O Cazumbá integra o universo do Bumba Meu Boi do Maranhão, uma das mais importantes manifestações da cultura popular brasileira. Esta página não pretende substituir o conhecimento produzido pelos mestres, grupos, pesquisadores e comunidades que mantêm viva essa tradição. Seu objetivo é compartilhar como o Cazumbá dialogou com o processo de criação da escultura Dança dos Mascarados, reunindo informações construídas a partir de pesquisa bibliográfica, investigação de campo e diálogo com brincantes e artesãos.
Como o Bumba Meu Boi apresenta diferentes sotaques, grupos e formas de organização, muitos elementos do Cazumbá variam conforme o território, a comunidade e a linhagem de cada mestre. As sínteses e ilustrações aqui apresentadas possuem finalidade educativa e interpretativa, buscando valorizar essa diversidade sem reduzi-la a um único modelo.
Para conhecer a riqueza dessa manifestação em sua plenitude, recomenda-se acompanhar os grupos de Bumba Meu Boi, visitar as comunidades maranhenses e consultar os acervos e instituições dedicados à preservação desse patrimônio cultural.
Saiba mais:
Para conhecer a história, os diferentes sotaques, os grupos tradicionais e a programação do Bumba Meu Boi do Maranhão, recomenda-se consultar as instituições e iniciativas dedicadas à preservação dessa manifestação, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Museu Casa do Maranhão, o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, a Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (SECMA) e os próprios grupos de Bumba Meu Boi, responsáveis por manter viva essa tradição
O ENREDO DO BUMBA MEU BOI
Antes de compreender o Cazumbá, é preciso conhecer o universo do Bumba Meu Boi. Mais do que uma encenação sobre a morte e a ressurreição de um boi, trata-se de uma manifestação cultural que reúne música, teatro, dança, religiosidade e memória coletiva. Ao longo de séculos, influências indígenas, africanas e europeias deram origem a uma das expressões mais importantes da cultura popular brasileira.
A narrativa tradicional conta a história de Catirina, grávida, que deseja comer a língua do boi preferido de seu patrão. Para atender ao pedido da esposa, Pai Francisco mata o animal, desencadeando uma busca que envolve vaqueiros, caboclos, pajés e curadores. Após rezas, encantarias e rituais, o boi ressuscita e a celebração recomeça, simbolizando renovação, fertilidade e continuidade da vida.
Entretanto, o Bumba Meu Boi não se resume ao enredo. Cada grupo desenvolve sua própria identidade por meio da música, das danças, dos personagens, das vestimentas e da forma de brincar. Ao longo do ano, ensaios, batismos, apresentações e a morte simbólica do boi estruturam um ciclo ritual que mobiliza comunidades inteiras e fortalece laços de pertencimento.
É nesse contexto que surge o Cazumbá. Diferentemente de Pai Francisco ou Catirina, ele não participa diretamente da narrativa da morte e ressurreição do boi. Sua função está ligada ao espaço ritual da brincadeira: proteger o terreiro, abrir caminhos, afastar energias negativas e estabelecer a passagem entre o cotidiano e o universo simbólico da festa. Sua presença alcança especial importância no Sotaque da Baixada Maranhense, onde se tornou um dos personagens mais emblemáticos da manifestação.
O Bumba Meu Boi está presente em diversas regiões do Brasil, assumindo nomes, personagens, ritmos e formas de brincar próprios em cada território. Nesta página, o foco recai exclusivamente sobre o Bumba Meu Boi do Maranhão, especialmente sobre a tradição preservada na Baixada Maranhense, contexto em que o Cazumbá alcança sua expressão mais característica.
QUEM É QUEM NO TERREIRO
O universo do Bumba Meu Boi maranhense reúne uma grande diversidade de personagens, cada um responsável por uma função própria dentro da brincadeira. Alguns integram diretamente o enredo da morte e ressurreição do boi; outros conduzem a música, organizam o cortejo, protegem o terreiro ou estabelecem a relação entre brincantes e público. Mais do que figuras isoladas, esses personagens formam um sistema coletivo em que dança, teatro, música, religiosidade e memória popular se encontram.
