As esculturas de Iara, Ipupiara e Mãe d’Água serão desenvolvidas simultaneamente. Durante os intervalos de cura do biscuit e de secagem das diferentes camadas, o trabalho passará de uma peça para outra, fazendo com que os três processos avancem em diálogo.
As imersões partirão do tema Linha das Águas e servirão como campo comum de investigação para as três obras. Filmes, leituras, imagens, músicas, memórias e outras experiências serão observados a partir do contato que provocarem com cada um dos três seres.
Isso não significa que todo estímulo será associado igualmente a Iara, Ipupiara e Mãe d’Água. O filme A Fera do Mar (2022), dirigido por Chris Williams, por exemplo, provocou uma relação mais intensa com o Ipupiara e com a Iara; por isso, as percepções despertadas por essa experiência serão registradas em suas páginas de investigação escultórica. Quando um mesmo estímulo ressoar em um ou nos três seres, o registro será feito nas respectivas páginas, considerando separadamente aquilo que ele provoca no encontro com cada um.
Desse modo, as três investigações compartilham o mesmo percurso de imersão, mas preservam as respostas, associações e caminhos particulares que surgem durante a criação de cada escultura.
A primeira imersão sensorial deste processo acontece por meio de uma pesquisa bruta e ampla. A leitura de diferentes fontes, o exame de documentos, o levantamento de registros e o contato com perspectivas provenientes de diferentes povos fazem emergir possibilidades antes mesmo do início da modelagem. Traçar aproximações, reconhecer diferenças, analisar e comparar essas fontes permite estabelecer um ponto de partida para as esculturas — não como uma resposta definitiva sobre cada ser, mas como um campo inicial de formas, movimentos, matérias, perguntas e tensões.
Depois desse percurso, o processo segue em direção a outros olhares sobre as águas e os seres relacionados a elas. O objetivo não é procurar representações prontas para serem reproduzidas, mas perceber o que diferentes experiências podem despertar no corpo e no imaginário durante a construção das obras.
Para essa nova etapa, serão utilizadas diversas fontes de imersão, iniciando pelo cinema. Filmes de diferentes gêneros, épocas e lugares serão observados como estímulos sensoriais e referências livres. Suas imagens, sons, movimentos, narrativas e atmosferas poderão provocar associações com Iara, Ipupiara ou Mãe d’Água. Essas relações não serão atribuídas aos criadores das obras assistidas: serão registradas como leituras autorais surgidas no decorrer da investigação escultórica.
Para a Iara, o território inicial não é uma região geográfica específica: é o livro, lugar onde diferentes registros ajudaram a organizar e difundir sua imagem.
A base não será apenas o suporte da escultura. Ela representa o território a partir do qual o ser começa a surgir e constitui a primeira chave para compreender sua construção. Na Iara, esse território é o livro: espaço em que seu nome, seu corpo e sua voz foram registrados, reorganizados e transmitidos ao longo do tempo.
Para a base, escolhi um volume antigo de uma enciclopédia ilustrada de capa dura, aberto aproximadamente ao meio. O livro não foi selecionado porque suas páginas apresentam uma narrativa sobre a Iara, mas por representar uma forma de conhecimento que reúne, classifica e oferece ao leitor determinadas versões do mundo.
Publicado em 1958, o volume pertence ao início de um período de grande expansão das enciclopédias no Brasil. Entre as décadas de 1950 e 1980, essas coleções ocuparam um lugar importante na instrução doméstica e na pesquisa escolar. Nascido em 1985, ainda fiz parte de uma geração que realizou trabalhos escolares consultando enciclopédias, principalmente durante a década de 1990, quando os volumes impressos permaneciam presentes, mas começavam a dividir espaço com os meios digitais.
Essa história também atravessa minha formação. Lembro-me de que nem todos possuíam enciclopédias ou tinham acesso frequente a elas. Nas oportunidades em que pude consultá-las, suas páginas representaram meu primeiro contato com muitos temas. Ao mesmo tempo que abriam caminhos para o conhecimento, sua aquisição dependia de condições econômicas, espaço dentro de casa, escolarização e domínio da leitura. Possuir uma coleção também podia representar conhecimento, prestígio intelectual e distinção social.
