O Sultão do Mato e a Ema Celeste foi desenvolvido por meio do Método Investigação Encarnada — processo cênico-escultórico de pesquisa viva. Ao longo da criação, a obra foi construída pela articulação entre território, observação do céu, pesquisa etnográfica, escuta musical, imersão sensorial e registros de diário de bordo. Cada camada da escultura corresponde a uma etapa do encontro entre matéria, memória e paisagem.
Gesto inaugural
O processo iniciou-se em 1º de abril de 2026, antes mesmo da primeira intervenção sobre a matéria. A abertura do trabalho foi construída pela preparação do corpo e do ambiente: a escuta contínua da canção Sultão do Mato, interpretada por Glória Bomfim, e o preparo de um chá de erva-cidreira inauguraram o campo sensível da investigação.
Os primeiros registros indicam que a decisão inicial era começar pela Ema Celeste. Antes de existir o personagem, era necessário construir a estrutura que sustentaria seu movimento.
Nessa etapa foram estudados o esqueleto da ema (Rhea americana), os sistemas de fixação e os materiais estruturais — base de madeira, arames, fita crepe e durepóxi. Também foi incorporada ao projeto uma cabaça (porongo, Lagenaria siceraria), que posteriormente se transformaria em um dos elementos simbólicos da escultura.
O ambiente de trabalho foi ampliado pela investigação das plantas utilizadas nos rituais cotidianos do ateliê. Registros sobre louro, alfavaca e erva-cidreira reuniram propriedades medicinais, usos tradicionais e associações simbólicas ligadas à clareza, proteção, presença e reorganização interior. Esses estudos não buscavam reproduzir práticas religiosas específicas, mas preparar um estado de atenção para a criação.
Direção: Edivan Guajajara, Chelsea Greene e Rob Grobman
Sinopse
Somos Guardiões acompanha a atuação de guardiões da floresta e lideranças indígenas da Amazônia na defesa de seus territórios diante do avanço do desmatamento, da mineração e da exploração ilegal de recursos naturais. A obra evidencia que a preservação da floresta está profundamente ligada à proteção dos povos que nela vivem e dos conhecimentos tradicionais que mantêm uma relação ancestral com o território.
Relação com Sultão do Mato e a Ema Celeste
Ao apresentar a natureza como um espaço vivo de memória, identidade e pertencimento. Enquanto Somos Guardiões evidencia a defesa da Amazônia por seus povos originários, a escultura investiga o Cerrado brasileiro como território de narrativas, observação do céu e permanência dos saberes tradicionais.
Na obra, a figura do Sultão do Mato, inspirada nas histórias do Cerrado, encontra a Ema Celeste, constelação reconhecida por diferentes povos indígenas brasileiros, estabelecendo uma ponte simbólica entre a paisagem terrestre e o firmamento. Essa relação convida o público a perceber que território, cultura e natureza constituem um mesmo patrimônio, cuja preservação depende do respeito às diferentes formas de conhecimento e de convivência com o ambiente.
Assim como o documentário, a escultura propõe uma reflexão sobre o cuidado com a terra, a valorização das memórias ancestrais e a responsabilidade coletiva na proteção dos ecossistemas brasileiros, reconhecendo que conservar a biodiversidade também significa preservar as histórias, os modos de vida e os imaginários que dão sentido aos territórios.
Nos dias seguintes, a imersão foi aprofundada pela exibição do documentário Somos Guardiões (2023), dirigido por Edivan Guajajara, Chelsea Greene e Rob Grobman. As reflexões registradas no diário revelam que a defesa dos territórios indígenas deixou de ser apenas tema de pesquisa para tornar-se questão ética do próprio processo criativo. Frases como "Defender o território é defender a vida" e "Reflorestar a mente" passaram a orientar a investigação.
Foi nesse campo, construído pela escuta, pela observação, pelo estudo e pela preparação do corpo, que a escultura começou a emergir. Antes da forma, existiu a disposição para perceber.
O Sultão do Mato e a Ema Celeste foi desenvolvido por meio do Método Investigação Encarnada — processo cênico-escultórico de pesquisa viva. Ao longo da criação, a obra foi construída pela articulação entre território, observação do céu, pesquisa etnográfica, escuta musical, imersão sensorial e registros de diário de bordo. Cada camada da escultura corresponde a uma etapa do encontro entre matéria, memória e paisagem.
Processo de Criação
Sultão do Mato e a Ema Celeste
1. Pergunta inicial
A investigação começou com uma pergunta simples:
Que imagem escultórica pode nascer do território de Brasília?
A resposta não estava em um personagem conhecido, mas na observação do Cerrado, do horizonte do Planalto Central e do céu do hemisfério sul.
