As esculturas de Iara, Ipupiara e Mãe d’Água serão desenvolvidas simultaneamente. Durante os intervalos de cura do biscuit e de secagem das diferentes camadas, o trabalho passará de uma peça para outra, fazendo com que os três processos avancem em diálogo.
As imersões partirão do tema Linha das Águas e servirão como campo comum de investigação para as três obras. Filmes, leituras, imagens, músicas, memórias e outras experiências serão observados a partir do contato que provocarem com cada um dos três seres.
Isso não significa que todo estímulo será associado igualmente a Iara, Ipupiara e Mãe d’Água. O filme A Fera do Mar (2022), dirigido por Chris Williams, por exemplo, provocou uma relação mais intensa com o Ipupiara e com a Iara; por isso, as percepções despertadas por essa experiência serão registradas em suas páginas de investigação escultórica. Quando um mesmo estímulo ressoar em um ou nos três seres, o registro será feito nas respectivas páginas, considerando separadamente aquilo que ele provoca no encontro com cada um.
Desse modo, as três investigações compartilham o mesmo percurso de imersão, mas preservam as respostas, associações e caminhos particulares que surgem durante a criação de cada escultura.
A primeira imersão sensorial deste processo acontece por meio de uma pesquisa bruta e ampla. A leitura de diferentes fontes, o exame de documentos, o levantamento de registros e o contato com perspectivas provenientes de diferentes povos fazem emergir possibilidades antes mesmo do início da modelagem. Traçar aproximações, reconhecer diferenças, analisar e comparar essas fontes permite estabelecer um ponto de partida para as esculturas — não como uma resposta definitiva sobre cada ser, mas como um campo inicial de formas, movimentos, matérias, perguntas e tensões.
Depois desse percurso, o processo segue em direção a outros olhares sobre as águas e os seres relacionados a elas. O objetivo não é procurar representações prontas para serem reproduzidas, mas perceber o que diferentes experiências podem despertar no corpo e no imaginário durante a construção das obras.
Para essa nova etapa, serão utilizadas diversas fontes de imersão, iniciando pelo cinema. Filmes de diferentes gêneros, épocas e lugares serão observados como estímulos sensoriais e referências livres. Suas imagens, sons, movimentos, narrativas e atmosferas poderão provocar associações com Iara, Ipupiara ou Mãe d’Água. Essas relações não serão atribuídas aos criadores das obras assistidas: serão registradas como leituras autorais surgidas no decorrer da investigação escultórica.
Estrutura inicial da Mãe d’Água sobre uma cúpula de luminária escolhida como molde para a construção da base. O processo definirá se o objeto será retirado, transformado ou incorporado à obra.
A base não será apenas o suporte da escultura. Ela representa o território em que o ser se encontra e constitui a primeira chave para compreender como esse corpo poderá surgir. Antes da definição das feições, da anatomia ou das camadas de modelagem, é o território que começa a orientar o gesto da Mãe d’Água.
Nesta etapa, a cúpula reaproveitada de uma antiga luminária foi escolhida inicialmente como molde para a construção da base. Ainda não está definido se ela será retirada, transformada ou incorporada à composição final. Essa decisão não será antecipada: o próprio processo revelará a relação que o objeto estabelecerá com os demais materiais.
A primeira leitura de território conduz ao Rio Doce. Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, lançou uma onda de lama e rejeitos de mineração sobre a bacia. O material percorreu centenas de quilômetros pelo curso do rio, atravessou Minas Gerais, alcançou o Espírito Santo e chegou ao oceano pela foz, em Regência. Dezenove pessoas morreram, comunidades foram desalojadas e diferentes populações tiveram comprometidas suas relações com a água, a pesca, o trabalho, a alimentação, os rituais e a continuidade de seus modos de vida.
A dimensão dessa perda não pode ser compreendida apenas por números ou pela medição dos danos ambientais. Os relatos das populações atingidas expressam uma experiência de luto. Esse sentimento aparece condensado no título do livro É como perder um ente querido: histórias de rio e de mar das populações atingidas pelo desastre da Samarco, publicado a partir de aproximadamente dez mil fragmentos narrativos reunidos pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas.
Essas experiências não são iguais para todos. Para o povo Krenak, o Rio Doce é Watu, um parente. Ailton Krenak afirma que Watu não está morto, mas em coma: seu povo permanece às margens do rio velando o corpo daquele que reconhece como avô. A imagem do coma preserva a gravidade da ferida sem decretar a morte definitiva do rio.
É a partir desse território ferido que começa a surgir minha primeira leitura escultórica da Mãe d’Água. Em vez de aparecer apenas como o ser que ameaça, arrasta ou afoga aqueles que entram em suas águas, ela também pode ser percebida como um corpo alcançado pela violência praticada contra o próprio rio. Se a água constitui seu território e participa de sua existência, aquilo que fere o Rio Doce também a fere.
A lama e a água drenada surgem, assim, como os primeiros elementos materiais dessa leitura. Ainda não determinam a forma final da base, mas começam a indicar o estado do território do qual a Mãe d’Água poderá emergir. Antes de decidir como esse ser será visto, a investigação pergunta:
como surge uma Mãe d’Água quando as águas das quais ela faz parte também foram feridas?