Essas obras, portanto, não apenas reuniam informações. Elas participavam da definição daquilo que deveria ser reconhecido como conhecimento e das formas consideradas legítimas para transmiti-lo. Os povos, as culturas e os seres descritos em suas páginas nem sempre eram os responsáveis por produzir os textos ou apresentar suas próprias perspectivas. O livro pode ser compreendido, assim, como um território atravessado tanto pela preservação do conhecimento quanto por escolhas, ausências e relações de poder.
A escolha nasce de uma questão que já atravessava a pesquisa: o que vivia nessas águas antes que a literatura oferecesse à Iara uma imagem coletiva? O livro preserva registros importantes, mas também participa das transformações sofridas pelo ser. Ao passar pela palavra impressa, a Iara recebeu novas aparências, características e correspondências culturais, enquanto outras possibilidades permaneceram fora das páginas.
O esqueleto da escultura foi posicionado no centro do livro aberto, mas possui sustentação própria e não depende da estrutura fragilizada do volume. Durante as primeiras etapas da modelagem e da pintura, as páginas foram protegidas com plástico. A relação definitiva entre o livro, essa proteção e os demais materiais ainda será determinada pelo processo.
Neste primeiro gesto, a Iara não está simplesmente representada dentro de um livro. Seu corpo começa a atravessar a abertura entre as páginas. A base permite observar se o conhecimento impresso é o território que revela o ser ou o limite que ele precisa romper para voltar a ocupar o espaço exterior.
A construção simultânea da Iara, da Mãe d’Água e do Ipupiara chegou aos primeiros volumes em biscuit e à escolha das pedras que formariam seus olhos. Para o Ipupiara, escolhi o olho-de-tigre; para a Iara o crisoprásio , a; e, para a Mãe d’Água, a aventurina verde. Antes mesmo da definição completa das faces, as diferenças de cor, transparência e profundidade das pedras começaram a estabelecer a expressão particular de cada ser.
A face da Iara foi modelada separadamente para evitar a manipulação constante da escultura sobre o livro que constitui sua base. O Ipupiara também foi retirado temporariamente de sua estrutura, permitindo maior liberdade para aplicar a massa e construir seu rosto. As imagens registram, portanto, um mesmo estágio do processo: três corpos ainda em formação e a primeira camada de presença surgindo pelo olhar.
A investigação revelou uma Iara formada por sucessivas camadas de linguagem e representação. Iára, Yara, Yuára e Uiára surgem nos documentos acompanhadas por diferentes significados e aparências. Ao longo do tempo, narrativas indígenas sobre presenças aquáticas foram aproximadas da figura europeia da sereia, enquanto textos, imagens e discursos reorganizaram sua origem, seu corpo e sua identidade. Cada versão permaneceu inscrita na seguinte, produzindo a imagem múltipla que hoje reconhecemos por esse nome.
Para transportar essa condição à escultura, imaginei o corpo da Iara organizado em espiral. O movimento helicoidal nasce da forma do DNA e de sua capacidade de guardar e transmitir informações. Na obra, essa estrutura torna-se uma metáfora para a memória cultural: um corpo que carrega vestígios de diferentes povos, períodos históricos e maneiras de compreender as águas.
A torção percorre o eixo da figura e se prolonga pelos braços, lançados em direções distintas. Seu gesto parece alcançar tempos diferentes enquanto mantém todas as partes ligadas pelo mesmo movimento. A Iara surge como um corpo atravessado por heranças, traduções e disputas de imagem — um corpo brasileiro cuja forma continua sendo produzida pelo encontro entre memórias.
O papel-alumínio ainda exposto entre os primeiros volumes de biscuit torna visível esse processo de constituição. A matéria se acumula sobre a estrutura sem apagar completamente o que veio antes. Assim como as narrativas pesquisadas, cada camada modifica a aparência da Iara e, ao mesmo tempo, conserva marcas das formas anteriores.
O corpo da Iara foi concebido a partir do encontro entre duas imagens científicas: a dupla hélice do DNA e a decomposição da luz pelo espectroscópio. Ambas participam da escultura como estruturas de leitura. Uma permite compreender como informações biológicas são organizadas e transmitidas entre gerações; a outra revela os diferentes comprimentos de onda presentes na luz e as maneiras como eles interagem com a matéria. A partir desse encontro, ciência, memória e forma passam a ocupar o mesmo campo de investigação.
