As esculturas de Iara, Ipupiara e Mãe d’Água serão desenvolvidas simultaneamente. Durante os intervalos de cura do biscuit e de secagem das diferentes camadas, o trabalho passará de uma peça para outra, fazendo com que os três processos avancem em diálogo.
As imersões partirão do tema Linha das Águas e servirão como campo comum de investigação para as três obras. Filmes, leituras, imagens, músicas, memórias e outras experiências serão observados a partir do contato que provocarem com cada um dos três seres.
Isso não significa que todo estímulo será associado igualmente a Iara, Ipupiara e Mãe d’Água. O filme A Fera do Mar (2022), dirigido por Chris Williams, por exemplo, provocou uma relação mais intensa com o Ipupiara e com a Iara; por isso, as percepções despertadas por essa experiência serão registradas em suas páginas de investigação escultórica. Quando um mesmo estímulo ressoar em um ou nos três seres, o registro será feito nas respectivas páginas, considerando separadamente aquilo que ele provoca no encontro com cada um.
Desse modo, as três investigações compartilham o mesmo percurso de imersão, mas preservam as respostas, associações e caminhos particulares que surgem durante a criação de cada escultura.
A primeira imersão sensorial deste processo acontece por meio de uma pesquisa bruta e ampla. A leitura de diferentes fontes, o exame de documentos, o levantamento de registros e o contato com perspectivas provenientes de diferentes povos fazem emergir possibilidades antes mesmo do início da modelagem. Traçar aproximações, reconhecer diferenças, analisar e comparar essas fontes permite estabelecer um ponto de partida para as esculturas — não como uma resposta definitiva sobre cada ser, mas como um campo inicial de formas, movimentos, matérias, perguntas e tensões.
Depois desse percurso, o processo segue em direção a outros olhares sobre as águas e os seres relacionados a elas. O objetivo não é procurar representações prontas para serem reproduzidas, mas perceber o que diferentes experiências podem despertar no corpo e no imaginário durante a construção das obras.
Para essa nova etapa, serão utilizadas diversas fontes de imersão, iniciando pelo cinema. Filmes de diferentes gêneros, épocas e lugares serão observados como estímulos sensoriais e referências livres. Suas imagens, sons, movimentos, narrativas e atmosferas poderão provocar associações com Iara, Ipupiara ou Mãe d’Água. Essas relações não serão atribuídas aos criadores das obras assistidas: serão registradas como leituras autorais surgidas no decorrer da investigação escultórica.
Estrutura inicial do Ipupiara em arame, com o corpo organizado em movimento vertical antes da aplicação do volume escultórico.
A primeira decisão escultórica do Ipupiara foi determinar a direção de seu movimento. Seu corpo estará nadando para baixo, em direção ao solo, conduzindo o olhar para a profundidade. Antes que qualquer volume fosse acrescentado, essa orientação já precisava existir no esqueleto de arame.
A curvatura do eixo central, a posição dos braços e o alongamento da estrutura procuram retirar o corpo da estabilidade vertical. O Ipupiara não está em repouso, caindo ou sendo arrastado: ele escolhe descer. A profundidade começa, assim, não como um cenário acrescentado posteriormente, mas como uma força que organiza sua postura.
Essa direção também estabelece o primeiro diálogo formal dentro da Linha das Águas. Enquanto a Iara ascende e atravessa a abertura do livro em direção ao espaço exterior, o Ipupiara realiza o movimento contrário: mergulha e se aproxima do fundo. Um corpo emerge; o outro se aprofunda.
A oposição entre subir e descer não determina ainda o significado definitivo das duas esculturas. Ela cria uma relação inicial entre os seres e permite que cada matéria revele, ao longo do processo, o que existe acima, abaixo e entre esses dois movimentos.
A segunda decisão escultórica — e uma das mais importantes na construção do Ipupiara — foi introduzir um espelho na base para a qual ele nada. O movimento descendente definido anteriormente ganha, assim, um destino: o ser mergulha em direção a uma superfície que devolve imagens.
A escolha nasce da própria investigação. O Ipupiara que chegou até nós foi registrado a partir do olhar do colonizador. Sua aparência, seu comportamento e até sua condição de monstro foram organizados por uma perspectiva estrangeira, que observou aquelas águas e interpretou o que encontrou por meio de suas próprias referências. Diante disso, o espelho introduz uma pergunta: ao descrever o Ipupiara, quanto daquele olhar também estava descrevendo a si mesmo?
O espelho utilizado é retangular e ocupa apenas uma parte da base. A mão do Ipupiara ficará espalmada ao lado dele, sem tocar diretamente a superfície refletora. Essa distância é importante: o gesto não indica que o ser esteja preso, tentando romper o espelho ou sendo sustentado por ele. O corpo continua em movimento, aproximando-se de uma imagem que nunca se oferece por inteiro.
Construção da base do Ipupiara com materiais reaproveitados e um espelho retangular. O ser desce em direção à superfície refletora, com uma das mãos posicionada ao lado dela.
O reflexo também não pertence somente ao Ipupiara. Conforme a posição de quem se aproxima da obra, o espelho poderá devolver fragmentos do ser, do espaço e do próprio observador. Aquele que procura ver o monstro passa a integrar a imagem e precisa confrontar o lugar de onde olha. O espelho transforma o fundo da escultura em uma zona de encontro entre o ser, sua representação histórica e o olhar presente.
Para sustentar essa relação, a base foi construída com uma placa transparente, hastes metálicas, arames e peças reaproveitadas. A sucata não representa um naufrágio; constitui a solução material que permite suspender o corpo e conduzi-lo em direção ao espelho. Enquanto esses elementos organizam a estrutura física, é o reflexo que concentra a questão central da obra.
Ao iniciar o volume do Ipupiara, uma questão permanecia em aberto: qual seria o lugar da palavra nessa escultura?
Na Iara, a palavra permanece inteira no livro que constitui sua base. Na Mãe d’Água, é lançada à água, triturada e moldada até adquirir a forma do território. Para o Ipupiara, eu buscava outra relação — uma palavra ligada ao poder que transformou o ser das águas em monstro, silenciou a menina indígena que primeiro o viu e reservou ao colonizador o lugar de herói.