O infográfico ao lado foi desenvolvido como um recurso didático para apresentar, de forma sintética, algumas das recorrências identificadas durante a pesquisa realizada para o projeto Seres do Folclore Brasileiro. As informações concentram-se no contexto do Bumba Meu Boi do Maranhão, reconhecendo que existem outras manifestações do Bumba Meu Boi em diferentes estados brasileiros, cada qual com histórias, personagens e formas de brincar próprias.
Também não existe um elenco único ou definitivo de personagens. A presença, a importância e até mesmo os nomes de determinadas figuras podem variar entre os diferentes sotaques, grupos e comunidades. Essa diversidade não representa uma contradição, mas uma das principais características da cultura popular: a tradição permanece viva porque cada geração a preserva, recria e adapta ao seu território.
Entre todos esses personagens, o Cazumbá ocupa um lugar singular, especialmente no Sotaque da Baixada Maranhense. Sua função ultrapassa a narrativa do auto: ele prepara o espaço ritual, protege a brincadeira, estabelece diálogo com o público e marca a passagem entre o cotidiano e o universo simbólico da festa. É justamente essa potência estética, ritual e comunitária que motivou sua escolha como objeto central desta investigação escultórica.
O POVO QUE FAZ CAZUMBÁ VIVER
O Cazumbá não nasce de um autor. Ele nasce de um povo. Sua existência depende das comunidades que, há gerações, preservam o Bumba Meu Boi como expressão de fé, memória, identidade e pertencimento.
Na Baixada Maranhense, uma das regiões com maior concentração de comunidades quilombolas do Brasil, o Cazumbá encontrou uma de suas formas mais vivas e persistentes. Mesmo diante de períodos de perseguição, preconceito e dificuldades econômicas, as comunidades mantiveram a brincadeira ativa, transmitindo conhecimentos entre pais, filhos e netos.
A presença indígena também atravessa profundamente essa tradição. Povos como os Akroá-Gamella, presentes na região da Baixada, compartilham o mesmo território onde o Cazumbá continua sendo brincado. Essa convivência histórica contribuiu para a formação das cosmologias, dos rituais, das danças, dos instrumentos e da relação com a natureza presentes no Bumba Meu Boi maranhense.
O próprio corpo do Cazumbá revela essa ligação com o território. O cofo preso à cintura é trançado artesanalmente com palha de babaçu. A cesta, as fibras vegetais, os tecidos, os bordados e as madeiras utilizadas na construção das caretas remetem ao trabalho cotidiano das comunidades rurais. Pescadores, agricultores, quebradeiras de coco babaçu, artesãos e brincantes participam, direta ou indiretamente, da continuidade dessa tradição.
Entre esses mestres, alguns nomes tornaram-se referências fundamentais. Mestre Abel Teixeira consolidou a tradição das históricas caretas de madeira; Mestre Zimar reinventou a linguagem das máscaras utilizando novos materiais e soluções escultóricas; e Mestre Apolônio Melônio fortaleceu a permanência do Bumba Meu Boi da Floresta e da brincadeira da Baixada Maranhense. Ao lado deles existem dezenas de mestres, mestras e artesãos anônimos que continuam produzindo caretas, costurando batas, bordando, trançando cofos e ensinando novas gerações.
As informações reunidas neste infográfico correspondem às recorrências identificadas durante a pesquisa desenvolvida para o projeto Seres do Folclore Brasileiro. Elas não pretendem representar toda a diversidade existente entre grupos e sotaques do Maranhão, mas destacar um princípio fundamental: o Cazumbá permanece vivo porque existe uma comunidade que o faz viver. Cada máscara, cada bata, cada toada e cada brincadeira carregam o trabalho coletivo de pessoas que transformam memória em tradição e tradição em futuro.
OS TRÊS MESTRES DO CAZUMBÁ
O infográfico ao lado apresenta três nomes fundamentais para compreender diferentes momentos da história do Cazumbá na Baixada Maranhense. Mestre Apolônio Melônio, Mestre Abel Teixeira e Mestre Zimar representam trajetórias distintas, mas complementares, na preservação e na transformação dessa manifestação cultural. A escolha desses artistas não pretende estabelecer uma hierarquia nem esgotar a riqueza da tradição, mas destacar contribuições amplamente reconhecidas por pesquisadores, brincantes e comunidades.