O DNA, ou ácido desoxirribonucleico, é a molécula que carrega as informações genéticas relacionadas ao desenvolvimento e ao funcionamento dos organismos. Sua estrutura é formada por duas cadeias que se enrolam uma sobre a outra, criando a configuração conhecida como dupla hélice. Ao longo dessas cadeias, a sequência das bases adenina, timina, citosina e guanina organiza a informação genética. A forma helicoidal possui, assim, uma relação direta com transmissão, continuidade, variação e transformação.
Na escultura, essa estrutura orienta o movimento do corpo. A torção parte do eixo central da figura e se prolonga pelos braços, que avançam em direções diferentes enquanto permanecem ligados pelo mesmo fluxo. A hélice oferece uma forma para pensar uma Iara constituída por sucessivas transmissões culturais. Seu nome atravessou diferentes grafias; seus sentidos foram traduzidos e reorganizados; sua aparência recebeu elementos produzidos por diferentes contextos históricos e visuais.
Essa relação permanece no campo da metáfora escultórica. O DNA transmite informação biológica, enquanto a Iara se transforma pela circulação cultural de palavras, imagens e narrativas. Ao aproximar essas duas formas de transmissão, a obra observa como determinados elementos permanecem, desaparecem, reaparecem ou assumem novos sentidos ao longo do tempo. Cada versão conserva vestígios das anteriores e também acrescenta novas possibilidades à imagem compartilhada.
A segunda referência científica surge na própria base. A estrutura da Iara foi fixada sobre a página O Espectroscópio, encontrada em uma antiga enciclopédia. Um espectroscópio separa a luz de acordo com seus diferentes comprimentos de onda, permitindo observar o espectro produzido. A espectroscopia também analisa como a matéria emite, absorve ou modifica a luz. Por meio dessas diferenças, torna-se possível obter informações sobre composição, temperatura e outras propriedades do objeto estudado.
A luz que parece branca pode revelar várias cores quando dispersa. Em outros tipos de observação, linhas claras ou escuras aparecem em posições específicas do espectro e indicam a interação da luz com determinados átomos e moléculas. O espectro funciona, dessa maneira, como um registro: aquilo que os olhos percebiam como uma unidade passa a apresentar diferenças internas capazes de fornecer informações sobre sua origem e composição.
A investigação da Iara realiza um movimento semelhante no campo cultural. A imagem reconhecida coletivamente é atravessada para que seus componentes possam ser observados: as grafias Iára, Yara, Yuára e Uiára; os significados atribuídos ao nome; as presenças aquáticas registradas em diferentes narrativas; a aproximação com a sereia europeia; as transformações de cor, corpo, voz e comportamento produzidas por textos e imagens. Cada elemento possui um percurso próprio, embora todos tenham sido reunidos sob a figura que hoje chamamos de Iara.
A página do espectroscópio passa, então, a integrar a obra como matéria e pensamento. O livro sustenta fisicamente a escultura e participa da maneira como ela será lida. Do centro da enciclopédia, a estrutura rompe o plano bidimensional da página e se projeta no espaço. O conhecimento impresso deixa de permanecer restrito à superfície e ganha continuidade no corpo que emerge.
A Iara surge entre dois modos de tornar a informação legível. A dupla hélice organiza a sequência e dá forma ao movimento; o espectro separa os componentes da luz e revela diferenças internas. Entre ambos, a escultura procura compreender uma presença formada por muitas transmissões, traduções e imagens. Seu corpo helicoidal nasce de uma página dedicada à luz porque também carrega, em sua formação, elementos que precisam ser distinguidos para que possam ser novamente vistos.
A espiral determina o gesto. O espectroscópio determina o ponto de surgimento. A pesquisa identifica os elementos acumulados sob o nome Iara. A matéria volta a reuni-los em um corpo que permanece aberto à transformação.
Nesta etapa, comecei a distribuir pelo corpo da Iara formas inspiradas em membranas, nadadeiras e movimentos produzidos pela água. Elas surgem junto às mãos, aos braços, aos quadris e ao tórax, acompanhando as mudanças de direção da escultura. Algumas se projetam para fora; outras parecem aderir à pele ou nascer de suas dobras.
A modelagem foi conduzida sem estabelecer uma separação rígida entre anatomia humana e estrutura aquática. As formas crescem umas sobre as outras e produzem regiões ambíguas, nas quais já não é possível determinar com precisão onde termina o corpo e onde começa aquilo que o envolve. Essa continuidade permite que a transformação alcance toda a figura.