Saí de casa com essa dúvida e levei a estrutura da escultura para o trabalho, na Torre de TV. Ao chegar à loja, encontrei sobre a banca os panfletos políticos que havia recebido no dia 7 de setembro. Eram papéis destinados a uma circulação breve, preenchidos por nomes, retratos, frases de efeito e promessas. Depois de passarem por minhas mãos, provavelmente seriam jogados no lixo.
Ao vê-los, encontrei a matéria que procurava.
O panfleto político fabrica uma imagem pública por meio do discurso. Seleciona palavras, constrói aparências, identifica problemas e apresenta alguém capaz de solucioná-los. A promessa encobre interesses; a aparência de proteção pode esconder a violência. Para que alguém se anuncie como salvador, muitas vezes é necessário produzir uma ameaça — lobos em pele de cordeiro que fabricam os monstros que prometem combater.
Essa operação encontra a história do Ipupiara sem precisar ilustrá-la. A palavra que antes o classificou como monstro retorna agora sob a forma de propaganda. São Vicente não entra na escultura como paisagem, mas por meio das estruturas de poder que escolhem quem será ouvido, quem será silenciado e como cada corpo deverá ser visto.
Os panfletos foram amassados, dobrados e presos ao arame, formando os primeiros volumes da escultura. Algumas palavras ainda podem ser reconhecidas; outras foram partidas ou voltadas para dentro. Com o avanço da modelagem, deixarão de ser vistas, mas continuarão incorporadas ao corpo.
No Ipupiara, a palavra não está na base nem se transforma em território: ela produz seu volume interno. Aquilo que seria descartado por minhas mãos teve seu destino interrompido pelas mesmas mãos.
Se, no passado, o corpo do Ipupiara foi transformado em discurso, agora é o discurso que retorna à matéria para formar seu corpo. 10/09/2026
Após o primeiro turno das eleições de 2022, o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal informou ter recolhido cerca de 175 toneladas de resíduos de varrição, compostos especialmente por panfletos de propaganda eleitoral. O número não corresponde exclusivamente ao peso dos impressos nem representa um total nacional, mas evidencia a dimensão material do descarte produzido durante o período eleitoral. 👉 Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal
A presença dos panfletos levou a investigação novamente a São Vicente. Se o espelho trabalha o olhar que transformou o Ipupiara em monstro, ainda faltava compreender como o território paulista entraria na matéria sem recorrer a areia, conchas ou outras referências apenas paisagísticas.
São Vicente foi instituída como vila portuguesa em 1532 por meio da instalação da Câmara, da Igreja e do pelourinho. Essas estruturas materializaram sobre o território um poder administrativo, religioso e punitivo. A memória oficial da cidade também associa esse momento às primeiras eleições municipais da América portuguesa — processo que não correspondia à participação democrática como a entendemos hoje, mas à organização política da sociedade colonial. Prefeitura de São Vicente, Assembleia Legislativa de São Paulo
Quando o episódio do Ipupiara foi registrado, décadas depois, esse poder já organizava o território e também determinava quais pessoas poderiam ser nomeadas e lembradas. A menina indígena escravizada que primeiro viu o ser e alertou sobre sua presença permaneceu sem nome. Baltasar Ferreira, filho do capitão, foi identificado e apresentado como o homem valente que matou o monstro.
Os panfletos políticos aproximam a escultura dessa história sem tentar reproduzi-la. Suas palavras pertencem a outro tempo, mas continuam demonstrando como o discurso público constrói imagens, oferece promessas e orienta a escolha de quem deve ser reconhecido como ameaça ou salvador.
São Vicente entra, portanto, no corpo do Ipupiara não como paisagem, mas como estrutura de poder. As palavras políticas amassadas formam o volume interno de um ser cuja imagem também foi construída por aqueles que possuíam autoridade para escrever, nomear e fazer sua versão permanecer.
Depois de formar o primeiro volume do Ipupiara com os panfletos políticos, chegou o momento de envolver a estrutura com fita crepe. A fita prende e unifica os papéis, reduz suas irregularidades e prepara a superfície para receber as próximas camadas da modelagem.
Nesse processo, nomes, rostos, números e promessas desaparecem gradualmente sob a fita. A palavra deixa de ser vista, mas não é retirada do corpo. Permanece em seu interior, sustentando a forma do Ipupiara.
O encobrimento também passa a integrar a decisão escultórica. Se o discurso impresso fabricava imagens públicas e orientava o olhar, agora ele perde sua aparência e sua legibilidade. Sob a fita crepe, a propaganda deixa de anunciar aqueles que se apresentam como salvadores e torna-se parte invisível do corpo daquele que precisou ser transformado em monstro.
A construção simultânea da Iara, da Mãe d’Água e do Ipupiara chegou aos primeiros volumes em biscuit e à escolha das pedras que formariam seus olhos. Para o Ipupiara, escolhi o olho-de-tigre; para a Iara o crisoprásio , a; e, para a Mãe d’Água, a aventurina verde. Antes mesmo da definição completa das faces, as diferenças de cor, transparência e profundidade das pedras começaram a estabelecer a expressão particular de cada ser.
A face da Iara foi modelada separadamente para evitar a manipulação constante da escultura sobre o livro que constitui sua base. O Ipupiara também foi retirado temporariamente de sua estrutura, permitindo maior liberdade para aplicar a massa e construir seu rosto. As imagens registram, portanto, um mesmo estágio do processo: três corpos ainda em formação e a primeira camada de presença surgindo pelo olhar.
Até este ponto, a investigação acompanhou os caminhos pelos quais o Ipupiara foi nomeado, descrito e transformado pelos registros coloniais. Uma dessas descrições também permite aproximar seu corpo do conhecimento científico sobre os pinípedes. Essa relação não pretende revelar o que o Ipupiara “realmente era”, substituir o ser por uma espécie conhecida ou reduzir uma narrativa indígena a uma explicação zoológica. O objetivo é compreender a existência desse campo de estudo e observar como alguns de seus dados podem orientar decisões escultóricas.
