O ritual que acompanha o Sultão do Mato e a Ema Celeste, não corresponde a uma cerimônia fixa. Ele nasce da escuta, da memória e das observações noturnas. O texto a seguir foi escrito durante o processo da obra e integra o campo poético do Estudo Vivo.
SULTÃO DO MATO E A EMA CELESTE
Texto ritual
Que a água permaneça.
Que o cerrado não seque por inteiro
enquanto houver quem saiba
onde o céu dobra sobre a terra.
Que a Ema continue sua sede —
porque é ela que move as nuvens,
que pressiona o tempo,
que faz a chuva lembrar o que deve fazer.
Que o Cruzeiro do Sul segure o limite
sem apagar o impulso.
Que a tensão entre os dois
seja o que mantém o mundo em equilíbrio.
Que os povos do Santuário não sejam movidos.
Que a terra resista ao que avança sobre ela.
Que o cerrado reconquiste o concreto.
Que tenhamos mais líderes que escolham primeiro a terra.
Que o corpo lembre também
o que veio pelo mar.
Que a memória negra permaneça viva
no que sustenta, no que cura, no que organiza.
Que a força que veio de longe
não seja esquecida como distância,
mas reconhecida como presença
que funda e continua.
Que entre o eixo que corta a cidade
e o Cruzeiro que marca o céu,
o corpo reconheça direção
sem perder o chão.
Que Brasília reconheça o cerrado sob seus pés.
Que o horizonte largo não engane —
o que parece vazio
é o que sustenta tudo.
Que onde o Noroeste resiste
o tempo não seja interrompido,
e que a presença dos que permanecem
não seja apagada pelo desenho do plano.
Que o céu seja reconhecido
como o mar que é.
Que quem vive longe do oceano
aprenda a nadar no azul de cima.
Que a Ema Celeste —
ave que não voa com asas,
mas habita o lugar mais alto do firmamento —
continue sua travessia
entre as sombras da Via Láctea.
Que o Sultão carregue o Cruzeiro.
Que a guia não se rompa.
Que as sete voltas no pescoço
segurem o que precisa ser segurado.
Que o abano mova o ar que não se vê,
afastando o que não deve permanecer
e abrindo passagem ao que precisa chegar.
Que o bastão firme o chão sob os pés,
não como ameaça,
mas como presença que coloca em ordem
o que se dispersa.
Que entre o ar que circula
e a força que sustenta,
o corpo encontre seu lugar
sem romper o que o mantém.
Que a água permaneça.
Que o cerrado floresça na seca.
Que a tensão não se resolva —
apenas se sustente.
Sultão do Mato e a Ema Celeste entraram na roda.
Texto ritual integrante da pesquisa escultórica Sultão do Mato e a Ema Celeste, que investiga as manchas escuras da Via Láctea e a etnoastronomia Tupi-Guarani como inscrições poéticas e políticas no território.
Elvis Bittencourt — Seres do Folclore Brasileiro
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