2. Primeiras investigações
Foram pesquisados:
paisagem do Cerrado;
fauna do Planalto Central;
ipês;
horizonte de Brasília;
céu do inverno;
espiritualidades presentes no território;
culturas indígenas do Distrito Federal;
imaginário popular brasileiro.
O objetivo não era ilustrar uma tradição existente, mas descobrir uma imagem capaz de nascer do próprio território.
3. A descoberta da Ema
A investigação levou à ema (Rhea americana), maior ave nativa da América do Sul.
A escolha aconteceu porque ela reúne características profundamente ligadas ao Cerrado:
presença constante no Planalto Central;
deslocamento silencioso;
verticalidade escultórica;
forte relação com o horizonte aberto.
Pouco depois surgiu uma segunda descoberta.
4. A Ema Celeste
A pesquisa sobre astronomia indígena revelou a existência da Ema Celeste, constelação formada pelas manchas escuras da Via Láctea.
Diferentemente da tradição europeia, muitos povos indígenas brasileiros observam o céu a partir da escuridão entre as estrelas.
Entre as principais referências utilizadas estão:
Germano Bruno Afonso (etnoastronomia indígena);
Céus Astro-Culturais (Fiocruz/COC, 2021);
estudos sobre as constelações Guarani e Tupinambá.
Foi nesse momento que surgiu um dos eixos centrais da obra:
ema da terra ↔ ema do céu.
5. Brasília como território
A investigação deslocou-se para o próprio Distrito Federal.
Foram estudados:
Cerrado;
Parque Nacional de Brasília;
Estação Ecológica de Águas Emendadas;
observação do céu durante a estação seca;
Santuário dos Pajés.
A aproximação com o Santuário revelou um aprendizado decisivo.
Nem todo conhecimento deseja tornar-se imagem.
Esse reconhecimento modificou completamente a direção da pesquisa.
Em vez de representar diretamente saberes indígenas específicos, a escultura voltou-se para aquilo que o próprio território oferecia: céu, água, horizonte, vento e memória.
6. O encontro com a música
Durante o processo surgiu a canção Sultão do Mato, composta por Paulo César Pinheiro e interpretada por Glória Bomfim.
A música não foi utilizada como ilustração.
Ela tornou-se um dispositivo de ativação.
Escutada diariamente em repetição durante a modelagem, passou a organizar o campo simbólico da escultura.
Foi dela que nasceram:
a guia;
o Cruzeiro do Sul;
o bastão;
o abano;
a presença afro-brasileira;
a ideia do corpo atravessado pelo céu.
7. Ativação sensorial
O processo escultórico foi acompanhado por práticas constantes de imersão.
Música
Sultão do Mato — Glória Bomfim
Chás
erva-cidreira;
hibisco;
alecrim;
tomilho.
Incensos
Aromas da Floresta.
A repetição desses elementos não possuía função ritual religiosa, mas estabelecia continuidade entre corpo, tempo e matéria.
8. Construção da escultura
A obra foi construída em camadas.
estrutura em arame;
fixação com durepox;
construção da Ema;
modelagem do Sultão;
desenvolvimento do olhar;
incorporação da guia;
pedras naturais (granada, sodalita e pedra da lua);
pintura da Via Láctea;
inserção de penas;
acabamento final.
Ao longo do processo, texto e escultura foram produzidos simultaneamente.
A escrita nunca surgiu depois da obra.
Ela nasceu junto da matéria.
10. Método Investigação Encarnada
Esta obra exemplifica um dos princípios centrais do método desenvolvido neste projeto.
O processo não parte de uma imagem pronta.
Ele inicia com um encontro sensível, amplia-se por meio da pesquisa histórica, científica e territorial e retorna à matéria transformado pela experiência.
O encantamento vem primeiro.
A investigação lhe dá profundidade.
A escultura torna visível aquilo que permaneceu depois da travessia.
Ao concluir esta obra, compreendi que esculpir não é apenas dar forma à matéria. É aprender a escutar um território. O Sultão do Mato e a Ema Celeste nasceram do encontro entre o Cerrado, a observação da natureza, a memória oral, a astronomia indígena e o imaginário popular. Mais do que representar dois seres, esta escultura busca lembrar que toda paisagem guarda histórias invisíveis para quem passa depressa. Espero que ela desperte curiosidade, provoque perguntas e convide outras pessoas a olhar novamente para o céu, para a mata e para as narrativas que ainda habitam este lugar. Porque preservar um território também é preservar as histórias que ele continua contando.
Toda paisagem guarda histórias. Cabe a nós continuar escutando.
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