O ponto de partida continua sendo História da Província Santa Cruz, publicada por Pero de Magalhães de Gândavo em 1576. Ao descrever o corpo encontrado em São Vicente, o cronista afirmou que ele possuía quinze palmos de comprimento, era coberto de pelos e que “no focinho tinha umas sedas muito grandes como bigodes”. Esses detalhes distinguem o texto de uma descrição inteiramente humana e permitem comparações com a anatomia de mamíferos marinhos. Gândavo, História da Província Santa Cruz — Biblioteca do Senado Federal
Essa aproximação entre o Ipupiara e o campo da natureza não começa nesta investigação. Em 2000, Carlos Ziller Camenietzki e Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron publicaram o estudo Quem conta um conto aumenta um ponto: o mito do Ipupiara, a natureza americana e as narrativas da colonização do Brasil. Os pesquisadores compararam registros produzidos entre os séculos XVI e XVIII e identificaram diferentes maneiras de compreender o ser. Enquanto alguns autores o situaram no universo cosmológico dos povos tupis, outros passaram a descrevê-lo como um habitante concreto das águas brasileiras.
O estudo demonstra que essa mudança também estava relacionada à posição dos cronistas diante da colonização. Segundo os autores, “quanto mais comprometido o narrador com o projeto colonial, mais forte a tendência a naturalizar o Ipupiara”. Naturalizar, nesse contexto, significa transportá-lo para o domínio da fauna observável, tratando seu corpo como algo que poderia ser classificado, descrito e incorporado ao inventário da natureza americana. Camenietzki e Zeron, Revista de Indias, 2000
O trabalho de Camenietzki e Zeron é um estudo histórico das narrativas, não uma identificação zoológica do ser morto em São Vicente. Sua contribuição está em demonstrar que o deslocamento do Ipupiara para o campo da natureza observável já ocorria nos próprios registros coloniais. Retomar hoje uma hipótese biológica exige, portanto, reconhecer que esse movimento possui uma história e não é neutro.
A ciência contemporânea acrescenta outro dado a essa aproximação. O artigo Four decades of pinniped records on the coast of São Paulo state, Southeastern Brazil (1981–2023), publicado em 2025 na revista científica Latin American Journal of Aquatic Mammals, reuniu mais de quatro décadas de registros de pinípedes no litoral paulista. A pesquisa demonstra que diferentes espécies do grupo que reúne focas, lobos e leões-marinhos podem alcançar a costa de São Paulo. Isso não comprova que o ser encontrado em 1564 fosse um desses animais, mas confirma que a presença de pinípedes naquele território é biologicamente possível. Latin American Journal of Aquatic Mammals
O paralelo proposto aqui nasce, portanto, do encontro entre três campos: a descrição corporal deixada por Gândavo, o estudo histórico sobre a naturalização do Ipupiara e as pesquisas zoológicas sobre a presença de pinípedes no litoral paulista. Nenhum deles encerra o ser em uma explicação definitiva. Reunidos, porém, oferecem elementos documentais e biológicos que podem ser observados durante a construção de seu corpo.
Entre esses elementos, dois passam diretamente para a investigação escultórica: as vibrissas, semelhantes aos grandes bigodes descritos por Gândavo, e as nadadeiras anteriores, responsáveis pela propulsão de lobos e leões-marinhos na água. O paralelo científico não determinará quem é o Ipupiara; ajudará a decidir como esse corpo percebe a água e como se movimenta através dela.
Estudo das narrativas coloniais
Pesquisa zoológica
Os pelos longos que se projetam do focinho dos pinípedes são chamados vibrissas. Diferentemente dos pelos comuns, eles estão ligados a um sistema tátil especializado, capaz de perceber tanto o contato com superfícies quanto pequenos deslocamentos da água. Essa sensibilidade auxilia focas, leões-marinhos e outros pinípedes a se orientar e procurar alimento mesmo quando a visão é limitada.
Quando um peixe ou outro corpo atravessa a água, deixa atrás de si uma esteira formada por correntes e redemoinhos. Estudos experimentais demonstraram que as vibrissas permitem aos pinípedes detectar essas alterações e reconhecer a direção do movimento que as produziu. Em um dos experimentos, uma foca-comum vendada conseguiu identificar a direção de uma nadadeira artificial por meio de rastros hidrodinâmicos formados até 35 segundos antes. Quando suas vibrissas foram cobertas, o animal não conseguiu realizar a mesma tarefa. (Wieskotten et al., 2010)
As vibrissas, portanto, ampliam o campo de percepção do animal para além dos limites de seu corpo. Não são apenas “bigodes”: funcionam como estruturas sensoriais que leem movimentos inscritos temporariamente na água. Pesquisas também mostram que pinípedes podem projetá-las para a frente e orientar sua posição conforme a tarefa realizada. (Miersch et al., 2011; Milne et al., 2021)
Essa função orienta a construção do Ipupiara. Os dois fios que partem de seu focinho não foram acrescentados como um detalhe decorativo ou como uma reprodução literal dos bigodes presentes nas antigas imagens. Projetados para fora e curvados em direções diferentes, eles prolongam sua capacidade de perceber o espaço. O ser antes definido pelo olhar de quem o observou passa, na escultura, a possuir estruturas próprias para sentir o movimento ao seu redor.
Saiba mais: Flow sensing by pinniped whiskers
Com os olhos de olho-de-tigre já posicionados, iniciei a construção do focinho e dos volumes que definem a face do Ipupiara. A massa foi modelada diretamente sobre a estrutura, preparando o lugar onde seriam inseridas as vibrissas.
As vibrissas foram construídas com fios metálicos curvados e distribuídos nas duas laterais do focinho. Projetadas para fora do corpo, elas ampliam seu campo sensorial e tornam visível a capacidade dos pinípedes de perceber os movimentos deixados na água.