O Relatório da Barragem do Rio Doce (Final Aprovado) é o documento oficial elaborado pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) sobre o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em novembro de 2015 em Mariana (MG)
FGV — É como perder um ente querido
Depoimento de Ailton Krenak sobre Watu
https://www.youtube.com/c/observatoriodamineracao
Papéis reaproveitados permanecem imersos em água durante o preparo do papel machê que dará volume ao território da Mãe d’Água.
Para construir o volume do território, optei pelo papel machê. A receita utilizada já foi registrada neste site durante a pesquisa do Curucucu, mascarado que integra o universo das Cavalhadas de Pirenópolis na obra Dança dos Mascarados. Por isso, o preparo não será repetido integralmente aqui; interessa observar a nova função que essa matéria assume na construção da Mãe d’Água.
Nesta obra, o papel machê será utilizado para produzir o volume relacionado aos rejeitos da mineração. Antes de receber qualquer definição visual, o material passa por um processo de fragmentação e imersão. O papel perde sua rigidez, suas imagens e parte de sua organização anterior para tornar-se uma massa moldável.
A água entra, portanto, como agente transformador da própria matéria escultórica. Ela amolece, desfaz, mistura e reorganiza o papel. Não aparece somente como tema ou elemento representado: atua diretamente sobre o material e participa da formação do território.
Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. A lama destruiu comunidades, provocou a morte de 19 pessoas e percorreu aproximadamente 670 quilômetros pela bacia do Rio Doce. Em 22 de novembro, alcançou sua foz, em Linhares, no Espírito Santo, e avançou sobre o oceano Atlântico. Ao longo desse percurso, atingiu cursos d’água, matas, plantações, animais e formas de vida construídas em relação direta com o rio.
Quase onze anos depois, o Rio Doce já não apresenta continuamente a aparência extrema registrada durante a passagem da lama. A água corre e a vegetação reaparece em diferentes trechos, produzindo uma imagem aparente de recuperação. Os efeitos do rompimento, porém, não desapareceram com a transformação da paisagem. Rejeitos permanecem depositados no leito, nas margens, nas planícies inundáveis, na foz e no ambiente marinho, enquanto seu deslocamento e seus possíveis efeitos continuam sendo monitorados.
No Espírito Santo, a permanência da proibição da pesca na região da foz revela que a relação entre o rio, o alimento, o trabalho e as comunidades ainda não foi plenamente restabelecida. Regência, Povoação, Degredo e outras localidades do norte capixaba continuam atravessadas por processos de reparação ambiental, econômica, social e cultural. Em 2024, um novo acordo de reparação foi homologado; em 2026, programas, investimentos e estruturas públicas ainda estão sendo implantados.
O território de onde surge esta Mãe d’Água, portanto, não permanece congelado na imagem da enxurrada de 2015. É um território que voltou a respirar, mas ainda conserva, sob uma aparente normalidade, a matéria, as restrições e a memória da violência. A lama não pertence apenas ao instante da tragédia: permanece acumulada no espaço, nos modos de vida e no tempo.
Legenda da imagem: Primeira formação do volume do território da Mãe d’Água, produzido com papel fragmentado pela água e galhos incorporados à massa ainda úmida.
Depois do período de imersão, o papel fragmentado foi transformado em massa e distribuído sobre o molde previamente protegido. As fibras foram pressionadas e reorganizadas para produzir desníveis, cavidades e movimentos irregulares. A matéria ainda não possui a aparência barrenta que receberá nas etapas seguintes, mas já estabelece o volume sobre o qual o território da Mãe d’Água começa a ser construído.
Durante toda a confecção desta etapa, mantive como som ambiente gravações de águas e correntezas. Enquanto minhas mãos pressionavam, acumulavam e deslocavam a massa de papel sobre o molde, o fluxo sonoro acompanhava os gestos e mantinha a água presente também no espaço de trabalho. O som não foi utilizado apenas para ilustrar o tema da obra, mas para produzir uma condição sensorial de criação: mesmo fora do rio, trabalhei cercado por seu movimento.
Essa presença criava também uma tensão. As correntezas ouvidas sugeriam uma água em deslocamento contínuo, enquanto a matéria diante de mim adquiria peso, acumulava-se, prendia os galhos e formava áreas de soterramento. Entre o som da água que corre e o volume que se deposita, o território da Mãe d’Água começou a ganhar forma.
Nesse processo ocorre ainda uma transformação simbólica: a palavra registrada retorna à água. Ao serem fragmentadas e mergulhadas, as páginas perdem sua organização, enquanto frases e imagens deixam de ser lidas como antes. O registro, porém, não é simplesmente apagado. Aquilo que comunicava pela palavra impressa passa a existir como fibra, massa e volume. A água desfaz a forma anterior da página e incorpora seus fragmentos à construção do território.
