Para ser lida ao som de Ao Longe o Mar, de Madredeus.
A vós que escrevestes sobre estas terras,
a vós que destes nome ao que não compreendíeis,
a vós que fizestes da pena uma espada
e da espada uma verdade,
escrevo.
Escrevo do fundo das águas de São Vicente, onde o mar ainda guarda o rumor do primeiro golpe.
Escrevo por aquele cujo corpo medistes em palmos.
Por aquele cujos pelos contastes.
Por aquele cujos dentes expusestes.
Por aquele que fizestes monstro para que o homem que o matou pudesse entrar em vossa história como herói.
Escrevo também por aquela que o viu primeiro.
Não registrastes seu nome.
Não perguntastes de que povo vinha.
Não guardastes sua palavra.
Dissestes apenas que pertencia a Baltasar Ferreira, como se um corpo pudesse pertencer a outro e como se esse pertencimento bastasse para contar uma vida.
Ela viu.
Ela chamou.
Ela testemunhou.
Vós escrevestes.
E entre aquilo que seus olhos encontraram e aquilo que vossa pena fixou abriu-se um abismo que ainda não se fechou.
Por isso recolhi do chão as promessas abandonadas dos homens. Fiz delas a carne interna daquele que retorna. Envolvi seus nomes, números e retratos até que já não pudessem ordenar o corpo que pretendiam ocupar.
Sobre os papéis, levantei outra pele.
Dei-lhe olhos para perceber a correnteza.
Atravessei sua boca para que o silêncio se tornasse matéria.
Inclinei seu corpo para que não permanecesse erguido como monumento à vitória de quem o matou.
Ele desce.
Desce pelas palavras que o condenaram.
Desce pelo medo que lhe atribuíram.
Desce pelo sangue ocultado sob a narrativa da conquista.
Desce porque o fundo das águas conserva aquilo que os livros não puderam possuir.
Eis que abaixo de sua mão coloquei um espelho.
Aproximai-vos.
Procurai nele o focinho, os dentes, as sedas e as formas que descrevestes. Procurai o animal feroz que prometestes aos leitores da Europa.
O espelho não vos mostrará o monstro.
Mostrará o rosto daquele que mede.
O rosto daquele que nomeia.
O rosto daquele que invade.
O rosto daquele que mata e depois escreve que venceu.
Recebei, pois, esta carta que não pede licença ao arquivo.
O ser que encerrastes em 1576 tornou a mover-se. O corpo que fizestes gravura rompeu a moldura. A testemunha que reduzistes à condição de propriedade permanece diante de vossa escrita. O mar devolve aquilo que a história julgou haver sepultado.
Não vos escrevo para corrigir a verdadeira aparência do Ipupiara. Nenhum de nós a possui. Escrevo para retirar de vossas mãos o direito exclusivo de determinar quem foi humano, quem foi fera e quem mereceu permanecer na memória.
Que se abra o arquivo.
Que se desfaça a sentença.
Que o espelho receba todos os rostos.
Que as águas tornem a decidir o curso da história.
O Ipupiara entra na roda.
Elvis Bittencourt