Antes da página, o rio,
antes do retrato, a voz,
antes da cauda, o caminho
que a água guardava entre nós.
Antes do ouro nos cabelos,
do verde inventado no olhar,
havia um corpo sem contorno
que o livro não pôde alcançar.
Iára...
Yara...
Yuára...
Uiára...
Quatro nomes sobre a água,
cada um querendo passar.
Abre a página, abre a luz,
deixa o espectro atravessar.
Uma cor esconde muitas,
uma voz faz outra acordar.
Roda o nome, roda o corpo,
roda a água em espiral.
Cada tempo deixa um traço,
nenhum traço é o final.
Um século lhe deu beleza,
outro ensinou-a a cantar.
Depois chegaram o espelho,
o pente, a escama e o mar.
Deram-lhe o corpo da sereia,
fizeram a cauda crescer.
A imagem passou pelas telas
até parecer sempre ser.
Iára...
Yara...
Yuára...
Uiára...
Quantas mãos tocaram o corpo
antes de o corpo voltar?
Abre a página, abre a luz,
deixa o espectro atravessar.
Uma cor esconde muitas,
uma voz faz outra acordar.
Roda o nome, roda o corpo,
roda a água em espiral.
Cada tempo deixa um traço,
nenhum traço é o final.
Chamaram Iara e sereia,
Janaína e Mãe-d’Água também.
O canto aproximou caminhos
que não nasceram do mesmo além.
Que cada nome encontre a margem,
a língua e o lugar de onde vem.
Que as águas possam se encontrar
sem fazer uma da outra refém.
A luz branca abre suas cores.
A hélice transmite a memória.
A página mostra seus limites.
A água continua a história.
O corpo rompe a superfície.
A voz atravessa o papel.
O crisoprásio recebe a luz.
A espiral procura o céu.
Abre a página, abre a luz,
deixa o espectro atravessar.
Muitas cores formam o brilho,
muitas águas fazem o mar.
Roda o nome, roda o corpo,
roda a memória cultural.
Cada camada permanece,
cada volta abre um sinal.
Iára...
Yara...
Yuára...
Uiára...
A água chama pelo nome.
O corpo responde ao chamado.
A página permanece aberta.
A espiral não terminou.
A voz encontra a água.
A água encontra o corpo.
O corpo encontra a memória.
A memória encontra a roda.
A Iara entra na roda.