Durante a modelagem, acrescentei galhos e outros fragmentos vegetais à massa ainda úmida. Eles aparecem como vestígios de uma paisagem atingida: restos carregados, retidos ou parcialmente soterrados pela passagem dos rejeitos. Alguns permanecem quase encobertos, enquanto outros atravessam a superfície e interrompem seu movimento.
Essa imagem encontra correspondência no depoimento da agricultora Francisca da Silva, então com 74 anos. Quando a barragem de Fundão se rompeu, ela e seu marido, Geraldo Nascimento, fugiram da propriedade onde viviam. A lama rompeu as paredes da casa, cobriu seu interior e soterrou a pequena plantação de cana-de-açúcar do casal. “Saímos apenas com a roupa do corpo”, relatou Francisca, em tradução livre de seu depoimento publicado pelo jornal The Guardian. Leia a reportagem original.
Seu relato aproxima a construção escultórica da dimensão vivida do desastre. Os galhos incorporados ao papel machê não representam uma paisagem abstrata: fazem lembrar a vegetação, os cultivos, as casas e as formas de vida alcançadas e soterradas pela lama. A matéria que se acumula ao redor deles começa a tornar visível não apenas o deslocamento dos rejeitos, mas também aquilo que sua passagem encobriu.
Neste estágio, água, som, palavra, papel e matéria vegetal participam conjuntamente da formação da base. O processo ainda determinará quanto desses elementos permanecerá visível quando o território receber sua coloração barrenta e suas próximas camadas. Antes mesmo do surgimento do corpo da Mãe d’Água, a tragédia começa a adquirir matéria, relevo e memória.
A construção simultânea da Iara, da Mãe d’Água e do Ipupiara chegou aos primeiros volumes em biscuit e à escolha das pedras que formariam seus olhos. Para o Ipupiara, escolhi o olho-de-tigre; para a Iara o crisoprásio , a; e, para a Mãe d’Água, a aventurina verde. Antes mesmo da definição completa das faces, as diferenças de cor, transparência e profundidade das pedras começaram a estabelecer a expressão particular de cada ser.
A face da Iara foi modelada separadamente para evitar a manipulação constante da escultura sobre o livro que constitui sua base. O Ipupiara também foi retirado temporariamente de sua estrutura, permitindo maior liberdade para aplicar a massa e construir seu rosto. As imagens registram, portanto, um mesmo estágio do processo: três corpos ainda em formação e a primeira camada de presença surgindo pelo olhar.
Na Mãe d’Água, os primeiros acréscimos de massa definiram a cabeça, o pescoço, os ombros e o início do tronco. Esses volumes ainda não determinavam uma forma concluída. Funcionavam como uma primeira camada, sobre a qual seria possível corrigir proporções, aprofundar marcas e construir gradualmente sua expressão.
Para formar os olhos, escolhi duas pedras de quartzo verde, inseridas logo no início da modelagem. A escolha não ocorreu apenas pela cor: o tamanho, o brilho, a transparência e as irregularidades de cada pedra interferem na abertura das pálpebras e na direção do olhar. Os olhos, portanto, não aparecem como detalhes acrescentados ao final, mas participam da própria formação do rosto.
A partir do quartzo verde, comecei a modelar as áreas ao redor dos olhos, as pálpebras, o nariz e a boca. Surge, nesse momento, a primeira camada da expressão da Mãe d’Água. O olhar ainda será transformado ao longo do processo, mas já começa a orientar as decisões seguintes da escultura.
Inicialmente, imaginei a Mãe d’Água saindo da lama exausta, cansada e ferida. Seu corpo carregaria o peso daquilo que atravessou o Rio Doce. Durante a modelagem, porém, percebi que essa condição não deveria determinar inteiramente sua posição. Passei a imaginá-la emergindo da lama. A diferença está no sentido do movimento: ela não aparece apenas como um corpo que tenta escapar da matéria, mas como uma presença que se forma dentro dela e se projeta para cima. A ferida permanece, mas já não produz uma figura vencida ou paralisada.
Essa decisão parte da compreensão de que o rio é a própria Mãe d’Água. Seu corpo não está separado da água, da lama ou do território atingido. Ela surge da mistura entre esses elementos, como se a matéria acumulada no Rio Doce adquirisse corpo e presença.
Por isso, suas vestes serão construídas como uma mistura de água e rejeitos. Não busco apagar as emendas nem alisar completamente as diferentes camadas de biscuit. Dobras, rupturas, sobreposições e irregularidades permanecem visíveis porque fazem parte da formação da obra. Na Mãe d’Água, a imperfeição da superfície não é uma etapa a ser corrigida: é parte do corpo que emerge.
Os volumes circulares inseridos no lábio inferior e nos lóbulos das orelhas da Mãe d’Água surgiram durante a investigação sobre os povos originários historicamente ligados à bacia do Rio Doce. Essa escolha conduziu a pesquisa aos Krenak, que se autodenominam Borum e são apresentados pelo Instituto Socioambiental como os últimos sobreviventes dos grupos que os colonizadores reuniram sob a denominação de “Botocudos do Leste”.