Mestre Apolônio Melônio dedicou sua vida ao fortalecimento do Bumba Meu Boi da Floresta, consolidando o Sotaque da Baixada e formando gerações de brincantes. Sua atuação demonstra que a permanência da tradição depende da organização comunitária, da transmissão oral e do compromisso coletivo com a continuidade da brincadeira.
Mestre Abel Teixeira transformou a máscara do Cazumbá em uma referência artística nacional. Suas icônicas caretas de pau, esculpidas em madeira, tornaram-se símbolos do personagem e contribuíram para aproximar a arte popular dos museus e dos espaços de reconhecimento institucional, sem romper seus vínculos com a cultura popular.
Já Mestre Zimar revelou que tradição também é criação. Ao experimentar novos materiais, como PVC, capacetes, pneus e sucatas, desenvolveu uma linguagem escultórica própria, produzindo máscaras leves, anatômicas e extremamente expressivas. Sua obra demonstra que preservar uma tradição não significa repeti-la exatamente como era, mas mantê-la viva por meio da invenção responsável.
A frase atribuída a Mestre Zimar — "A morte tem medo de cara feia" — sintetiza um princípio presente em muitas comunidades: a careta assustadora não existe para provocar violência ou crueldade, mas para proteger a brincadeira, afastar as energias negativas, abrir o caminho da festa e garantir que o ritual aconteça em segurança.
As informações reunidas neste infográfico correspondem às recorrências identificadas durante a pesquisa desenvolvida para o projeto Seres do Folclore Brasileiro. Elas reconhecem a importância desses três mestres sem esquecer que o Cazumbá continua sendo sustentado por inúmeras outras mãos: artesãos, costureiras, bordadeiras, músicos, brincantes e famílias que, ano após ano, mantêm viva essa tradição.
SAIBA MAIS: Mestre Apolônio Melônio
SAIBA MAIS: Mestre Abel Teixeira
SAIBA MAIS: Mestre Zimar
A MÚSICA DO CAZUMBÁ
Antes mesmo de o Cazumbá aparecer, ele já pode ser ouvido. Na Baixada Maranhense, a música não acompanha apenas a brincadeira: ela organiza o tempo do terreiro, conduz os brincantes e estabelece o diálogo entre o corpo, a comunidade e o universo simbólico do Bumba Meu Boi.
Cada sotaque maranhense possui características musicais próprias. Nesta página, o foco recai sobre o Sotaque da Baixada Maranhense, onde o Cazumbá ocupa um papel central. Nesse contexto, tambores, matracas, maracás, pandeiros e chocalhos formam uma paisagem sonora que orienta os movimentos do personagem e sustenta toda a brincadeira.
As toadas, cantadas pelo amo e respondidas pelo coro, preservam a memória coletiva da manifestação. Elas narram acontecimentos, homenageiam santos, celebram o território e registram a história de cada grupo. Aprendidas pela convivência e transmitidas oralmente entre gerações, constituem um dos principais patrimônios imateriais do Bumba Meu Boi.
O Cazumbá não dança de maneira independente da música. Seus passos, giros, corridas, aproximações do público e movimentos corporais respondem às variações do ritmo. O chocalho preso à mão amplia essa comunicação, transformando o próprio corpo do brincante em instrumento musical. O cofo, preso à cintura, participa da movimentação característica do personagem e contribui para sua presença cênica.
Os instrumentos também carregam conhecimentos tradicionais. O tambor-onça, por exemplo, costuma ser aquecido antes das apresentações para manter a sonoridade desejada. A fabricação, a afinação e a execução desses instrumentos fazem parte dos saberes preservados pelas comunidades que mantêm viva a brincadeira.
Sem música não existe Bumba Meu Boi. Da mesma forma, sem as toadas e sem o pulsar dos tambores, o Cazumbá deixa de ser um personagem vivo para tornar-se apenas uma indumentária. É no encontro entre voz, ritmo, movimento e participação coletiva que ele ganha vida e ocupa seu lugar dentro do universo ritual da Baixada Maranhense.