As vibrissas, portanto, ampliam o campo de percepção do animal para além dos limites de seu corpo. Não são apenas “bigodes”: funcionam como estruturas sensoriais que leem movimentos inscritos temporariamente na água. Pesquisas também mostram que pinípedes podem projetá-las para a frente e orientar sua posição conforme a tarefa realizada. (Miersch et al., 2011; Milne et al., 2021)
Em 29 de setembro de 2026, a investigação do Ipupiara atravessou uma experiência gastronômica. Fui ao Tilapiário Pereira, criadouro onde as tilápias permanecem vivas e são pescadas no momento da escolha do cliente. O contato com o peixe permitiu observar de perto uma anatomia que, até então, eu conhecia principalmente por imagens: o desenho das escamas, sua sobreposição, as mudanças de tamanho ao longo do corpo e a maneira como cada superfície reage à luz.
Durante o preparo da alimentação, detive-me especialmente nas cores. As escamas não apresentavam uma tonalidade única. Sob a umidade e a incidência da luz, surgiam variações entre cinza, azul, verde e prata, atravessadas por áreas rosadas visíveis entre as camadas. O brilho modificava continuamente essa combinação, fazendo com que uma mesma região do peixe parecesse mudar de cor conforme o ângulo de observação. A proximidade também revelou que a superfície não era uniforme: cada escama mantinha sua individualidade enquanto participava de uma estrutura contínua e articulada.
Essa experiência conduziu diretamente a uma nova decisão escultórica. Acrescentei escamas à cauda do Ipupiara, modelando-as uma a uma e organizando-as por sobreposição. A referência ao peixe passou para a obra por meio daquilo que o encontro revelou ao olhar e ao toque: repetição, direção, relevo, brilho e variação cromática. A distribuição das escamas acompanha a curvatura descendente do corpo e reforça a sensação de deslocamento através da água.
O Ipupiara já reunia elementos humanos e aproximações com a anatomia dos pinípedes. A entrada das escamas amplia essa composição e impede que seu corpo se fixe em uma única espécie. Sua forma passa a carregar vestígios de diferentes seres aquáticos, reunidos durante o processo de investigação. A cauda nasce desse encontro entre experiência cotidiana, alimentação, observação anatômica e matéria escultórica. Aquilo que seria preparado para a mesa também se tornou uma forma de compreender a água e decidir o corpo daquele que nela habita.
Tilápia observada durante a imersão gastronômica. A proximidade permitiu examinar a distribuição, a direção e as mudanças de tamanho das escamas ao longo do corpo.
A ampliação revela escamas azuladas, esverdeadas e prateadas, atravessadas por tons rosados. A incidência da luz e a umidade modificam continuamente suas cores e seu brilho.
A fotografia registra uma etapa de consolidação do Ipupiara, quando decisões construídas separadamente passam a ser percebidas como partes de um mesmo corpo. A posição invertida, definida desde a armação inicial, torna-se mais clara com a fixação da escultura sobre a base definitiva de madeira. Sustentado por uma haste metálica, o corpo permanece de cabeça para baixo, com os braços abertos e a cauda descrevendo uma curva contínua. A postura produz a sensação de uma descida voluntária: o Ipupiara entra nas águas e orienta o próprio mergulho.
A cauda recebeu escamas modeladas individualmente após a imersão realizada no Tilapiário Pereira, onde pude observar de perto o corpo de uma tilápia. A experiência permitiu estudar a sobreposição das escamas e, principalmente, as variações de cor produzidas pela luz: cinzas, verdes, azuis, prateados e tons rosados coexistiam sobre a mesma superfície. Na escultura, as escamas acompanham a curvatura da cauda e se tornam menores e mais densas conforme avançam pelo corpo, reforçando sua direção e seu movimento.
As grandes nadadeiras traseiras ampliam o gesto da cauda. Suas formas largas, irregulares e assimétricas prolongam visualmente a torção do corpo e sugerem o deslocamento da criatura através da água. Vistas em conjunto com as escamas, elas incorporam à obra uma nova camada de observação biológica, sem submeter o Ipupiara à anatomia de uma espécie determinada.
A fotografia também reúne escolhas realizadas nas etapas anteriores: os braços e as mãos de aparência humana, a anatomia do rosto atravessada pelo estudo dos pinípedes, os olhos de quartzo olho-de-tigre e as vibrissas metálicas voltadas à percepção das correntes. Essas referências não procuram reconstruir literalmente o ser descrito pelos cronistas. Elas formam um corpo possível para o Ipupiara dentro desta investigação: uma anatomia composta por documentos coloniais, observação de animais, experiências sensoriais e decisões tomadas diretamente na matéria.
A base de madeira passa a integrar definitivamente essa construção. Sobre ela, a estrutura metálica sustenta o peso real da obra e permite que a queda imaginada permaneça suspensa. O Ipupiara encontra, assim, sua orientação no espaço: corpo em curva, cabeça voltada para o fundo e sentidos abertos para aquilo que se move dentro da água.
Em 6 de outubro de 2026, reuni pela primeira vez as esculturas da Mãe d’Água, da Iara e do Ipupiara em um mesmo registro. As três obras estão em processo e pertencem à Linha das Águas, investigação desenvolvida simultaneamente para observar como diferentes narrativas aquáticas atravessam o corpo, a matéria, o território e a memória.
A proximidade evidencia três movimentos distintos. A Mãe d’Água emerge de uma superfície construída com papel, terra e resíduos, carregando no corpo as marcas de um território atingido. A Iara se organiza em espiral sobre uma enciclopédia aberta, como uma imagem formada por sucessivas camadas de conhecimento, representação e transformação. O Ipupiara realiza o movimento inverso: suspenso de cabeça para baixo, desce em direção ao espelho e devolve ao observador a pergunta sobre quem foi transformado em monstro pelos registros coloniais.
As bases também participam dessas diferenças. A bacia da Mãe d’Água concentra a matéria acumulada e a memória da lama; a enciclopédia da Iara sustenta um corpo construído por palavras, classificações e imagens; o espelho do Ipupiara desloca o julgamento para quem observa. Cada ser estabelece, assim, uma relação própria com aquilo que o sustenta e com o território do qual emerge.