No peito, os novos volumes se acumulam em torno do gesto aberto do tronco. Suas pontas, curvas e sobreposições acompanham a expansão dos braços e acentuam a sensação de que a figura se abre enquanto sobe. Ao longo da cauda, volumes maiores sustentam o percurso ascendente e fazem a matéria avançar em diferentes direções.
A superfície permanece marcada pelo processo manual. Emendas, pressões dos dedos, pequenas diferenças de espessura e encontros entre as partes continuam visíveis durante a construção. Essas ocorrências registram o modo como a forma foi sendo descoberta diretamente na matéria e preservam, no corpo da escultura, o tempo de sua transformação.
As três vistas registram a construção de uma anatomia adaptada à permanência dentro da água. O movimento já estabelecido em espiral passou a orientar também as superfícies e os órgãos aparentes da Iara. Cada elemento responde à correnteza: os cabelos se elevam, as mãos se abrem, a cauda se curva e a região torácica adquire um sistema respiratório próprio.
Os cabelos foram construídos como um conjunto de fios longos, irregulares e entrelaçados, projetados acima da cabeça e distribuídos em diferentes direções. A forma procura suspender a ação da gravidade e produzir a sensação de que cada mecha está sendo sustentada e conduzida pela água. Ao mesmo tempo, os fios se aproximam visualmente de raízes e vegetações aquáticas, fazendo com que cabelo, corpo e ambiente pareçam crescer uns através dos outros.
Nas mãos, acrescentei membranas entre os dedos. Elas ampliam a superfície dos gestos e sugerem uma anatomia capaz de sentir, conduzir e atravessar a correnteza. A estrutura humana dos braços e das mãos permanece reconhecível, mas passa a carregar uma adaptação aquática que participa diretamente da movimentação da figura.
Na vista posterior, cortes paralelos ocupam a região correspondente à caixa torácica, onde estariam os pulmões em um corpo humano. Essas aberturas foram imaginadas como um sistema respiratório inspirado nas brânquias e nas fendas branquiais dos peixes. Sua posição nas costas transforma a respiração em uma característica visível da escultura e reforça a ideia de um organismo constituído para permanecer submerso.
A cauda recebeu uma textura contínua em relevo, formada por pequenas estruturas que se acumulam e acompanham sua curvatura. A superfície deixa de ser uniforme e passa a registrar visualmente o fluxo que atravessa o corpo. As grandes nadadeiras prolongam esse movimento, enquanto a espiral organiza a figura desde a base até os cabelos.
Cabelos flutuantes, membranas interdigitais, aberturas respiratórias, textura e nadadeiras passam a integrar uma mesma construção corporal. A Iara adquire uma anatomia própria, formada a partir da observação de diferentes organismos aquáticos e das necessidades imaginadas para um ser que vive inteiramente dentro da água.
Em 6 de outubro de 2026, reuni pela primeira vez as esculturas da Mãe d’Água, da Iara e do Ipupiara em um mesmo registro. As três obras estão em processo e pertencem à Linha das Águas, investigação desenvolvida simultaneamente para observar como diferentes narrativas aquáticas atravessam o corpo, a matéria, o território e a memória.
A proximidade evidencia três movimentos distintos. A Mãe d’Água emerge de uma superfície construída com papel, terra e resíduos, carregando no corpo as marcas de um território atingido. A Iara se organiza em espiral sobre uma enciclopédia aberta, como uma imagem formada por sucessivas camadas de conhecimento, representação e transformação. O Ipupiara realiza o movimento inverso: suspenso de cabeça para baixo, desce em direção ao espelho e devolve ao observador a pergunta sobre quem foi transformado em monstro pelos registros coloniais.
As bases também participam dessas diferenças. A bacia da Mãe d’Água concentra a matéria acumulada e a memória da lama; a enciclopédia da Iara sustenta um corpo construído por palavras, classificações e imagens; o espelho do Ipupiara desloca o julgamento para quem observa. Cada ser estabelece, assim, uma relação própria com aquilo que o sustenta e com o território do qual emerge.
Reunidas, as três esculturas mostram que a água não conduz a uma única forma. Ela pode transportar rejeitos, preservar memórias, produzir imagens, alterar anatomias e devolver reflexos. A Linha das Águas nasce desse encontro entre corpos que emergem, flutuam e descem, mantendo abertas as diferenças entre suas histórias.
CONTINUA...
