Seres do Folclore Brasileiro
Seres do Folclore Brasileiro
Uma Investigação Escultórica da Memória e do Território
Seres do Folclore Brasileiro — Uma investigação escultórica da memória e do território é uma pesquisa artística dedicada às relações entre imaginário, território, oralidade, memória coletiva e criação escultórica.
O projeto parte da compreensão de que os seres do folclore não são figuras imóveis preservadas no passado. Eles permanecem vivos porque continuam sendo narrados, transformados, celebrados, temidos, reinventados e transmitidos por pessoas e comunidades. Uma mesma presença pode assumir outros nomes, formas e sentidos quando atravessa diferentes territórios e gerações.
Desenvolvido pelo artista Elvis Bittencourt, o projeto articula pesquisa bibliográfica e documental, investigação de campo, escuta, experiência sensorial, registro processual e criação escultórica. Mais do que buscar uma aparência definitiva para cada ser, a pesquisa procura compreender o território que o sustenta, as pessoas que mantêm sua memória e as transformações que permitem que ele continue existindo.
O projeto se desenvolve como uma investigação continuada. Cada obra nasce de um percurso de aproximação que pode envolver documentos, relatos orais, paisagens, celebrações, objetos, materiais, sons, cheiros, deslocamentos e encontros.
Esse processo deu origem ao Método Investigação Encarnada, uma metodologia de pesquisa e criação em que corpo, sentidos, território e matéria participam da construção da obra. Antes de esculpir, é preciso escutar.
As esculturas não pretendem estabelecer representações definitivas dos seres pesquisados. São interpretações autorais produzidas a partir dos encontros entre pesquisa, experiência e matéria.
A pesquisa foi originalmente estruturada em três eixos. Com o desenvolvimento do projeto, novas questões deram origem a um quarto eixo, assumido como desdobramento recente da investigação.
Eixo I — Seres do Território
Reúne seres, narrativas e presenças culturais associados a estados, regiões e territórios específicos do Brasil. Cada investigação procura compreender como paisagem, memória, oralidade, modos de vida e diferentes sistemas de conhecimento participam da permanência e da transformação desses seres ao longo do tempo.
Eixo II — Seres Transversais
Reúne seres que atravessam diferentes regiões brasileiras, assumindo nomes, aparências e narrativas diversas. Suas transformações revelam como o imaginário circula e se recria através do território.
Eixo III — Presenças Simbólicas Contemporâneas
Investiga narrativas e presenças que continuam sendo produzidas no presente, observando como memória, experiência coletiva, patrimônio, crença e acontecimentos contemporâneos também participam da formação do imaginário popular.
Eixo IV — Seres Transcontinentais
Desdobramento recente do projeto, amplia a investigação para encontros entre imaginários de diferentes territórios do mundo. Não procura estabelecer equivalências entre seres ou afirmar origens comuns, mas investigar aproximações, diferenças, deslocamentos e transformações que emergem quando culturas distintas são colocadas em diálogo.
Cada investigação encontra uma forma escultórica própria. Biscuit, madeira, metais, pedras, fibras, objetos encontrados e materiais relacionados aos territórios podem participar das obras, não apenas como recursos construtivos, mas como portadores de memória e significado.
O processo permanece registrado em Diários de Bordo, fotografias, desenhos, estudos, textos e documentos de pesquisa. Assim, a obra final não encerra a investigação: ela é uma das formas pelas quais esse percurso se torna visível.
O núcleo principal de Seres do Folclore Brasileiro prevê a criação de 45 esculturas autorais, acompanhadas por pesquisa, documentação processual, livro ilustrado e exposição pública.
As três Obras Fundadoras — Dança dos Mascarados, Alecrim Dourado e Sultão do Mato e a Ema Celeste — antecedem e fundamentam esse percurso, funcionando como campos de experimentação para questões que posteriormente se consolidaram no projeto.
Livro, exposição e ambiente digital são compreendidos como partes de uma mesma investigação. Cada suporte oferece uma maneira diferente de acessar as histórias, os territórios, os processos e as esculturas.
Contar a história de um ser também significa aproximar-se da história do lugar onde ele existe e das pessoas que continuam fazendo com que ele exista.
Por isso, Seres do Folclore Brasileiro não pretende construir um catálogo definitivo do imaginário brasileiro. O projeto procura formar um arquivo artístico vivo, necessariamente incompleto e aberto à transformação.
Porque os seres mudam quando as pessoas mudam. As narrativas atravessam fronteiras, os territórios se transformam e novas memórias continuam sendo produzidas.
Os seres mudam. O território permanece. A memória faz a travessia.