ANATOMIA DO CAZUMBÁ
A aparência do Cazumbá é resultado do encontro entre tradição, criatividade e identidade comunitária. Diferentemente de personagens com figurinos padronizados, não existe um único modelo de Cazumbá. Cada mestre, grupo e comunidade desenvolve soluções próprias, utilizando diferentes materiais, técnicas e referências visuais transmitidas entre gerações. Essa diversidade faz parte da riqueza do Bumba Meu Boi maranhense.
A careta é o principal elemento de transformação. Ao cobrir completamente o rosto do brincante, ela rompe sua identidade cotidiana e permite o surgimento do personagem. Chifres, bicos, focinhos, mandíbulas exageradas, cabelos e barbas ampliam essa transformação, criando figuras híbridas que dialogam com animais, seres fantásticos e o imaginário popular da Baixada Maranhense.
Em muitas comunidades, a máscara recebe ainda uma torre ou coroa construída sobre a cabeça. Essas estruturas podem representar igrejas, animais, embarcações ou formas abstratas, funcionando como demonstração da habilidade do artesão e da identidade estética de cada grupo. Quanto maior e mais elaborada a composição, maior costuma ser seu impacto visual durante a brincadeira.
A bata cobre praticamente todo o corpo, ocultando o brincante e valorizando a presença do personagem. Bordados, aplicações, estampas, fitas e miçangas revelam a diversidade criativa dos grupos. Preso à cintura, o cofo de palha participa da movimentação corporal e integra a silhueta característica do Cazumbá, enquanto o chocalho conduz o diálogo entre gesto, música e performance.
Durante a brincadeira, apenas as mãos e os pés permanecem parcialmente visíveis. São eles que estabelecem contato com o público, seguram o chocalho, executam os movimentos e dão vida ao personagem. O restante do corpo desaparece sob a indumentária. O anonimato não busca esconder a pessoa por medo ou vergonha, mas permitir que ela seja temporariamente substituída pela figura ritual do Cazumbá.
Assim, a anatomia do Cazumbá não deve ser entendida apenas como um conjunto de peças de vestuário. Cada elemento possui funções práticas, simbólicas e estéticas que, reunidas, transformam um indivíduo em um dos personagens mais marcantes do Bumba Meu Boi da Baixada Maranhense. É nessa combinação entre corpo, máscara, movimento e tradição que nasce a força expressiva do Cazumbá.
MÁSCARA DO CAZUMBÁ
A máscara é o elemento que transforma o brincante em Cazumbá. Mais do que esconder o rosto, ela cria uma nova presença no terreiro, permitindo que o personagem exista entre o humano, o animal e o imaginário popular. Cada mestre imprime sua própria linguagem estética, de modo que dificilmente duas caretas são exatamente iguais.
Ao longo da pesquisa desenvolvida para o projeto Seres do Folclore Brasileiro, foi possível identificar três grandes tipologias recorrentes. Elas não representam uma classificação oficial nem esgotam a diversidade existente no Maranhão, mas ajudam a compreender soluções visuais frequentemente encontradas em diferentes comunidades da Baixada Maranhense.
As caretas humanas exageram feições do rosto, ampliando olhos, bocas, narizes e expressões. O resultado produz figuras simultaneamente cômicas, inquietantes e provocadoras, explorando o humor e a caricatura como parte da brincadeira.
As caretas animalescas aproximam o Cazumbá do universo da floresta e dos animais. Chifres, focinhos, presas, bicos e mandíbulas criam personagens híbridos, reforçando o caráter fantástico da manifestação e a constante transformação entre homem e natureza.
Já as caretas de torre, também conhecidas em algumas comunidades como caretas de igreja, elevam estruturas escultóricas sobre a cabeça do brincante. Igrejas, embarcações, casarões, animais e composições ornamentais demonstram a criatividade dos artesãos e transformam a máscara em uma verdadeira escultura em movimento.