“Botocudo” não era o nome de um único povo nem uma autodenominação. Foi um termo atribuído pelos portugueses, no final do século XVIII, a diferentes grupos identificados pelo uso de botoques labiais e auriculares. A própria palavra transforma um elemento corporal em denominação coletiva, reduzindo povos distintos a uma característica observada pelo colonizador. A página dedicada aos Krenak na enciclopédia Povos Indígenas no Brasil registra tanto a origem colonial desse nome quanto a autodenominação Borum.
A ligação dessa história com o Espírito Santo é documentada. O Instituto Socioambiental informa que o nome Krenak está relacionado ao líder de um grupo que se separou dos Gutkrák do rio Pancas, no Espírito Santo, no início do século XX. A mesma fonte registra a presença de grupos historicamente chamados de Botocudos na região do Rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo, e descreve as guerras, os aldeamentos forçados, a tomada de terras e os deslocamentos que marcaram essa trajetória.
Em uma exposição virtual construída a partir da autonarrativa Krenak, o Museu Índia Vanuíre também explica que a denominação “Botocudos” foi imposta pelos colonizadores em referência aos adornos arredondados utilizados nas orelhas e nos lábios. A exposição ressalta que os adornos não constituem elementos genéricos: relacionam-se às culturas específicas de cada povo e podem participar de festividades, rituais e formas de resistência.
Na escultura, essa pesquisa não se transforma em uma reconstrução etnográfica de uma pessoa Krenak, nem estabelece que a Mãe d’Água pertença à cosmologia desse povo. Os botoques são incorporados como uma decisão escultórica ligada ao território investigado. Eles aproximam o corpo da obra da presença histórica dos Borum no vale do Rio Doce e no Espírito Santo, sem apagar a origem colonial da palavra que durante muito tempo os nomeou de fora.
Ao inserir um botoque no lábio inferior e outros nos lóbulos das orelhas, faço com que essa memória atravesse fisicamente o rosto da Mãe d’Água. O rio, compreendido na obra como corpo e território, não carrega apenas os rejeitos da mineração: carrega também as marcas dos povos que viveram, resistiram e continuam existindo em relação com suas águas. Os botoques tornam visível essa camada, enquanto a superfície irregular e as vestes formadas por água e rejeitos situam esse corpo no presente do Rio Doce.
Saiba mais:
Conheça o povo Krenak — Povos Indígenas no Brasil
Meninas Krenak com botoques — LISA/USP
População Krenak com botoques auriculares e labiais — LISA/USP
Como referência complementar:
Ató Jagí Burum Krenak — Museu Índia Vanuíre
O papel machê foi preparado e aplicado em 9 de setembro de 2026, formando o primeiro volume do território. A espessura e a concentração de matéria exigiram uma secagem prolongada. Durante esse período, a água incorporada à massa evaporou lentamente, enquanto o papel endurecia e adquiria resistência suficiente para receber a figura.
Foram necessários dezesseis dias de espera. Em 25 de setembro, com a estrutura finalmente seca, uni o corpo da Mãe d’Água ao volume construído. Esse encontro permitiu observar pela primeira vez a relação integral entre a figura, a lama e o movimento de ascensão imaginado para a obra.
O tempo de secagem passou a integrar o próprio processo escultórico. A matéria determinou a duração da espera e estabeleceu o momento em que a construção poderia avançar. Ao emergir desse território, a Mãe d’Água parece carregar consigo aquilo que permaneceu depositado durante esses dias: água, papel, terra, rejeitos e memória.
A construção desta Mãe d’Água exigiu que eu reconhecesse os limites do meu lugar dentro da pesquisa. As histórias, os territórios e os saberes encontrados durante o percurso participam da obra, mas não me autorizam a apresentá-la como uma escultura indígena, uma imagem sagrada ou uma representação tradicional. O corpo que estou construindo constitui uma elaboração autoral, nascida do impacto que essas presenças e a violência sofrida pelo Rio Doce produziram em mim.
Essa posição não elimina as referências culturais incorporadas à figura. Os botoques auriculares e labial foram inspirados nos adornos corporais associados aos Krenak, que se autodenominam Borum. Foram esses adornos que deram origem à denominação colonial e pejorativa “Botocudos”, empregada para reduzir diferentes povos a uma característica observada pelo colonizador. Ao introduzi-los na escultura, assumo uma referência específica e reconheço sua origem, evitando que sejam apresentados como acessórios indígenas genéricos. Eles situam a obra em relação ao povo cuja história, memória e existência permanecem ligadas ao Watu.
A anatomia da figura segue outro caminho. Evitei modelar o retrato realista de uma mulher indígena ou quilombola, pois a obra não poderia reivindicar essa identidade. Passei a imaginar a Mãe d’Água como o próprio rio adquirindo corpo. Sua forma reúne traços humanos, matéria aquática, lama, vegetação e rejeitos. A pele parece continuar no território, enquanto as camadas que envolvem seu corpo tornam incerta a separação entre figura, vestimenta e paisagem.