A investigação não acontece apenas diante da matéria. Ao longo da construção da escultura, experiências sensoriais, observações do território e estímulos encontrados durante o percurso também atravessam o processo. Esses registros acompanham a investigação e podem ser acessados abaixo. em Imersão Sensorial.
A imersão em A Fera do Mar (The Sea Beast, 2022), animação dirigida por Chris Williams, também provocou uma ressonância na investigação escultórica da Iara. Essa aproximação não corresponde a uma interpretação oficialmente proposta pelos criadores do filme. Trata-se de uma leitura autoral surgida durante o processo de criação, especialmente por causa da presença do livro como meio de construção e transmissão de uma história oficial.
Na sociedade apresentada pelo filme, os livros não apenas registram os acontecimentos. Eles ensinam ao povo quem deve ser reconhecido como herói e quem deve ser temido como monstro. As versões publicadas transformam a caça aos seres marinhos em uma tradição gloriosa, legitimam a violência praticada pelos caçadores e fazem com que sucessivas gerações recebam aquela narrativa como verdade. O poder não depende somente das armas e dos navios: ele também controla aquilo que pode ser escrito, ilustrado, ensinado e lembrado.
Maisie cresceu lendo esses livros. Como filha de caçadores mortos no mar, ela aprendeu a admirar os mesmos homens e instituições responsáveis pela manutenção daquela guerra. A narrativa impressa organiza sua compreensão do mundo antes que ela tenha qualquer contato direto com os seres descritos em suas páginas. Somente quando encontra uma dessas criaturas é que percebe a distância existente entre o corpo vivo diante dela e o monstro que havia aprendido a imaginar.
Essa percepção encontrou a Iara porque sua investigação também atravessa o poder exercido pela palavra impressa. Antes de chegar ao presente com uma imagem aparentemente reconhecível, seu nome, seu corpo e sua voz passaram por diferentes registros literários. O livro preservou determinados aspectos, acrescentou outros e ajudou a difundir uma imagem coletiva, mas aquilo que ganhou permanência na página não corresponde necessariamente a tudo o que já existia nas águas, na oralidade e nas experiências dos diferentes povos.
O estímulo provocado pelo filme reforçou, assim, a escolha do livro como base da escultura. A Iara será construída saindo do centro de uma antiga enciclopédia aberta. Ela não aparecerá como uma ilustração aprisionada em uma página, mas como um corpo que emerge do próprio objeto responsável por organizar e transmitir o conhecimento. Nesse movimento, a escultura permite perguntar se é o livro que revela a Iara ou se é ela que rompe os limites da versão que o livro tentou estabelecer.
A enciclopédia representa a autoridade atribuída ao conhecimento impresso, mas a Iara que surge de seu interior não será inteiramente determinada por ele. Seu corpo helicoidal, relacionado ao encontro entre diferentes povos, nomes e camadas culturais, atravessa a página e ocupa o espaço exterior. O ser deixa de ser apenas aquilo que foi escrito a seu respeito e passa a confrontar o próprio meio que contribuiu para fixar sua imagem.
A experiência com A Fera do Mar fez surgir, portanto, uma nova pergunta para a construção da obra: quanto da Iara que reconhecemos veio das águas e quanto foi organizado pelos livros que ensinaram o povo a enxergá-la?
Referência
A FERA DO MAR (The Sea Beast). Direção: Chris Williams. Produção: Jed Schlanger e Chris Williams. Estados Unidos: Netflix Animation, 2022. 1 filme (115 min), sonoro, colorido. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/81018682. Acesso em: 9 set. 2026.
A investigação da Iara começou com uma pergunta: o que vivia nessas águas antes que a literatura lhe oferecesse uma imagem coletiva? O livro utilizado como base representa o espaço no qual seu nome, seu corpo e sua voz foram registrados, reorganizados e transmitidos. A escultura, porém, não pode começar apenas nas páginas. Antes da palavra impressa, existe o território.
O Último Azul (2025), dirigido por Gabriel Mascaro, devolveu a água ao centro dessa questão. No filme, o rio Amazonas não atua somente como cenário. Ele determina o ritmo da travessia, permite encontros, abre desvios e oferece experiências que não seriam possíveis fora daquele espaço. As pessoas não atravessam uma paisagem neutra: são transformadas pelas condições oferecidas pelo rio.
