O BRASIL QUE NOS HABITA
Na noite de vinte e quatro de junho de dois mil e vinte e seis, quando o Brasil marcou seu primeiro gol na Copa do Mundo, o silêncio me tocou e percebi que minha atenção já não estava mais na televisão.
Comecei a imaginar o que acontecia, exatamente naquele instante, por toda a extensão desta terra. Quantas vozes gritaram "gol". Quantas famílias estavam reunidas sob a mesma luz. Quantos abraços aconteceram entre pessoas que talvez nunca mais cruzassem o mesmo caminho.
Por alguns segundos, um país inteiro respirou no mesmo compasso.
Naquele instante, eu já não assistia apenas a um jogo de futebol.
Eu assistia ao Brasil.
Foi ali que nasceu uma pergunta que continua caminhando comigo desde então.
Será que o Brasil conhece o próprio Brasil?
E tudo bem.
Este projeto nasceu do desejo de percorrer o Brasil não para descobrir qual lugar é mais bonito, qual sotaque soa mais engraçado ou qual culinária é a melhor.
Nasceu para agradecer.
Porque cada território recebeu a missão de guardar uma parte da memória brasileira.
Há patrimônios feitos de pedra.
Outros de barro.
De madeira.
De papel.
Que tem sabor.
Há patrimônios que florescem, correm pelos rios e atravessam o céu.
Há patrimônios que vivem na voz de um povo.
Todos têm algo em comum.
Só continuam existindo porque alguém decidiu cuidar deles.
Antes de apresentar os seres que escolhi esculpir, preciso apresentar os territórios que lhes deram origem.
Não como quem aponta lugares em um mapa.
Mas como quem apresenta velhos amigos.
Descobri que cada estado brasileiro guarda um presente.
Uma herança que pertence a todos nós.
Mas essa herança nunca esteve parada no tempo.
Muito antes de existir um país chamado Brasil, centenas de povos indígenas já conheciam o nome dos rios, o tempo das chuvas, as plantas que curavam, o caminho dos animais e o desenho das estrelas. Depois vieram povos africanos, arrancados à força de suas terras, que reconstruíram aqui famílias, deuses, tambores, línguas, comidas, festas e esperanças. Vieram portugueses, italianos, japoneses, sírios, libaneses, alemães, espanhóis, ucranianos, chineses, bolivianos, haitianos, venezuelanos e tantos outros. Cada chegada trouxe marcas. Algumas nasceram da dor. Outras do encontro. Todas ajudaram a formar esta terra difícil, contraditória, generosa e viva.
O Brasil recebe o mundo, coloca tempero, muda o ritmo, inventa apelido e devolve diferente. O sushi ganhou cream cheese. A pizza ganhou catupiry. O cachorro-quente ganhou purê. O hambúrguer ganhou vinagrete. E está tudo bem. Porque acolher o mundo não significa deixar de ser quem somos. O acarajé continua sendo acarajé. O tacacá continua sendo tacacá. O chimarrão continua circulando de mão em mão. O tucupi, a tapioca, o pinhão, o queijo minas, o pão de queijo, o açaí, a castanha-do-pará, a rapadura, o cuscuz, a pamonha, o barreado, a moqueca, o pirarucu, o arroz com pequi, o churrasco, a paçoca, a buchada, o mungunzá, a canjica e tantas outras receitas mostram que nossa cozinha também é uma forma de contar quem somos.
O Brasil também canta o mundo. Cantamos músicas em línguas que nunca estudamos. Choramos com filmes coreanos. Aprendemos palavras japonesas pelos animes. Vibramos com artistas, atletas, séries, livros e canções que vieram de longe. Recebemos o mundo de braços abertos, mas dificilmente ele vai embora sem levar um pouco do nosso jeito.
Talvez seja isso que mais me emocione.
O Brasil nunca terminou de ser construído.
Continuam chegando pessoas.
Continuam nascendo sotaques.
Continuam surgindo receitas, músicas, festas e maneiras novas de viver.
Nossa identidade não é uma fotografia.
É uma conversa.
No Norte, ouvi o sussurro da floresta e recolhi os ensinamentos de Chico Mendes no Acre, onde a defesa da natureza também se tornou defesa da vida. Contemplei a imensidão dos rios que parecem mar no Amazonas e o pulsar do Carimbó e do Círio de Nazaré no Pará, onde fé, música e território caminham juntos há gerações. Levantei os olhos para o céu aberto de Roraima, despertei ao som do Marabaixo no Amapá e encontrei, no Tocantins, a força do Cerrado moldada pelas mãos das quebradeiras de coco. Ali compreendi que a Amazônia não é apenas uma floresta. É um encontro de povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e comunidades tradicionais que continuam ensinando ao Brasil que preservar também é uma forma de amar.
