🎥CERRADO SELVAGEM: A Vida na Savana Mais Rica do Mundo
Como parte da imersão, assisti ao documentário sobre a biodiversidade do Cerrado. Entre as imagens e informações apresentadas, chamou minha atenção a relação do Lobo-Guará com a lobeira, fruto importante em sua alimentação, além de seu papel no controle de pequenos roedores. A experiência ajudou a aproximar a investigação do animal de seu ambiente e das relações que estabelece no Cerrado.
Fonte audiovisual: Cerrado Selvagem: A Vida na Savana Mais Rica do Mundo · Conexão Terra · 2024.
🎥O REI LOBO (Wolf King)
Durante a imersão, uma imagem permaneceu comigo: a “Lua do Caçador”. A experiência trouxe para a investigação uma pergunta sobre o Lobo-Guará e sua posição entre vulnerabilidade e enfrentamento:
Ele é caça ou caçador: fugir ou lutar?
Fonte audiovisual: Rei Lobo (Wolf King) · série de animação · criação de Curtis Jobling · direção de Tom Brass · produção Lime Pictures · Netflix · 2025.
🔎 CANELA DE EMA · SOBRADINHO, DF
A observação do Cerrado passou também pelo Canela de Ema, área que integra meu percurso cotidiano. A proximidade entre a vegetação nativa, a área urbana e as marcas de queimada tornou esse trecho um campo de observação direta do território durante a investigação do Lobo-Guará. Em julho de 2026, parte desse território foi formalizada como Refúgio de Vida Silvestre Canela de Ema, abrangendo áreas de Sobradinho e Sobradinho II.
🎧ESTÍMULO SONORO — BACHIANAS BRASILEIRAS
Para acompanhar esta etapa da investigação, escolhi as Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, como estímulo sonoro. A escolha aproxima a pesquisa de uma composição em que referências da música brasileira encontram a estrutura musical de Bach, criando uma paisagem sonora que passa a acompanhar o trabalho no ateliê.
🎥 ESTÍMULO AUDIOVISUAL — SPICE AND WOLF
Durante a construção da armação, acompanhei a série de animação Spice and Wolf: MERCHANT MEETS THE WISE WOLF. Holo, uma divindade-loba ligada à colheita, transita entre a aparência humana e uma forma animal gigantesca. Ao longo da série, sua animalidade permanece perceptível nos sentidos, no comportamento e no corpo: o olfato aguçado, a visão noturna, o uivo, os dentes, os olhos e a transformação aparecem como marcas recorrentes dessa passagem entre humano e animal.
A experiência também fez reaparecer questões que já estavam presentes na investigação. Holo precisa esconder sua natureza e fugir da perseguição humana, sobretudo da Igreja, que a trata como uma presença incompatível com a nova ordem religiosa. Em determinados momentos, seu uivo provoca medo nos cães; em outros, o cheiro funciona como forma de reconhecimento e percepção. Essas imagens me fizeram recordar registros encontrados anteriormente na pesquisa do Lobo-Guará, especialmente a presença do cheiro na narrativa A’uwẽ/Xavante e os relatos documentados nos Quilombos do Alagadiço sobre o Lobo-Guará, os cães e os poderes que lhe são atribuídos.
A solidão de Holo também atravessou a experiência no ateliê. Sua dificuldade de lidar com a presença do outro depois de muito tempo sozinha provocou em mim um momento de catarse durante a construção da armação. Entre as questões que permaneceram após essa imersão, uma retornou com força: fugir, esconder-se ou lutar?
📖Referência principal: CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1947. Capítulo “O Lobisomem no Brasil”. Edições posteriores: Global Editora.
Durante a modelagem da cabeça, uma pergunta surgida na própria matéria levou a investigação para o funcionamento da mente: o que poderia acontecer com um Lobo-Guará cujo conhecimento sobre si se expandisse? A série documental Explicando a Mente passou a acompanhar essa etapa do trabalho, aproximando a construção escultórica de questões sobre consciência, percepção, memória e funcionamento cerebral.
Fonte audiovisual: Explicando a Mente (The Mind, Explained) · série documental · Netflix.
A reportagem sobre o Lobo-Guará acrescentou outra dimensão à investigação: sua participação na dispersão das sementes dos frutos que consome. Ao caminhar pelo território, o animal transporta e devolve sementes ao ambiente, participando da continuidade da vegetação do Cerrado.