Essa percepção desloca o estudo da Iara novamente para as águas. Antes de perguntar qual aparência ela recebeu na literatura, torna-se necessário observar o território que tornou possível imaginar uma presença relacionada ao rio. A água antecede a forma fixada pelo texto. Ela não oferece um corpo definitivo: mistura, conduz, oculta, revela e transforma.
A viagem de Tereza, protagonista do filme, também reforçou a possibilidade de uma identidade que não permanece presa à definição imposta pelos outros. Considerada incapaz de decidir por causa da idade, ela encontra no rio experiências que reabrem sua existência. A travessia não apaga aquilo que ela foi, mas impede que uma única classificação determine aquilo que ainda pode se tornar.
Essa imagem se aproxima do gesto escultórico da Iara ao sair do livro. Seu corpo atravessa o espaço que tentou organizá-lo e retorna ao exterior, onde volta a encontrar movimento. O livro permanece como parte de sua história, mas deixa de ser o único lugar autorizado a dizer quem ela é.
A aproximação entre o filme e a Iara não foi indicada oficialmente por seus criadores. É uma leitura surgida durante minha imersão no território aquático apresentado pela obra.
Referência
O ÚLTIMO AZUL (The Blue Trail). Direção: Gabriel Mascaro. Produção: Rachel Daisy Ellis e Sandino Saravia Vinay. Brasil, México, Chile e Países Baixos: Desvia Filmes, Cinevinay, Quijote Cine e Viking Film, 2025. 1 filme (86 min), sonoro, colorido. Disponível na Netflix. Acesso em: 9 set. 2026.
🎥Sereias e Tritões — série documental da Netflix sobre pessoas que transformam o imaginário dos seres aquáticos em prática corporal, performance e modo de vida. A produção contribui para observar como caudas, gestos, movimentos e identidades aquáticas são construídos por corpos reais.
A escuta de Rainha do Mar, gravada por Dorival Caymmi em 1939, integrou a imersão sonora da Linha das Águas. A canção aproxima beleza, canto, sereia e domínio marítimo, reunindo elementos que, ao longo do século XX, circularam amplamente na construção popular das mulheres das águas. Durante a investigação da Iara, sua presença permitiu perceber como a música também participou da formação de um repertório coletivo no qual seres de origens distintas passaram a compartilhar imagens, nomes e atributos.
A experiência sonora não foi utilizada para definir a aparência da escultura. Ela funcionou como contato com uma das vias pelas quais a sereia se tornou uma forma reconhecível no imaginário brasileiro. Ao ouvir a canção durante o processo, o canto deixou de ser apenas um atributo descrito nos documentos e passou a ocupar fisicamente o espaço de trabalho, atravessando o corpo, a matéria e o movimento da modelagem.
Composição de Edu Lobo e Joyce Moreno, interpretada por Edu Lobo para a trilha sonora do programa infantil Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.
A escuta de Minha Sereia integrou a investigação sonora da Iara por reunir, em uma única imagem musical, nomes provenientes de diferentes tradições das águas. A canção fala de uma sereia e, ao nomeá-la, aproxima Iara, Janaína e Iemanjá. Essa sequência permitiu perceber como a música popular e a televisão participaram da circulação de uma imagem composta, na qual diferenças históricas e culturais foram condensadas em uma presença aquática facilmente reconhecível.
Na experiência de escuta, a leveza da melodia contrasta com a complexidade dessa reunião. A fusão é apresentada com naturalidade, sem interrupções ou explicações, como se os três nomes sempre houvessem pertencido ao mesmo corpo. A canção passou a integrar o processo não apenas como referência histórica, mas como material sensorial capaz de revelar, pela voz e pela música, uma das camadas que participaram da formação contemporânea da Iara.
🎵 Sereia do Rio Mar — Mestre Chico Malta
Composição e interpretação de Mestre Chico Malta, lançada no álbum Rio Mar, em 2021.
A escuta de Sereia do Rio Mar integrou a investigação sonora da Iara por construir uma paisagem de encontro entre águas doces e salgadas. A canção apresenta Iara como sereia do rio e Iemanjá como sereia do mar, aproximando as duas presenças sem transformá-las em uma única entidade. O boto também participa da narrativa, reunindo seres ligados a diferentes territórios aquáticos brasileiros.
