis Bittencourt 2026
TIRINHAS
As tirinhas a seguir são uma criação autoral inspirada no universo do Pelznickel. Elas não retratam acontecimentos reais da tradição, mas procuram celebrar, com humor e respeito, o encontro entre o mistério, a curiosidade e a alegria que cercam esse personagem.
Assim como a tradição continua sendo recriada pelas comunidades que a mantêm viva, estas tirinhas representam um gesto de homenagem e aproximação, convidando novos públicos a conhecer o universo do Pelznickel.
AGRADECIMENTOS
Esta página reconhece as comunidades do Vale do Itajaí como detentoras dos saberes que mantêm viva a tradição do Pelznickel. Qualquer interpretação artística apresentada neste projeto nasce do respeito a esse patrimônio cultural e ao trabalho daqueles que o preservam e transmitem entre gerações.
Fontes de pesquisa
A construção desta página reuniu pesquisa bibliográfica, documentação institucional e investigação de campo realizada junto às comunidades do Vale do Itajaí. As principais referências consultadas foram:
Sociedade do Pelznickel de Guabiruba - https://pelznickel.com.br/
Lei Municipal nº 2.516/2012 (Guabiruba/SC) – Institui o Pelznickel como Patrimônio Cultural Imaterial do Município.
Lei Estadual nº 17.697/2019 (Santa Catarina) – Reconhece o Pelznickel como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Santa Catarina.
Fundação Catarinense de Cultura (FCC) – Documentos e ações de valorização do patrimônio cultural catarinense.
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Referenciais sobre patrimônio cultural imaterial, salvaguarda e transmissão de saberes.
Câmara Cascudo, Luís da. Dicionário do Folclore Brasileiro.
UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003).
Nota metodológica: As ilustrações apresentadas nesta página possuem finalidade didática e interpretativa. Não constituem registros documentais de um único grupo, mas sínteses visuais elaboradas a partir da pesquisa bibliográfica, da investigação de campo e do diálogo com a Sociedade do Pelznickel e com praticantes da tradição.
ELVIS BITTENCOURT