Essa escolha conduziu a escultura ao limiar entre o humano e o monstruoso. A dimensão monstruosa concentra a violência que atingiu o rio e alterou suas águas, suas margens e as formas de vida construídas em relação a ele. Ela não atribui monstruosidade aos Krenak, às comunidades atingidas ou à própria Mãe d’Água. O corpo deformado torna visível uma ecologia ferida pela mineração: uma matéria viva obrigada a carregar aquilo que foi lançado sobre ela.
Ainda assim, a figura emerge. Seu movimento ascendente preserva a presença do rio como força viva, capaz de atravessar a lama e sustentar a memória daquilo que aconteceu. A Mãe d’Água surge desse território transformado com um corpo que carrega a ferida sem se reduzir a ela. Entre água, humanidade e matéria contaminada, sua forma permanece aberta, instável e em processo, como o próprio Rio Doce no presente.
Em 6 de outubro de 2026, reuni pela primeira vez as esculturas da Mãe d’Água, da Iara e do Ipupiara em um mesmo registro. As três obras estão em processo e pertencem à Linha das Águas, investigação desenvolvida simultaneamente para observar como diferentes narrativas aquáticas atravessam o corpo, a matéria, o território e a memória.
A proximidade evidencia três movimentos distintos. A Mãe d’Água emerge de uma superfície construída com papel, terra e resíduos, carregando no corpo as marcas de um território atingido. A Iara se organiza em espiral sobre uma enciclopédia aberta, como uma imagem formada por sucessivas camadas de conhecimento, representação e transformação. O Ipupiara realiza o movimento inverso: suspenso de cabeça para baixo, desce em direção ao espelho e devolve ao observador a pergunta sobre quem foi transformado em monstro pelos registros coloniais.
As bases também participam dessas diferenças. A bacia da Mãe d’Água concentra a matéria acumulada e a memória da lama; a enciclopédia da Iara sustenta um corpo construído por palavras, classificações e imagens; o espelho do Ipupiara desloca o julgamento para quem observa. Cada ser estabelece, assim, uma relação própria com aquilo que o sustenta e com o território do qual emerge.
Reunidas, as três esculturas mostram que a água não conduz a uma única forma. Ela pode transportar rejeitos, preservar memórias, produzir imagens, alterar anatomias e devolver reflexos. A Linha das Águas nasce desse encontro entre corpos que emergem, flutuam e descem, mantendo abertas as diferenças entre suas histórias.
CONTINUA...
A investigação não acontece apenas diante da matéria. Ao longo da construção da escultura, experiências sensoriais, observações do território e estímulos encontrados durante o percurso também atravessam o processo. Esses registros acompanham a investigação e podem ser acessados abaixo. em Imersão Sensorial.
A investigação da Mãe d’Água parte de uma relação que não separa o ser das águas que tornam sua existência possível. Viver do rio não significa apenas retirar dele alimento ou utilizá-lo como caminho. Significa construir moradia, trabalho, memória, conhecimento e identidade em contato contínuo com suas correntezas.
O Último Azul (2025), dirigido por Gabriel Mascaro, fortaleceu essa percepção ao apresentar pessoas cujas vidas somente podem ser compreendidas a partir do rio. Entre elas, uma mulher nômade tem no barco sua própria casa. A água não está ao redor de sua existência: participa diretamente daquilo que ela pode ser. O rio lhe oferece movimento, autonomia e uma forma de vida que não se ajusta às estruturas fixas da terra.
Essa imagem retorna à Mãe d’Água situada no Espírito Santo. Quando o Rio Doce é atingido, não se contamina apenas um curso de água. Também são feridas as possibilidades de existência que nasceram junto dele. As comunidades perdem segurança sobre o alimento, o trabalho, o deslocamento e os conhecimentos construídos no contato com o território.
O filme também provocou uma reflexão sobre a maneira como a sociedade trata a experiência acumulada pelo tempo. Pessoas idosas recebem homenagens e medalhas, mas têm sua autonomia retirada e sua capacidade de aprender, desejar e decidir colocada em dúvida. Em minha leitura, cria-se uma narrativa de proteção para justificar o controle sobre suas vidas.
Essa tensão aproxima-se de uma pergunta que começa a entrar na escultura: o que acontece com uma sabedoria antiga quando o mundo deixa de reconhecê-la como uma presença viva? A Mãe d’Água não será construída apenas como um ser antigo pertencente ao rio. Ela também carrega a possibilidade de que aquilo que chamamos de antigo continue produzindo conhecimento, movimento e transformação no presente.
Essas relações não foram propostas oficialmente pelos criadores do filme. São leituras surgidas durante minha imersão escultórica.
Referência
O ÚLTIMO AZUL (The Blue Trail). Direção: Gabriel Mascaro. Produção: Rachel Daisy Ellis e Sandino Saravia Vinay. Brasil, México, Chile e Países Baixos: Desvia Filmes, Cinevinay, Quijote Cine e Viking Film, 2025. 1 filme (86 min), sonoro, colorido. Disponível na Netflix. Acesso em: 9 set. 2026.