Na experiência de escuta, o movimento entre rio e mar tornou perceptível a circulação dessas narrativas por diferentes territórios. O canto, o encantamento e a transformação atravessam as águas e estabelecem correspondências entre Iara, Iemanjá e o boto. A canção passou a integrar o processo como uma referência sonora para pensar encontros culturais que aproximam figuras distintas, preservando na própria letra a diferença entre o rio e o mar.
🎵 Unicamente — Deborah Blando
Composição de Deborah Blando, Andrés Levin, Camus Mare Celli, Gordon Grody, Reppôlho e Erich Baptista, interpretada por Deborah Blando e lançada no álbum Unicamente, na década de 1990.
A escuta de Unicamente integrou a investigação sonora da Iara por reunir natureza, espiritualidade e transformação em uma paisagem musical dominada pelas águas. A canção apresenta Iemanjá como uma sereia e associa seu canto ao mar, às pedras brancas e ao nascimento de um novo tempo. Essa imagem contribuiu para perceber como a música popular ampliou a circulação da forma da sereia como representação das diferentes presenças femininas das águas.
Na experiência de escuta, a referência a uma espiral estabeleceu uma ligação direta com o movimento escolhido para o corpo da escultura. A forma helicoidal da Iara, inspirada na estrutura do DNA e nas sucessivas camadas culturais que atravessam sua imagem, encontrou na canção uma correspondência sonora. A água, o canto, a sereia e a espiral passaram a coexistir como elementos de transformação, memória e continuidade.
🎵 A Iara — Milton Nascimento
Composição de Milton Nascimento e Wagner Tiso, interpretada por Milton Nascimento e lançada no álbum Lendas Brasileiras, em 2006.
A escuta de A Iara integrou a investigação sonora por apresentar o ser como Mãe d’Água, sereia da água doce, rainha da mata e parente de Iemanjá. A canção reúne diferentes nomes e pertencimentos sem transformá-los completamente em uma única origem. Iara permanece associada aos rios e às florestas, mas sua imagem se aproxima de outras presenças femininas das águas.
Na experiência de escuta, a voz ocupa o centro do encantamento. O canto se espalha pelo espaço, desperta o desejo e conduz o homem para uma região da qual seu corpo não retorna. Essa dimensão sonora contribuiu para pensar a Iara para além de sua aparência: um ser cuja presença se estabelece primeiro pela voz, alcançando o ouvinte antes que seu corpo possa ser inteiramente visto.
🎵 Lenda das Sereias, Rainha do Mar — Marisa Monte
Composição de Vicente Matos, Dinoel e Arlindo Velloso para o Império Serrano, interpretada por Marisa Monte no álbum ao vivo MM, lançado em 1989.
A escuta de Lenda das Sereias, Rainha do Mar integrou a investigação sonora da Iara por apresentar o mar como território de múltiplas presenças femininas. A canção reúne diferentes nomes ligados às águas e os aproxima por meio da imagem compartilhada das sereias. Iemanjá e Janaína surgem dentro de um conjunto de rainhas do mar, mostrando como a música popular e o carnaval participaram da circulação dessas associações.
Na experiência de escuta, o canto da sereia deixa de pertencer a uma figura isolada e torna-se uma voz coletiva, ligada à lua, ao horizonte e ao movimento do mar. Essa multiplicidade contribuiu para pensar a Iara como um corpo atravessado por diferentes vozes e tradições. A força rítmica da interpretação também desloca a sereia da imagem imóvel e contemplativa, devolvendo-lhe presença, movimento e capacidade de convocação.
🎵 Yemanjá Rainha do Mar — Maria Bethânia
Composição de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro, gravada por Maria Bethânia no álbum Mar de Sophia, lançado em 2006.
A canção pergunta “Quanto nome tem a Rainha do Mar?” e reúne designações como Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria e Dona Yemanjá. Sua presença na imersão sonora permitiu observar como diferentes nomes, tradições e imagens das águas foram aproximados pela música popular brasileira. Essa aproximação não significa que todas essas presenças possuam a mesma origem ou sejam equivalentes; revela um processo histórico de encontros, traduções e sobreposições culturais.
Na investigação da Iara, a gravação ajudou a perceber que a Rainha do Mar não circula sob uma identidade única e estável. Sua imagem atravessa referências africanas, indígenas, católicas e populares, reunidas pela canção sem que suas diferenças desapareçam completamente. A interpretação de Maria Bethânia transforma essa pluralidade em pergunta e canto, contribuindo para pensar a Iara como uma presença igualmente construída por deslocamentos, associações e camadas sucessivas de memória.