Essa diversidade também aparece nos materiais utilizados. Madeira, papelão, tecidos, fibras vegetais, lantejoulas, fitas, miçangas, borracha, PVC, pneus, isopor e outros materiais reciclados convivem lado a lado. O uso desses elementos não representa abandono da tradição; ao contrário, revela a capacidade dos mestres de adaptar técnicas e recursos disponíveis sem perder a identidade cultural da brincadeira.
Assim, a máscara do Cazumbá deve ser entendida como uma obra em permanente renovação. Cada geração acrescenta novas soluções estéticas, preservando a essência da tradição enquanto reafirma a criatividade dos artesãos maranhenses. É justamente essa combinação entre continuidade e invenção que faz do Cazumbá uma das expressões visuais mais ricas do Bumba Meu Boi do Maranhão.
BRASILEIRO
TERRITÓRIO, POVO E FAZER
Ao longo desta pesquisa, tornou-se evidente que o Cazumbá não pode ser compreendido apenas por sua máscara ou por sua presença no Bumba Meu Boi. Sua existência depende da união entre três elementos inseparáveis: o território onde nasceu, as pessoas que mantêm a tradição e o conhecimento artesanal que transforma materiais simples em patrimônio cultural.
A Baixada Maranhense oferece muito mais do que um cenário para a brincadeira. Seus rios, campos inundáveis, babaçuais e comunidades moldam o modo de viver, de trabalhar e de celebrar. Os ritmos da natureza acompanham os ritmos da festa, influenciando os materiais utilizados, os calendários das apresentações e a própria identidade do Cazumbá.
O segundo elemento é o povo. Quilombolas, povos indígenas, quebradeiras de coco, pescadores, agricultores, artesãos, músicos e brincantes são os verdadeiros responsáveis pela continuidade dessa tradição. O Cazumbá pertence à comunidade e continua vivo porque seus conhecimentos são transmitidos pela convivência, pela prática e pela memória compartilhada entre gerações.
Por fim, existe o fazer. Cada máscara esculpida, cada bordado, cada cofo trançado, cada bata costurada e cada chocalho confeccionado representam técnicas desenvolvidas ao longo de décadas. Não são objetos produzidos apenas para uma apresentação, mas expressões materiais de uma cultura viva que reúne habilidade manual, criatividade e profundo conhecimento tradicional.
Por essa razão, esta pesquisa encerra sua parte documental destacando esses três pilares. Eles sintetizam aquilo que sustenta o Cazumbá: um território que inspira, um povo que preserva e um saber-fazer que continua sendo recriado ano após ano.
O QUE CAZUMBÁ ME ENSINOU?
Ao iniciar esta pesquisa, imaginei que encontraria um personagem. Encontrei um povo.
Quanto mais estudava o Cazumbá, menos conseguia separá-lo das pessoas que lhe dão vida. A máscara deixou de ser apenas um objeto escultórico e passou a representar o encontro entre território, música, memória, trabalho e comunidade. Compreendi que sua força não está apenas na figura que dança no terreiro, mas na rede de mestres, artesãos, costureiras, músicos, brincantes e famílias que, geração após geração, mantêm essa tradição viva.
Também aprendi que não existe um único Cazumbá. Cada grupo preserva sua identidade, cada mestre desenvolve sua linguagem e cada artesão encontra soluções próprias para construir máscaras, bordados e indumentárias. Essa diversidade não enfraquece a tradição; ao contrário, é justamente ela que permite ao Cazumbá permanecer vivo e continuar dialogando com o presente.
Como escultor, essa compreensão transformou profundamente meu processo criativo. Minha preocupação deixou de ser encontrar um modelo "correto" de Cazumbá e passou a ser compreender quais elementos tornam essa manifestação reconhecível sem apagar a liberdade criativa que sempre a caracterizou. Percebi que respeitar uma tradição não significa copiá-la, mas compreender seus princípios para criar de forma ética, consciente e autoral.
Talvez esse tenha sido o maior ensinamento que o Cazumbá me deixou: a tradição não sobrevive porque permanece igual. Ela sobrevive porque cada geração aceita a responsabilidade de preservá-la enquanto encontra novas maneiras de expressá-la.