O curta-metragem Flor de Urucum, de Djalma Ramalho, foi produzido no Vale do Jequitinhonha e reúne as canções Minha Flor e Urucum e Sal. A obra aproxima memória, ancestralidade, meio ambiente e resistência cultural enquanto atravessa as transformações provocadas pela mineração de lítio na região. Imagens do rio, da vegetação, dos corpos e das práticas cotidianas formam uma experiência em que a perda ambiental alcança também os afetos e o sentimento de pertencimento.
Embora situado em outra bacia hidrográfica, o filme ampliou minha compreensão da Mãe d’Água ligada ao Rio Doce. O Vale do Jequitinhonha possui histórias, comunidades e conflitos próprios, mas também convive com a pressão exercida pela atividade minerária sobre a água, a fauna, a flora e os modos de vida. A aproximação entre esses territórios revela a continuidade de um modelo de exploração capaz de modificar paisagens inteiras e interferir nas relações construídas entre as pessoas e seus rios.
Em Minha Flor, a memória afetiva encontra uma natureza submetida a mudanças profundas. A flor torna-se presença frágil, associada àquilo que existiu, desapareceu ou corre o risco de desaparecer. Em Urucum e Sal, elementos ligados ao alimento, ao corpo e às práticas ancestrais participam de um processo simbólico de elaboração da dor. O sofrimento passa pela matéria, pelo preparo e pelo gesto, abrindo espaço para a cura e para a resistência.
Essa imersão acrescentou uma camada importante à construção da Mãe d’Água. A mineração atinge um território composto por águas, plantas, animais, lembranças, conhecimentos e vínculos comunitários. Quando esse território é ferido, a violência permanece inscrita em todas essas dimensões. Ao mesmo tempo, Flor de Urucum mostra que a memória e a criação continuam agindo dentro da paisagem transformada, produzindo formas de denúncia, permanência e reconstrução.
🎵 Abiã — Mariene de Castro
Composição de J. Velloso e Ulisses Castro, lançada por Mariene de Castro em 2021. A canção foi escrita para acompanhar a experiência de iniciação religiosa da cantora.
A composição apresenta a água como matéria de passagem e transformação. Banho, ondas, navegação e conchas aparecem ligados a um percurso de aprendizagem, recolhimento e renascimento. A pessoa que entra nas águas não retorna exatamente como chegou: atravessa um processo conduzido por forças, conhecimentos e relações pertencentes ao território religioso da canção.
Na imersão sonora da Mãe d’Água, essa escuta acompanhou a construção de um corpo que emerge da lama e permanece ligado ao território do qual se forma. A água também participa materialmente da obra: fragmenta o papel, desfaz sua organização anterior e permite que ele seja reconstruído como volume. A canção ajudou a perceber essa transformação como uma passagem na qual corpo, água e matéria se modificam mutuamente.
Sua presença nesta investigação não estabelece equivalência entre os fundamentos religiosos mencionados na composição, a Mãe d’Água e as cosmologias do povo Krenak. A aproximação acontece pela experiência sensorial da água como força capaz de dissolver, conduzir e reorganizar a matéria. Na escultura, essa força participa do surgimento de um ser que carrega os vestígios do rio, da lama e da violência inscrita no território.
🎵 Mama Kalunga — Virgínia Rodrigues
Composição de Tiganá Santana, gravada por Virgínia Rodrigues no álbum Mama Kalunga, lançado em 2015.
A canção conduz a escuta para uma água atravessada por memória, ancestralidade e passagem. Na interpretação de Virgínia Rodrigues, a voz adquire profundidade e parece surgir de um território no qual água, distância e presença ancestral permanecem ligadas. Essa atmosfera contribuiu para pensar o rio como um corpo que guarda aquilo que recebeu e transporta marcas que não desaparecem quando a superfície volta a correr.
Na imersão sonora da Mãe d’Água, a música acompanhou a construção de um ser que emerge da lama carregando a memória material do território. A água participa desse nascimento como força capaz de dissolver, misturar, deslocar e reorganizar a matéria. O movimento ascendente da escultura sugere a retomada do fluxo e a tentativa de recomposição de um corpo ferido, sem ocultar os resíduos, as rupturas e as deformações produzidas pela mineração.
A presença de Mama Kalunga nesta pesquisa estabelece uma aproximação sensorial, sem transformar Kalunga, o Watu, a Mãe d’Água e a cosmologia Krenak em conceitos equivalentes. A música integra o processo como uma escuta de águas profundas, memória ancestral e continuidade, preservando as diferenças históricas, territoriais e espirituais entre essas referências.
🎵 Canção Kayapó — Mawaca
Recriação contemporânea de um canto relacionado aos Mẽbêngôkre/Kayapó, gravada pelo grupo Mawaca no álbum Rupestres Sonoros — O canto dos povos da floresta.
A sobreposição das vozes e a presença insistente da percussão produzem uma escuta marcada pelo movimento coletivo. Durante a criação da Mãe d’Água, a faixa contribuiu para pensar um corpo que não surge isolado, mas atravessado por território, memória e relações construídas entre diferentes seres. A repetição sonora também se aproximou do movimento circular da água e do processo de modelagem da obra, realizado por acréscimos, retornos e sucessivas camadas de matéria.