Reunidas, as três esculturas mostram que a água não conduz a uma única forma. Ela pode transportar rejeitos, preservar memórias, produzir imagens, alterar anatomias e devolver reflexos. A Linha das Águas nasce desse encontro entre corpos que emergem, flutuam e descem, mantendo abertas as diferenças entre suas histórias.
CONTINUA...
A investigação não acontece apenas diante da matéria. Ao longo da construção da escultura, experiências sensoriais, observações do território e estímulos encontrados durante o percurso também atravessam o processo. Esses registros acompanham a investigação e podem ser acessados abaixo. em Imersão Sensorial.
A imersão em A Fera do Mar (The Sea Beast, 2022), animação dirigida por Chris Williams, provocou uma ressonância especialmente forte na investigação escultórica do Ipupiara. A relação estabelecida entre o filme e esse ser não foi proposta oficialmente por seus criadores. Trata-se de uma leitura autoral surgida durante o processo de imersão e orientada pelas questões que já atravessavam a construção da escultura.
No filme, a caça aos seres marinhos foi transformada em demonstração de coragem e serviço à sociedade. Os caçadores são celebrados como heróis, enquanto as criaturas perseguidas são previamente declaradas monstros e inimigas dos seres humanos. Esse conflito despertou uma aproximação com a maneira pela qual o Ipupiara chegou ao presente: um ser encontrado, morto e registrado a partir do olhar daqueles que participaram de sua morte.
O filme também foi percebido, durante a imersão, como um gesto de reparação histórica. Uma menina negra ocupa o centro da narrativa; mulheres exercem autoridade; e a deficiência aparece integrada à existência de uma personagem, sem retirar dela força, autonomia ou capacidade de comando. Entretanto, foi principalmente o questionamento da história oficial — escrita, ensinada e repetida como verdade — que conduziu essa experiência até o Ipupiara.
Outra correspondência aparece na trajetória dos dois protagonistas humanos. Jacob foi encontrado no mar quando criança, sem que o filme revele claramente sua origem, e passou a ser criado entre os caçadores de monstros. Maisie, uma menina negra órfã, vive em uma instituição de acolhimento na qual qualquer ato de rebeldia pode ser considerado uma afronta aos seus “nobres fundadores”. Ambos foram abrigados por estruturas que, ao salvá-los, também procuraram determinar o lugar que deveriam ocupar e a história que deveriam continuar.
O acolhimento aparece, assim, acompanhado por uma dívida de obediência. Jacob deve herdar a função de caçador; Maisie deve respeitar a instituição e a memória daqueles que a fundaram. No entanto, é justamente a menina — leitora da história oficial e filha de caçadores mortos — quem percebe as contradições existentes naquilo que aprendeu. Ao se aproximar do ser que foi ensinada a chamar de monstro, ela rompe com a narrativa que deveria perpetuar. Jacob também precisa se afastar da identidade construída para ele e compreender que ter sido acolhido pelos caçadores não o obriga a continuar matando em nome deles.
A aproximação com o Ipupiara não ocorreu apenas no campo narrativo. Uma das criaturas marinhas apresentadas no filme provocou uma associação visual imediata com animais pertencentes ao grupo dos pinípedes, que reúne focas, leões-marinhos, lobos-marinhos e morsas. A continuidade entre a cabeça e o corpo, o volume arredondado, a ausência aparente de pescoço, os membros transformados em nadadeiras e os dentes alongados contribuíram para essa percepção.
A imagem reencontrou uma possibilidade que já havia aparecido na investigação do Ipupiara: a aproximação entre o corpo descrito ou posteriormente representado e a anatomia de animais marinhos que transitam entre a água e a terra. A própria variedade existente entre os pinípedes amplia essa referência: a forma corporal das focas, a mobilidade terrestre e o volume dos leões-marinhos, a presença de pelos nos lobos-marinhos e os grandes dentes da morsa oferecem correspondências diferentes, sem que nenhuma delas determine a identidade do ser.
Essa associação visual não será utilizada como prova de que o Ipupiara pertencia a uma dessas espécies, nem fará da criatura do filme um modelo para a escultura. Ela será preservada como uma referência livre surgida durante a imersão e como estímulo para observar o que acontece com o corpo do Ipupiara quando colocado em relação com os pinípedes. A aproximação interessa menos como resposta para sua identidade e mais como abertura para novas possibilidades de forma, movimento e presença.
O filme também fez surgir uma pergunta anterior à própria aparência do ser: quem decidiu que ele poderia ser morto? Para que sua morte seja apresentada como um ato de bravura, primeiro é necessário fabricar o monstro. O desconhecido é nomeado como ameaça; depois, homens invadem seu território, arriscam a própria vida para matá-lo e transformam esse risco em prova de heroísmo. O invasor passa a ser celebrado como defensor, enquanto o ser encontrado em suas próprias águas permanece registrado como inimigo.
Essa inversão conduz a investigação de volta à praia onde o Ipupiara foi encontrado e morto. Antes de perguntar somente o que aquele ser teria feito aos humanos, torna-se necessário perguntar: quem entrou nas águas de quem?
A história oficial não controla apenas a imagem do ser perseguido; ela também forma aqueles que deverão persegui-lo. Para interromper a violência, não basta descobrir que o monstro talvez não seja monstruoso. É necessário desobedecer à memória daqueles que transformaram sua morte em tradição.
Referência
A FERA DO MAR (The Sea Beast). Direção: Chris Williams. Produção: Jed Schlanger e Chris Williams. Estados Unidos: Netflix Animation, 2022. 1 filme (115 min), sonoro, colorido. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/81018682. Acesso em: 9 set. 2026.
🎵 Meu, Meu, Meu — trilha sonora brasileira de Pocahontas
Composição de Alan Menken e Stephen Schwartz, com tradução brasileira de Telmo Perle Münch. A versão em português é interpretada por Maurício Luz, Pedro de Saint Germain, Marcelo Coutinho e coro.