No Nordeste, vi o Bumba Meu Boi reunir povos e histórias no Maranhão. Caminhei entre as pinturas rupestres da Serra da Capivara, no Piauí, onde a memória da humanidade continua gravada na pedra. Sorri com a poesia e o humor do Ceará. Encontrei em Câmara Cascudo uma das maiores homenagens já feitas à cultura popular brasileira. Emocionei-me com a delicadeza da renda paraibana. E, em Pernambuco, minha terra, vi o Frevo, o Maracatu, o Coco de Roda, a Ciranda, o barro de Mestre Vitalino e a arte de tantos mestres provarem que a criatividade sempre encontra um caminho.
Sempre.
Segui o curso do Rio São Francisco até Palmares, em Alagoas. Atravessei Sergipe. E encontrei, na Bahia, um território onde ancestralidade, arte, espiritualidade e resistência continuam caminhando lado a lado. Foi ali que também me lembrei de que a história do Brasil guarda cicatrizes profundas. Homens, mulheres e crianças africanas foram arrancados de suas terras. Muitos eram descendentes de reis e rainhas, sacerdotes, artesãos, agricultores e guardiões de antigos saberes. Tentaram lhes tirar a liberdade, o nome e a memória. Não conseguiram. Ela permaneceu viva nos tambores, nos terreiros, nas cozinhas, nas festas, nas mãos que criam e nas comunidades que seguem ensinando ao Brasil que preservar também é resistir.
No Centro-Oeste, vi o Cerrado desenhar o horizonte e compreendi que muitas das águas que alimentam o Brasil nascem ali. Encontrei poesia nos tachos de doces de Goiás, o abraço de todos os sotaques no concreto e no céu de Brasília e a força mutável do Pantanal no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, onde a natureza, os povos originários e a língua guarani continuam lembrando que fronteiras também podem unir. Talvez por isso o Centro-Oeste pareça um coração: é dali que a água parte. E, com ela, a vida.
No Sudeste, diminuí o passo para ouvir histórias sem pressa, como quem escuta um conselho antigo. Senti o aconchego do café e a eternidade do barroco em Minas Gerais. A delicadeza das Paneleiras de Goiabeiras, no Espírito Santo. A alma do samba e do carnaval moldada pelas pessoas no Rio de Janeiro. E o mundo inteiro cabendo no encontro de culturas em São Paulo, onde povos de todos os continentes continuam mostrando que o Brasil também sabe acolher, transformar e reinventar o que recebe.
No Sul, vi o futuro sendo semeado pelas araucárias do Paraná. Encontrei em Santa Catarina um território onde diferentes povos preservam suas línguas, festas e tradições sem deixar de construir uma identidade profundamente brasileira. E, no Rio Grande do Sul, descobri que algumas amizades começam em silêncio, ao redor de uma cuia de chimarrão partilhada diante das Missões Jesuíticas, onde a memória dos povos guaranis continua dialogando com a história do país.
Quando comecei esta pesquisa, imaginei que encontraria quarenta e cinco seres do folclore brasileiro.
Hoje percebo que encontrei muito mais que encantados.
Encontrei povos.
Encontrei territórios.
Encontrei sotaques.
Encontrei receitas.
Encontrei danças.
Encontrei línguas.
Encontrei rezas.
Encontrei festas.
Encontrei pessoas.
E compreendi que nenhuma delas existe sozinha.
Assim como nenhum patrimônio permanece vivo por acaso, nenhum território resiste sem as pessoas que continuam cuidando dele todos os dias.
Patrimônio não é apenas aquilo que recebemos do passado.
É aquilo que escolhemos entregar ao futuro.
Se uma dança se cala,
o Brasil diminui.
Se uma língua se apaga,
o Brasil diminui.
Se um povo perde sua memória,
o Brasil diminui.
Mas quando uma festa acontece...
Quando uma criança aprende o primeiro passo...
Quando um mestre passa o saber adiante...
O Brasil cresce.
O Brasil não cabe em um mapa.
Cabe nas pessoas.
Será que o Brasil conhece o próprio Brasil?
Talvez ainda não.
Mas continua aprendendo.
E isso...
Isso já é um belo começo.
Elvis Bittencourt