A escuta dessa gravação também evidenciou a diversidade existente entre os povos indígenas. Os Mẽbêngôkre/Kayapó não são Krenak, e a canção não foi utilizada para representar o Watu nem para explicar os botoques e demais referências incorporadas à escultura. Sua presença registra uma das experiências sonoras que acompanharam o processo criativo, preservando a distinção entre os povos, seus territórios e suas tradições musicais.
🎵 Louvação a Oxum — Mariene de Castro
Composição de Roberto Mendes e Ordep José Trindade Serra, gravada por Mariene de Castro no álbum Maria da Canção, lançado em 2023.
A canção louva Oxum como senhora dos rios, das águas frescas, da cura, da fertilidade e do conhecimento resguardado. A interpretação de Mariene de Castro reúne solenidade e movimento, fazendo da água uma presença dotada de vontade e poder. O rio aparece como morada e força vital, capaz de alimentar, proteger, transformar e também reagir às ações humanas.
Na imersão sonora da Mãe d’Água, a música contribuiu para pensar uma existência formada pelo próprio curso do rio. A escultura emerge da lama como um corpo que ainda guarda água, matéria e memória. A ideia de cura presente na canção aproximou-se do desejo de representar o retorno do fluxo depois da violência, reconhecendo que essa retomada não apaga os rejeitos, as rupturas nem os danos acumulados no território.
Oxum pertence às tradições religiosas de matriz africana e não corresponde à Mãe d’Água, ao Watu ou aos seres presentes na cosmologia Krenak. A música participa desta pesquisa como experiência sensorial e como contato com outra maneira de reconhecer a água enquanto presença viva e sagrada, mantendo distintas as histórias, as comunidades e as cosmologias envolvidas.
🎵 Ponto de Nanã — Mariene de Castro
Composição de Roque Ferreira, gravada por Mariene de Castro no álbum Tabaroinha.
A canção evoca Nanã por meio de uma interpretação solene, sustentada pela repetição e pela força coletiva do canto. Sua escuta aproxima água, terra, barro, passagem do tempo e ancestralidade. A matéria úmida adquire profundidade: deixa de ser percebida somente como resíduo ou superfície e passa a carregar memória, transformação e continuidade.
Na criação da Mãe d’Água, Ponto de Nanã acompanhou diretamente o trabalho com a lama e o papel machê. A escultura surge de uma matéria fragmentada, mergulhada em água, desfeita e novamente reunida. Esse processo encontrou ressonância na relação simbólica de Nanã com o barro, ajudando a pensar a base da obra como um território onde destruição e possibilidade de formação permanecem simultaneamente presentes.
Nanã pertence às tradições religiosas de matriz africana e não corresponde à Mãe d’Água, ao Watu ou aos seres da cosmologia Krenak. A canção integra a imersão como uma referência sensorial que ampliou minha percepção da lama enquanto matéria carregada de tempo e memória, sem transformar tradições distintas em uma única narrativa.
🎵 Prece de Pescador — Mariene de Castro e Filhos de Gandhy
Composição de Roque Ferreira e J. Velloso, gravada por Mariene de Castro com a participação dos Filhos de Gandhy no álbum Abre Caminho, lançado em 2005.
A canção apresenta o mar como território de trabalho, incerteza, proteção e entrega. A figura do pescador estabelece uma relação de dependência e respeito com as águas, enquanto Iemanjá é invocada como presença capaz de orientar a travessia, transformar a dor e conduzir o corpo até a calmaria. O canto assume a forma de uma prece porque entrar na água exige reconhecer forças que ultrapassam o controle humano.
Na imersão sonora da Mãe d’Água, essa relação entre água, subsistência e proteção aproximou-se da realidade das comunidades atingidas na foz do Rio Doce. Depois do rompimento da barragem de Fundão, a permanência das restrições à pesca passou a evidenciar uma ruptura que envolve o ambiente, o alimento, o trabalho, a memória e a continuidade dos modos de vida construídos junto ao rio e ao mar.
Iemanjá pertence às tradições religiosas de matriz africana e não corresponde à Mãe d’Água, ao Watu ou aos seres da cosmologia Krenak. A canção participa da pesquisa como uma escuta da relação entre as águas e aqueles que dependem delas, ajudando a compreender que ferir um rio também significa alterar vínculos humanos, espirituais, econômicos e culturais mantidos ao longo de gerações.
🎵 Mae Inini (The Power of the Earth) — Amazon Ensemble
Faixa de abertura da trilha sonora do documentário Mae Inini, dedicado ao povo Huni Kuin. A música foi produzida por Fernando Sallum e pelo Amazon Ensemble.
O título, apresentado na própria edição com a tradução “O poder da terra”, orientou minha escuta para uma matéria que possui presença e capacidade de ação. Terra, água, vegetação, animais e seres humanos deixam de formar elementos isolados e passam a integrar um território composto por relações. Essa percepção contribuiu para imaginar a Mãe d’Água como parte do próprio rio e da matéria acumulada em suas margens.