A canção transforma a cobiça colonial em ritmo. A repetição de “meu” acompanha o gesto de cavar, explorar e tomar posse de um território recém-alcançado pelos europeus. Ouro, terra e floresta são apresentados como riquezas disponíveis à apropriação, enquanto a presença dos povos que já habitavam aquele espaço é subordinada ao desejo de conquista.
Embora pertença a uma animação ambientada na colonização inglesa da América do Norte, sua escuta contribuiu para a investigação do Ipupiara ao revelar uma lógica colonial que também atravessou São Vicente: o território observado a partir daquilo que poderia fornecer, produzir ou enriquecer. Fundada pelos portugueses em 1532, a vila tornou-se um núcleo de ocupação, administração e expansão colonial sobre uma região anteriormente habitada por diferentes povos indígenas.
O refrão possessivo ajudou a pensar o espelho utilizado como base da escultura. Diante dele, o observador encontra o ser aquático e também a permanência de uma linguagem de domínio: meu território, meu recurso, minha versão da história. O Ipupiara surge nesse campo de disputa, transformado em monstro justamente no momento em que o invasor passa a reivindicar as águas e a terra como suas.
🎵 Chegança — Antônio Nóbrega
Composição de Antônio Nóbrega e Wilson Freire.
A canção apresenta a chegada dos europeus pela perspectiva de um eu lírico indígena que observa embarcações desconhecidas surgirem no horizonte. O espanto diante das grandes estruturas que atravessam o mar logo se transforma na percepção do perigo: os recém-chegados desembarcam armados e o encontro anuncia a captura, a violência e a ocupação do território.
Na investigação do Ipupiara, essa inversão do ponto de vista foi fundamental. Os documentos coloniais preservaram a voz dos homens que descreveram, nomearam e mataram o ser encontrado no litoral de São Vicente, enquanto quase nada registraram sobre a menina indígena que, segundo o relato de Pero de Magalhães de Gândavo, presenciou o acontecimento. A escuta de Chegança ajudou a deslocar a atenção dos olhos do colonizador para aqueles que já habitavam e conheciam o território antes da chegada portuguesa.
Ao reunir nomes de diferentes povos indígenas em uma mesma voz poética, a canção constrói uma síntese artística da presença indígena no Brasil. Esses povos possuem línguas, territórios, histórias e cosmologias próprias; sua enumeração não deve ser compreendida como uma identidade única. Dentro da imersão sensorial, a música atua como um chamado para reconhecer essa diversidade e para perceber quantas vozes foram comprimidas ou excluídas dos documentos que formaram a narrativa conhecida do Ipupiara.
O mar assume, assim, duas direções simultâneas: dele emerge o ser aquático que seria transformado em monstro pelo discurso europeu e por ele também chegam os homens que reivindicariam a posse da terra, das águas e da própria história. A canção permitiu escutar essa chegada como ruptura e compreender que a fabricação do monstro começa no olhar de quem desembarca.
🎵 Brasil — Gal Costa
Composição de Cazuza, George Israel e Nilo Romero, gravada por Gal Costa em 1988 para a abertura da telenovela Vale Tudo.
A canção confronta a imagem oficial do país com as relações de poder, os privilégios e as exclusões que estruturam sua realidade. O pedido para que o Brasil mostre sua cara expõe uma nação cuja aparência pública encobre acordos, desigualdades e decisões das quais grande parte da população permanece afastada.
Na investigação do Ipupiara, essa interpelação encontrou o espelho utilizado como base da escultura. O reflexo devolve ao observador a pergunta dirigida ao país: qual rosto aparece quando as imagens construídas sobre o território começam a ser examinadas? O corpo do ser, revestido por panfletos políticos, reúne promessas, nomes, cores e discursos que procuram ocupar o espaço público e disputar a representação do Brasil.
A música também contribuiu para aproximar o episódio colonial de São Vicente das formas contemporâneas de produção do discurso. O Ipupiara chegou até o presente pela escrita dos colonizadores que ocuparam o território, descreveram seu corpo e determinaram sua condição monstruosa. A menina indígena mencionada como testemunha permaneceu sem nome e sem voz própria no documento. Séculos depois, a disputa sobre quem pode falar, ser ouvido e participar da imagem nacional continua atravessando a política brasileira.
Na voz de Gal Costa, a pergunta sobre a face do Brasil ganha força pública e coletiva. Diante do espelho, dos panfletos e do corpo fabricado pelo discurso, a canção ajudou a pensar o Ipupiara como parte de uma história que ultrapassa o encontro com um ser aquático: ela alcança os mecanismos pelos quais o país escolhe quais corpos serão reconhecidos, quais serão silenciados e quais serão apresentados como ameaça.
🎵 Vaca Profana — Gal Costa
Composição de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa no álbum Profana, lançado em 1984.
A canção constrói uma presença corporal que desafia as divisões entre pureza e impureza, sagrado e profano, delicadeza e provocação. A figura evocada por Caetano Veloso possui uma força própria e não procura tornar-se aceitável diante dos códigos morais que organizam os comportamentos e determinam quais corpos podem ser exibidos, desejados ou respeitados.
Na investigação do Ipupiara, essa transgressão ajudou a pensar um corpo situado entre categorias. As descrições coloniais procuraram reconhecer nele fragmentos humanos e animais, reorganizando sua anatomia a partir de um olhar que precisava classificar o desconhecido. Aquilo que não correspondia plenamente às formas admitidas pelo observador europeu foi reunido sob a condição de monstro.
A interpretação de Gal Costa introduziu na modelagem uma presença que assume sua materialidade sem pedir autorização ao olhar externo. O corpo híbrido do Ipupiara pode conservar dobras, volumes, órgãos, membros e extensões que recusam uma identidade anatômica estável. Sua diferença deixa de constituir uma prova de inferioridade e passa a confrontar os critérios utilizados para separar o humano do animal, o belo do grotesco e o corpo legítimo daquele que poderia ser perseguido ou destruído.
