Rito autoral para a entrada da escultura na roda.
No centro da roda, colocar um recipiente com água limpa, dezenove pedras, um punhado de terra, fragmentos de papel, um galho seco e um ramo verde. A escultura permanece fora da roda.
Fazer a água circular lentamente com a mão.
Antes da lama, o rio corria.
Corria entre pedras, raízes e barrancos.
Atravessava aldeias, cidades, roças e matas.
Alimentava peixes, plantas, animais e pessoas.
Recebia embarcações, redes, brincadeiras, banhos, trabalhos, encontros e obrigações.
Em Povoação, o jangadeiro atravessava suas águas e contava à filha aquilo que havia visto.
Em Regência, famílias reconheciam no movimento do rio o alimento, o trabalho e a continuidade da vida.
No território Tupinikim, rios, manguezais, estuários e mar formavam caminhos que a água percorria sem obedecer às fronteiras desenhadas pelos homens.
No Sapê do Norte, córregos, lagoas e nascentes guardavam os nomes, os gestos e a memória das comunidades quilombolas.
Para os Borum, o rio era Watu.
Avô.
Parente.
Corpo vivo.
Nas casas de terreiro, a água tocava folhas, alimentos, objetos, corpos e fundamentos. Corria entre o cotidiano e o sagrado.
Erguer o recipiente.
Água que alimenta.
Água que ensina.
Água que transporta.
Água que cura.
Água que reúne.
Água que permite a vida.
O rio estava vivo, e sua vida transbordava.
Interromper o movimento da água. Depositar lentamente a terra e os fragmentos de papel dentro do recipiente.
No dia 5 de novembro de 2015, a montanha se rompeu.
Quarenta milhões de metros cúbicos de rejeitos desceram sobre a bacia.
A lama encontrou Bento Rodrigues.
Encontrou casas.
Encontrou plantações.
Encontrou animais.
Encontrou caminhos.
Encontrou comunidades.
Encontrou o rio.
Watu recebeu a matéria que não havia produzido.
A lama avançou por aproximadamente seiscentos e setenta quilômetros. Atravessou Minas Gerais, alcançou o Espírito Santo e chegou ao oceano.
No dia 22 de novembro, o rio ferido encontrou o mar.
Mergulhar o galho seco na água turva.
A correnteza perdeu a cor.
O alimento tornou-se dúvida.
A pesca foi interrompida.
O trabalho perdeu seu território.
A água sagrada tornou-se inacessível.
As margens receberam aquilo que continuaria depositado por anos.
O rio carregou o peso da mineração.
O rio carregou aquilo que os homens lhe impuseram.
O rio carregou o crime até o mar.
A água recebeu o que não escolheu.
Permanecer em silêncio. Colocar as dezenove pedras ao redor do recipiente, uma de cada vez.
Uma pedra para cada vida humana perdida.
Dezenove pedras.
Dezenove interrupções.
Ao redor delas permanecem outras perdas que não cabem na contagem: animais, peixes, plantas, lavouras, casas, lembranças, ritos, alimentos, caminhos e modos de viver junto às águas.
Em Regência, moradores acompanharam a mudança da cor do rio como quem acompanhava uma despedida.
Em Povoação, a falta de informação encontrou uma comunidade cercada pela incerteza.
Às margens de Watu, o povo Borum velou o corpo do rio.
Cobrir o recipiente com as duas mãos, sem tocá-lo.
Nós velamos a água.
Velamos aquilo que a correnteza já não podia oferecer.
Velamos as vozes interrompidas.
Velamos os lugares aos quais muitos não puderam retornar.
Velamos os nomes soterrados sob a palavra “reparação”.
Fazer uma pausa.
Watu entrou em coma.
Seu corpo permaneceu presente.
Sua memória permaneceu presente.
Os povos permaneceram presentes.
O luto também corre pelas águas.
Retirar as mãos de sobre o recipiente. Colocar o ramo verde junto ao galho seco.
A água continuou a correr.
Sob a aparência de normalidade, o rio conservou a ferida. Nas margens, comunidades continuaram a plantar, pescar, recordar, denunciar, recuperar nascentes e exigir reparação.
O renascimento carrega tudo aquilo que aconteceu.
Carrega os rejeitos depositados.
Carrega as restrições ainda existentes.
Carrega a memória dos mortos.
Carrega os nomes das comunidades.
Carrega a força daqueles que permaneceram.
Molhar os dedos e tocar a base da escultura.
Do papel mergulhado nasceu a massa.
Da massa nasceu o território.
Durante dezesseis dias, a água permaneceu dentro da matéria, determinando o tempo da espera.
Quando secou, não desapareceu: transformou-se em resistência.
Elevar lentamente a escultura.
Agora, a lama se move.
Os galhos atravessam a superfície.
As emendas permanecem abertas.
Os botoques guardam a referência aos Borum.
O quartzo verde abre os olhos dentro da matéria acumulada.
A Mãe-d’Água emerge com o rio.
Ferida e viva.
Antiga e presente.
Coberta de rejeitos e voltada para o ar.
Conduzir a escultura até o centro da roda.
Ergue-te, corpo das águas.
Ergue-te com as nascentes recuperadas.
Ergue-te com as comunidades que ainda habitam as margens.
Ergue-te com aqueles que chamam o rio pelo nome de parente.
Ergue-te para que a tragédia não permaneça escondida sob a paisagem.
Ergue-te para que o luto encontre testemunhas.
Ergue-te porque a água ainda produz movimento.
Colocar a escultura em seu lugar.
O rio respira.
A matéria responde.
A memória permanece.
A vida procura passagem.
A Mãe-d’Água entra na roda.
Elvis Bittencourt