Foi essa compreensão que procurei levar para minha escultura na Dança dos Mascarados. Meu objetivo nunca foi reproduzir uma máscara específica ou representar um único mestre. Procurei criar uma obra autoral que homenageasse a criatividade coletiva do povo maranhense, reconhecendo que o verdadeiro patrimônio não está apenas nas máscaras, mas nas pessoas que continuam lhes dando vida.
Ao concluir esta investigação, compreendi que o Cazumbá não é apenas um personagem do Bumba Meu Boi. Ele é a prova de que uma cultura permanece viva quando seu povo continua criando, ensinando e brincando. Talvez seja essa a maior lição que levarei desta pesquisa: a arte não nasce apenas das mãos do artista, mas da capacidade de escutar aqueles que vieram antes e de criar com respeito para aqueles que virão depois.
TEXTO RITUAL
CONVOCAÇÃO DO CAZUMBÁ
Escuta.
Escuta o chão antes do passo.
Escuta o couro do tambor antes do toque.
Escuta o vento atravessando os babaçuais.
Porque algo antigo desperta.
Não vem sozinho.
Nunca veio sozinho.
O Cazumbá não caminha leve.
Ele carrega.
Carrega o riso guardado do povo.
Carrega o susto que protege a brincadeira.
Carrega a memória das máscaras que vieram antes.
Debaixo da careta
não mora apenas um rosto.
Moram as mãos que entalham a madeira.
As mãos que costuram a bata.
As mãos que trançam o cofo.
As mãos que aprendem, devagar,
o segredo da máscara.
Ali vive o olhar atento
dos mestres que guardam a tradição
para que ela não desapareça
na poeira do tempo.
Cada máscara tem um artesão.
Cada máscara tem um caminho.
Cada máscara tem uma história.
É uma comunidade inteira que se move.
Ele traz nos passos
o peso dos antigos terreiros.
O cheiro da fogueira.
O couro vibrando na noite.
Quando o Cazumbá desperta,
não é apenas um corpo que caminha.
O canto das toadas.
Metade bicho.
Metade gente.
Inteiro mistério.
Seus olhos
não enxergam apenas o presente.
Guardam a mata.
Guardam a festa.
Guardam a memória.
Quando ele corre,
o chão reconhece.
Quando ele dança,
o tambor responde.
Quando ele para,
a roda se abre.
Porque o Cazumbá
nunca brinca sozinho.
Ele carrega o povo.
Carrega os mestres.
Carrega os que vieram antes.
Carrega os que ainda virão.
E quando a careta desperta,
quando o corpo se inclina,
quando a toada chama
pelo antigo nome da festa,
o caminho se abre.
A roda respira.
O povo responde.
E então,
o Cazumbá entra na roda.
AGRADECIMENTOS
Esta página reconhece as comunidades da Baixada Maranhense como detentoras dos saberes que mantêm viva a tradição do Cazumbá e do Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão. Qualquer interpretação artística apresentada neste projeto nasce do respeito a esse patrimônio cultural e ao trabalho dos mestres, artesãos, brincantes, músicos e comunidades que o preservam e o transmitem entre gerações.
Fontes de pesquisa
A construção desta página reuniu pesquisa bibliográfica, documentação institucional e investigação de campo realizada junto a mestres, artesãos e brincantes do Maranhão. As principais referências consultadas foram:
Câmara Cascudo, Luís da. Dicionário do Folclore Brasileiro.
Abel Teixeira — entrevistas, registros e documentação sobre as Caretas de Pau.
Mestre Zimar — entrevistas, documentação museológica e registros de sua produção artística.
AIYÉ - APOLÔNIO MELÔNIO - Documentário produzido pelo Instituto Geia na década dos anos 2000.
Nota metodológica: As ilustrações apresentadas nesta página possuem finalidade didática e interpretativa. Não constituem registros documentais de um único grupo, mas sínteses visuais elaboradas a partir da pesquisa bibliográfica, da investigação de campo e do diálogo com mestres, artesãos e praticantes da tradição maranhense.
ELVIS BITTENCOURT