A escuta também se relaciona ao espelho da obra. Diante dele, a condição de profano já não pertence exclusivamente ao ser observado. Ela retorna como pergunta para quem observa: de onde surgem as classificações que transformam determinado corpo em ameaça, desvio ou monstruosidade? Vaca Profana ajudou a incorporar ao Ipupiara uma presença indisciplinada, capaz de existir para além do nome e da forma que lhe foram impostos.
🎵 Falta de Silêncio — Lia de Itamaracá
Composição de Alessandra Leão, gravada por Lia de Itamaracá no álbum Ciranda sem Fim, lançado em 2019.
A canção reconhece o mar por sua presença sonora contínua. Ondas, marés e correntes produzem um território que nunca permanece inteiramente calado. O corpo acompanha esse movimento: repousa quando a água recua, levanta-se e canta quando ela retorna. A alternância entre maré seca e maré cheia estabelece um ciclo de recolhimento, impulso e renovação.
Na imersão sensorial do Ipupiara, essa escuta contribuiu para pensar como um corpo marinho ocupa a costa. O ser descrito pelos documentos coloniais aparece fora da água, deslocado do ambiente ao qual sua anatomia poderia pertencer. Em terra, seus movimentos foram observados como deformidade, ameaça e prova de monstruosidade. A canção restitui ao corpo a presença do mar, permitindo imaginar que seus gestos respondiam às marés, ao peso, às correntes e à tentativa de retornar à água.
A ciranda também introduz uma organização circular que se contrapõe à cena linear da perseguição e da morte. O mar avança, recua e retorna; o corpo cai, levanta-se e continua seu movimento. Essa dinâmica ajudou a orientar a escultura em direção a uma forma que parece atravessar o espelho e prolongar-se para além de seus próprios limites.
A invocação a Iemanjá presente na canção pertence a um campo religioso afro-brasileiro próprio e não é transferida ao Ipupiara. Dentro da investigação, sua escuta preserva essa origem e contribui pela relação corporal estabelecida entre canto, trabalho, maré e presença marítima. O mar deixa de funcionar como cenário silencioso e recupera sua condição de território vivo, sonoro e atuante.
🎵 O Pastor — Madredeus
Poema de Pedro Ayres Magalhães e música do Madredeus, gravada no álbum Existir, lançado em 1990.
A canção é atravessada pela distância, pela memória e pela impossibilidade de retornar integralmente ao que foi deixado. Ao largo, uma barca permanece acesa no espaço da imaginação, enquanto a voz se mantém entre o sonho, a despedida e a vigília. O mar separa lugares e tempos, mas também conserva aquilo que continua sendo avistado mesmo depois da partida.
Na investigação do Ipupiara, essa atmosfera ajudou a pensar a chegada das embarcações europeias ao litoral. A travessia do Atlântico conduziu homens que desembarcaram em um território já habitado, estabeleceram São Vicente e reorganizaram a terra, as águas e os corpos a partir de seus próprios sistemas de poder. Depois dessa chegada, já não seria possível retornar à configuração anterior do território.
A barca distante também se aproxima da maneira como o episódio do Ipupiara atravessou o tempo. O ser encontrado na costa deixou de existir apenas naquele acontecimento e passou a circular por relatos, gravuras, traduções e interpretações. Cada registro o afastou de sua presença original e acrescentou novas formas à imagem transmitida ao futuro.
A voz de Teresa Salgueiro produziu durante a modelagem um estado de suspensão e vigília. Seu canto contribuiu para imaginar o Ipupiara entre a água e a terra, o acontecimento e o documento, o corpo observado e a forma posteriormente construída pelo discurso. A canção acompanha um ser que já não pode retornar ao instante anterior ao encontro, mas cuja imagem continua ardendo ao longe, como uma embarcação que permanece visível depois de ter atravessado o horizonte.
🎵 Ao Longe o Mar — Madredeus
Composição de Pedro Ayres Magalhães, gravada pelo Madredeus no álbum O Espírito da Paz, lançado em 1994.
A canção constrói o mar como uma presença percebida à distância. Sua existência chega primeiro pelo som, pela memória e pelo chamado, antes que seja possível alcançar ou compreender aquilo que se encontra no horizonte. A voz de Teresa Salgueiro prolonga essa distância e produz uma escuta marcada pela espera, pela solidão e pelo desejo de aproximação.
Na investigação do Ipupiara, a música contribuiu para pensar o limite entre aquilo que pode ser visto e o que permanece submerso. O ser somente entra no documento colonial quando deixa a água e surge diante dos observadores em terra. Tudo o que existia antes desse aparecimento — seu deslocamento no mar, sua relação com as correntes e sua possível vida aquática — permanece fora do relato.
O mar distante também evidencia a posição limitada do olhar humano. Da costa, percebe-se apenas uma superfície e interpretam-se sinais incompletos. Quando o Ipupiara emerge, seu corpo é imediatamente reorganizado pelas referências dos colonizadores, que procuram reconhecer nele partes humanas e animais. A distância física transforma-se em distância de compreensão.
Durante a modelagem, a delicadeza contínua da música ajudou a imaginar o mar presente mesmo quando não está representado diretamente. Ele permanece no movimento das nadadeiras, no alongamento dos membros, na direção do corpo e na tentativa de retorno à água. A canção contribuiu para que o Ipupiara conservasse algo que o documento não conseguiu capturar: a ligação com um território marítimo que continua chamando ao longe.
Um Índio — Caetano Veloso
Em Um Índio, Caetano Veloso projeta a presença indígena para o futuro. A figura descrita na canção atravessa o tempo e retorna investida de força, beleza e capacidade de revelação. Essa inversão temporal interessa à investigação do Ipupiara porque confronta uma forma recorrente de representação: enquanto os documentos coloniais relegam os povos indígenas ao passado e concentram a autoridade narrativa na voz europeia, a canção imagina uma presença que continua, reaparece e participa do que ainda está por vir.