Também permaneceu a fala de uma criança durante a visita ao recinto de uma loba-guará chamada Mel. Diante da imagem cultural do “lobo mau”, ela corrige a professora: “Tia, não é lobo mau. É lobo Mel.” O pequeno deslocamento entre mau e Mel tornou-se um registro especialmente significativo sobre a maneira como o encontro com o animal real pode modificar aquilo que imaginamos sobre ele.
Fonte audiovisual: reportagem sobre o Lobo-Guará · Globo Rural.
Durante a modelagem, O Robô Selvagem entrou na imersão e começou a encontrar questões que já estavam presentes na investigação. A relação de Roz com o ambiente se transforma quando ela assume a responsabilidade de cuidar de um filhote de ganso, único sobrevivente de sua família. O cuidado passa, então, a envolver não apenas a sobrevivência de um indivíduo, mas a responsabilidade pela continuidade de uma vida que poderia ter sido interrompida.
Essa relação me fez pensar novamente no Lobo-Guará como um ser que atravessa o tempo carregando algo que precisa alcançar o futuro. Chrysocyon brachyurus é a única espécie viva reconhecida de seu gênero e, dentro da criação, essa permanência vem provocando perguntas sobre aquilo que um sobrevivente guarda, protege e transmite.
Outros elementos do filme começaram a reencontrar imagens que já estavam presentes na pesquisa. Entre os animais está uma raposa-vermelha, cuja condição de canídeo e pelagem avermelhada imediatamente me remeteram ao Lobo-Guará. Logo nas primeiras experiências de cuidado com o filhote, o mel também aparece como alimento. Sua presença me devolveu à narrativa Ofaié pesquisada anteriormente, na qual o Lobo-Guará é apresentado como dono do mel. Não estabeleço uma relação histórica ou cultural entre o filme e essa narrativa; registro a coincidência porque o mel já fazia parte da investigação antes de reaparecer espontaneamente durante essa imersão.
Outra aproximação surgiu na transformação da raposa ao longo do filme. Inicialmente, ela aparece construída a partir de um perfil reconhecível do canídeo ardiloso e oportunista: aproxima-se do filhote com a intenção de se alimentar dele e afirma não conhecer o amor. Aos poucos, porém, sua relação com Roz e com o filhote revela outra necessidade — o desejo de vínculo, pertencimento e conexão familiar. Aquele que inicialmente parecia ocupar apenas o lugar do predador passa a desejar fazer parte de uma relação.
Essa transformação me fez retornar à narrativa A’uwẽ/Xavante pesquisada anteriormente. Nela, Aihö’ubuni, o Lobo-Guará, aparece em forma humana, estabelece uma relação com uma mulher e constitui com ela uma família, embora sua condição animal permaneça e posteriormente volte a se manifestar. Não considero as duas narrativas equivalentes nem atribuo ao relato A’uwẽ as motivações psicológicas apresentadas pelo filme. O que me atravessou durante a experiência foi uma questão comum que a criação já vinha investigando: um canídeo percebido inicialmente através de categorias como ameaça, engano ou perigo pode também carregar um desejo de vínculo?
Essa aproximação reforçou uma dúvida que já acompanhava a leitura de Aihö’ubuni: talvez seja insuficiente olhar para sua passagem pela forma humana apenas como disfarce ou traição. Na minha criação, permanece aberta outra possibilidade — a de um ser que atravessa formas também porque procura uma maneira de pertencer.
o que significa permanecer quando a própria permanência passa a carregar a responsabilidade de proteger aquilo que poderá continuar depois de nós?
Fonte audiovisual: O Robô Selvagem (The Wild Robot) · animação · 2024.
🎧ESTÍMULO SONORO — QUINTETO ARMORIAL
NOTA:
Ao longo da pesquisa, não reconheci no ser investigado traços que me levassem a compreendê-lo como maligno. Por isso, não faria sentido alimentar sua construção com referências centradas no lobisomem ou no arquétipo do “lobo mau”. Os estímulos são escolhidos pelas questões que provocam — transformação, consciência, vínculo, território e cuidado — e não pela semelhança visual. Eles ampliam a investigação sem determinar a forma da escultura.
continua...