Durante a modelagem, a faixa acompanhou o encontro entre água e papel machê, do qual surgiu a lama utilizada para construir o território da escultura. A terra não aparece apenas como base sobre a qual o ser se apoia: adere ao corpo, modifica sua forma e participa de seu nascimento. Essa relação tornou possível pensar a emergência da Mãe d’Água como um movimento realizado pela própria matéria ferida.
O documentário e sua trilha se relacionam ao povo Huni Kuin, que possui história, língua, território e cosmologia próprios. Essa referência não representa o povo Krenak nem explica o Watu. Sua presença registra uma escuta que contribuiu para reconhecer a terra como força ativa, preservando as diferenças entre os povos e entre as tradições mobilizadas durante a pesquisa.
🎵 The Storm — Amazon Ensemble
Composição instrumental de Eduardo Agni, gravada pelo Amazon Ensemble no álbum Enchanted, lançado em 2014.
A combinação do violão com teclados e efeitos constrói uma atmosfera de instabilidade e transformação. A tempestade sugerida pela faixa não permanece distante: aproxima-se gradualmente, modifica o espaço sonoro e produz a sensação de uma força que envolve aquilo que encontra. Sua escuta acompanhou a procura por um movimento capaz de atravessar toda a escultura, da base carregada de lama ao corpo que se projeta para fora dela.
Na criação da Mãe d’Água, a música contribuiu para pensar a violência sofrida pelo rio como uma alteração profunda de seu fluxo e de sua matéria. O corpo emerge em meio a essa perturbação, carregando marcas do acontecimento, mas buscando recuperar movimento e presença. A tempestade tornou-se, assim, uma referência para a tensão existente entre ruptura e continuidade, sufocamento e respiração, contaminação e retorno das águas.
The Storm é uma composição autoral contemporânea e não um canto tradicional indígena. Sua presença na imersão registra uma experiência sonora ligada à força, à instabilidade e ao deslocamento da matéria, sem ser utilizada para representar o povo Krenak ou qualquer outra tradição específica.
🎧 Ailton Krenak: países que foram “privados dessa enxurrada capitalista” aprenderam algo sobre Bem Viver — Programa Bem Viver
Entrevista de Ailton Krenak ao programa Bem Viver, do Brasil de Fato, publicada em 10 de fevereiro de 2025.
Ao refletir sobre sociedades afastadas compulsoriamente de parte do sistema global de consumo, Ailton Krenak afirma que elas, “privadas de toda essa enxurrada capitalista”, podem estar aprendendo algo sobre o Bem Viver. Sua reflexão questiona a ideia de que viver bem depende da acumulação de mercadorias e da exploração contínua dos territórios. O Bem Viver aparece ligado à reciprocidade entre os seres humanos, a natureza e o lugar que habitam.
A fala acompanhou a criação da Mãe d’Água porque o rompimento da barragem de Fundão não pode ser separado do modelo econômico que transforma montanhas, rios e comunidades em recursos disponíveis para a produção. A mineração retira matéria do território, concentra seus benefícios e transfere os riscos e os rejeitos para os seres que permanecem junto ao rio.
A proximidade entre a expressão “enxurrada capitalista” e a enxurrada de lama que atingiu o Watu tornou-se uma associação produzida no interior desta pesquisa artística. Krenak emprega a expressão como crítica ao capitalismo e ao consumo; na obra, ela também passou a revelar a dimensão material dessa lógica. A lama que forma o território da escultura torna visível aquilo que o sistema econômico procura deixar distante: os resíduos, os corpos atingidos e as consequências acumuladas de sua própria expansão.
🎵 Águas, Sempre o Caminho — Mateus Aleluia
Composição e interpretação de Mateus Aleluia, gravada no álbum Afrocanto das Nações, lançado em 2021.
A canção apresenta a água como caminho contínuo, matéria que atravessa territórios e estabelece relações entre diferentes formas de vida. Seu movimento não se encerra em um único lugar: a água nasce, percorre distâncias, penetra o solo, alimenta corpos, encontra outros cursos e prossegue em direção ao mar. A escuta amplia a percepção do rio como percurso e como presença que conecta espaços aparentemente separados.
Na criação da Mãe d’Água, essa imagem encontrou uma tensão decisiva. A capacidade da água de transportar vida foi a mesma que conduziu os rejeitos da mineração por aproximadamente 670 quilômetros da bacia do Rio Doce até o oceano Atlântico. O caminho permaneceu aberto, mas passou a carregar uma matéria que alterou o leito, as margens, a foz e as relações construídas pelas comunidades ao longo do percurso.
A música contribuiu para que a escultura não permanecesse presa ao instante do rompimento. A Mãe d’Água emerge da lama porque o rio continua em movimento, atravessando o território e procurando passagem entre os resíduos acumulados. Seu corpo guarda as marcas da violência, enquanto sua posição ascendente manifesta a permanência do fluxo e a possibilidade de que as águas retomem o caminho.