Na imersão sensorial, a música aproxima-se da testemunha indígena registrada por Pero de Magalhães de Gândavo. Embora esteja no espaço do acontecimento, essa jovem não recebe nome, povo, língua ou fala própria no relato. Sua presença é preservada apenas pela escrita do colonizador. A canção permite pensar na permanência indígena para além dessa captura documental e naquilo que permaneceu visível, embora historicamente encoberto pelas versões oficiais.
Essa aproximação exige, porém, uma leitura crítica. O “índio” singular apresentado por Caetano é uma construção poética generalizada, criada por um artista não indígena; não representa a voz de um povo específico nem substitui suas narrativas. Sua presença nesta pesquisa serve também para observar como a cultura brasileira fabrica imagens simbólicas do indígena, reunindo diferentes referências em uma figura nacional abstrata.
Diante do corpo do Ipupiara e de sua base espelhada, a música participa de uma pergunta central: quem foi transformado em imagem extraordinária, selvagem ou monstruosa para que a violência colonial permanecesse sem nome? O espelho devolve essa questão ao observador e aproxima passado e presente, documento e imaginação, apagamento e permanência.
🎵 Mal Necessário — Ney Matogrosso
Composição de Mauro Kwitko, gravada por Ney Matogrosso no álbum Feitiço, de 1978.
A canção constrói uma voz que assume identidades sucessivas e contraditórias: humana e animal, masculina e feminina, sujeito e objeto, presença desejada e ameaça. Cada afirmação desloca a anterior, formando um corpo que não permanece preso a uma categoria única. A interpretação de Ney Matogrosso intensifica essa instabilidade ao atravessar registros vocais e corporais que desafiam classificações rígidas.
Na imersão sonora do Ipupiara, essa multiplicidade contribuiu para pensar um ser fabricado pelo encontro entre corpos, relatos e olhares. Nos documentos coloniais, aquilo que não se ajustava às formas conhecidas podia ser reunido sob a palavra “monstro”. Na escultura, anatomias humana e aquática também se atravessam, sem que uma delas consiga explicar integralmente a forma resultante.
O título introduz ainda uma contradição importante: algo pode ser nomeado como “mal” e, simultaneamente, reconhecido como necessário. Essa tensão acompanha a narrativa do Ipupiara, morto para que o domínio humano sobre o território parecesse legítimo e seguro. A canção ajudou a investigar esse corpo instável sem tentar resolvê-lo: ser aquático, animal, humano, ameaça projetada, vítima da violência ou imagem produzida pelo discurso. Diante do espelho que sustenta a obra, essas classificações retornam ao observador e revelam mais sobre quem nomeia do que sobre o ser nomeado.
🎬 A Forma da Água — Guillermo del Toro
Filme dirigido por Guillermo del Toro, lançado em 2017.
Ambientada nos Estados Unidos durante a Guerra Fria, a narrativa acompanha uma criatura humanoide e anfíbia capturada na América do Sul e mantida como objeto de experimentação em um laboratório governamental. Dentro dessa estrutura, o ser perde o direito ao próprio território e passa a ser classificado como material de pesquisa, ameaça e recurso estratégico. A violência nasce menos de sua aparência do que do poder exercido por aqueles que o aprisionam, investigam e pretendem destruí-lo.
Na imersão sensorial do Ipupiara, o filme reforçou uma pergunta central da investigação: quem produz o monstro? Assim como ocorreu nos documentos coloniais sobre os seres encontrados nas águas brasileiras, a criatura é descrita pelo olhar de quem invade, captura, nomeia e domina. O corpo aquático transforma-se em anomalia porque não se submete às categorias humanas. A obra desloca, assim, a monstruosidade da criatura para as instituições que a encarceram e utilizam a ciência como instrumento de controle.
O filme também colaborou para imaginar o Ipupiara como um corpo adaptado à água, capaz de respirar, perceber movimentos e estabelecer formas próprias de comunicação. A aproximação com outro ser acontece por meio do gesto, do alimento, da música e do silêncio, enquanto os agentes do laboratório tentam compreender sua existência pela dissecação e pela violência. Essa oposição contribuiu para pensar a escultura entre dois modos de conhecimento: aquele que se aproxima para escutar e aquele que abre o corpo para possuir.
A forma humanoide e anfíbia da criatura também me conduziu ao Nego d’Água, ser presente em narrativas de diferentes comunidades ribeirinhas brasileiras. O filme não constitui uma fonte sobre essas tradições e não deve ser usado para explicá-las, mas funcionou como uma passagem visual e conceitual para uma investigação futura: um corpo ligado ao rio, observado com medo pelos humanos e frequentemente perseguido por habitar uma fronteira que nossa cultura insiste em separar — entre pessoa e animal, inteligência e instinto, proteção e ameaça.
Desse modo, A Forma da Água permanece na pesquisa do Ipupiara e, simultaneamente, aponta para outro encontro ainda por acontecer. A água não conserva uma única criatura nem produz uma única narrativa. Ao seguir o corpo capturado pelo laboratório, a investigação retorna aos rios brasileiros e encontra, adiante, o Nego d’Água.
Em 29 de setembro de 2026, a investigação atravessou a alimentação. Fui à Tilapiaria Pereira, criadouro onde as tilápias permanecem vivas e são pescadas no momento da escolha do cliente. O peixe foi preparado na brasa e acompanhado por uma farofa feita com jiló, quiabo, banana-da-terra e casca de banana.
A experiência reuniu visão, tato, olfato e paladar. Durante o preparo, observei de perto a anatomia do peixe, especialmente a disposição, a sobreposição e as variações cromáticas das escamas. Sob a umidade e a incidência da luz, surgiam tons azulados, esverdeados, prateados e rosados que se modificavam conforme o ângulo de observação.
Esse contato ultrapassou o momento da refeição e interferiu diretamente na modelagem. A estrutura observada no peixe orientou a decisão de acrescentar escamas à cauda do Ipupiara. Modeladas individualmente e organizadas sobre a curvatura do corpo, elas registram na matéria escultórica uma experiência iniciada no cotidiano e transformada pela investigação sensorial.