🎵 Noite de Temporal — Virginia Rodrigues
Composição de Dorival Caymmi, gravada por Virginia Rodrigues no álbum Sol Negro.
A canção apresenta o mar como uma força viva, instável e capaz de determinar o destino de quem depende de suas águas. O aviso dirigido ao pescador anuncia a chegada do temporal e estabelece uma relação marcada simultaneamente pela necessidade, pelo respeito e pelo perigo. A água deixa de ser apenas cenário e passa a agir sobre os corpos, o trabalho e as decisões humanas.
Na imersão sonora da Iara, a interpretação de Virginia Rodrigues contribuiu para pensar uma presença aquática que não se limita à sedução ou à beleza atribuídas à sereia. Sua voz amplia a gravidade do aviso e aproxima o canto de uma força que atravessa a tempestade. A escuta ajudou a compreender que o chamado das águas também pode proteger, advertir e impor limites: quem entra em seu território precisa reconhecer que não possui domínio absoluto sobre ele.
🎵 Caminhos do Mar — Gal Costa
Composição de Dorival Caymmi, Danilo Caymmi e Dudu Falcão, gravada por Gal Costa no álbum Gal de Tantos Amores, de 2001. A canção também foi utilizada como tema de abertura da novela Porto dos Milagres.
A narrativa acompanha um pescador que conhece as histórias do lugar e, entre o medo e o desejo, imagina o encontro com Iemanjá. O canto que vem de longe anuncia uma presença percebida antes de ser vista, conduzindo a escuta para um território no qual a água guarda histórias, desperta encantamento e estabelece seus próprios limites. O pescador não se relaciona somente com o espaço físico do mar, mas também com as memórias e presenças que nele habitam.
Na imersão sonora da Iara, a canção contribuiu para investigar o canto como uma força capaz de atravessar distâncias e atrair o corpo em direção às águas. Embora a composição se refira diretamente a Iemanjá, sua presença na pesquisa permitiu observar como o cancioneiro brasileiro aproxima diferentes seres e divindades aquáticas por meio de imagens compartilhadas, como a voz distante, o pescador encantado e o chamado do fundo. Essa aproximação não torna Iara e Iemanjá equivalentes, mas revela os caminhos pelos quais suas imagens passaram a conviver na memória popular.
🎵 Água Também É Mar — Marisa Monte
Composição de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, gravada no álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, lançado em 2000.
A canção desfaz fronteiras rígidas entre diferentes manifestações da água. Mar, chuva, rio, praia e margem aparecem como partes de um mesmo movimento, conectadas pela circulação e pela transformação da matéria. A água pode mudar de estado, dimensão e território, mas continua pertencendo a um fluxo maior, capaz de aproximar aquilo que parecia separado.
Na imersão sonora da Iara, essa percepção contribuiu para pensar um ser que não permanece confinado a uma única imagem ou origem. Assim como a água atravessa a chuva, o rio e o mar, a Iara percorre diferentes nomes, documentos e tradições, transformando-se durante sua circulação. A canção também ajudou a compreender a espiral da escultura como continuidade: um corpo conduzido por movimentos que retornam, avançam e carregam consigo vestígios dos caminhos já percorridos.
🎵 O Mar Serenou — Mariene de Castro
Composição de Candeia, interpretada por Mariene de Castro no álbum ao vivo Ser de Luz — Uma Homenagem a Clara Nunes, lançado em 2013. A gravação inclui uma citação de Eu Morava na Areia.
A canção apresenta uma mulher cuja chegada modifica o comportamento das águas: o mar se acalma quando ela pisa na areia e seu corpo é reconhecido pelo samba, pelo movimento e pela relação com a beira do mar. Ao perguntar se essa mulher seria uma sereia, a composição preserva a dúvida e constrói uma presença situada no limite entre o humano e o encantado.
Na imersão sonora da Iara, a interpretação de Mariene de Castro contribuiu para pensar o corpo como agente capaz de responder às águas e também de transformá-las. O canto, a dança e o mar aparecem ligados pelo movimento, permitindo imaginar uma Iara que não permanece imóvel como figura contemplativa. Sua presença altera o território ao mesmo tempo que é conduzida por ele, aproximando o gesto corporal da ondulação e da espiral desenvolvidas na escultura.