Preparação
Varre o chão devagar.
Deixa a pressa do lado de fora.
Arrasta a cadeira.
Abre a janela.
Deixa o vento circular.
Lava as mãos.
Acende o fogo baixo.
Põe a água para aquecer.
Corta o milho.
Amassa o pão.
Mexe o doce no tacho devagar.
Arruma a mesa.
Não é luxo.
É cuidado.
Acende uma vela.
Não para clarear a noite.
Mas para lembrar que há presença.
Coloca um ramo de alecrim na água quente.
Sopra o vapor no rosto.
Toma um gole em silêncio.
Deixa o corpo escutar.
Varrer é chamar.
Cozinhar é abrir passagem.
Acender é acordar o invisível.
Agora o chão está pronto.
Agora o corpo entende.
Agora pode começar.
Erga-se.
Erga-se o chão antigo.
Erga-se o corpo que lembra.
Erga-se o círculo.
Erga-se o passo guardado na poeira.
Erga-se o vento que antecede o nome.
Erga-se o que já estava antes de nós.
O território respira.
A máscara desperta.
Quando o rosto se suspende,
o sagrado aparece.
Erga-se o que veio antes.
Erga-se o que nunca foi embora.
Erga-se a água que conhece caminho.
Erga-se o fogo que desperta coragem.
Erga-se a terra que sustenta peso.
Erga-se o ar que conduz palavra.
Erga-se a sombra que transforma.
Erga-se também o frio do metal.
Erga-se o concreto.
Erga-se o agora.
Eles atravessam sem anúncio.
Não se contam.
Se manifestam.
Farricoco vigia a noite com fogo nas mãos.
Curucucus caminham silenciosos entre casas e portas.
Cazumbá rompe o caminho com riso e espanto.
Pelznickel chega trazendo o peso do inverno e da correção.
Careta de Triunfo sacode o corpo no pó do sertão.
Bate-bola explode na rua com cor, impacto e giro.
Se mostram em seis.
Vermelho acende o vigia da noite.
Azul profundo corre pelo centro.
Amarelo vivo aquece o giro.
Verde insiste sob os pés.
Branco abre espaço no ar.
Preto guarda a passagem.
Cinza sustenta o mundo forjado —
frio na palma, som de ferro ao longe.
Nada se explica.
Mistério se atravessa.
O gesto passa.
O saber passa.
A memória passa.
A roda desperta.
CORO
A RODA ESTÁ VIVA.
NÓS SUSTENTAMOS O GIRO.
Uma voz chama.
Outra responde.
Um corpo sustenta o ritmo.
Outro guarda o tempo.
Aqui ninguém comanda.
Aqui ninguém caminha só.
Se um cansa, outro assume.
Se um cai, outro levanta.
Se um silencia, outro canta.
Água encontra terra.
Terra encontra fogo.
Fogo encontra ar.
Ar encontra sombra.
Sombra devolve vida.
Tudo gira.
Erga-se o ciclo.
Vida não anda sozinha.
Morte não chega vazia.
Uma traz semente.
A outra abre caminho.
O que cai vira chão.
O que parte vira memória.
O que morre vira gesto.
Vida entra pela respiração.
Morte sai pela pele.
Elas se reconhecem no giro.
Não é fim.
É passagem.
Chegam os corpos antigos.
Chegam os corpos brincantes.
Chegam os corpos encantados.
Boi cai e retorna.
Caboclo gira.
Careta provoca.
Encantado guarda.
Muda o nome.
Não muda a função.
A máscara não oculta.
A máscara revela.
O indivíduo suspende.
O coletivo se ergue.
E atravessa um que traz poeira vermelha nos pés.
Traz céu largo no peito.
Traz silêncio de campo e ruído de cidade.
Não carrega máscara ancestral.
Aprende.
Escuta.
Entra por último.
Não lidera.
Fecha o círculo.
Carrega metal nos ossos.
Carrega concreto na respiração.
Carrega vida acontecendo agora.
É presença.
A dança começa pequena.
Cresce.
Convoca mais corpos.
Cada corpo traz seu chão.
Cada chão traz seu canto.
O azul corre pelos olhos.
O amarelo esquenta as mãos.
O verde sobe pela coluna.
O branco limpa o espaço.
O preto ensina transformação
O cinza sustenta o tempo humano.
Tradição caminha.
Erra. Aprende. Mistura.
Não é passado guardado.
É presente em movimento.
Agora é celebração.
Celebração que sabe chorar.
Celebração que sabe rir.
Celebração que honra a vida
e reverencia a morte.
Celebração que mistura
pó e canto,
folha e metal,
memória e invenção.
Os mascarados dançam por todos.
Por quem veio antes.
Por quem ainda virá.
Por quem respira.
Por quem virou terra.
CORO
NÓS SOMOS O PASSO.
NÓS SOMOS A MEMÓRIA.
Erga-se.
Enquanto houver roda,
vida continua aprendendo.
Enquanto houver passo,
morte continua ensinando.
Enquanto houver corpo em dança,
o mundo permanece aberto.
A dança não termina.
Ela atravessa.
Ela retorna.
Ela recomeça.
Encerramento
O giro desacelera.
Os pés encontram o chão.
As mãos se soltam devagar.
A respiração volta para dentro.
A roda não se desfaz.
Ela recolhe.
O que foi chamado retorna.
O que foi aberto se acomoda.
O que atravessou permanece em silêncio.
Agradecemos aos guardiões.
Aos que seguraram o tempo.
Aos que sustentaram o ritmo.
Aos que abriram caminho.
Aos que cuidaram da passagem.
Aos que vieram antes.
Aos que caminham agora.
Aos que ainda virão.
Agradecemos à água que corre.
Ao fogo que aquece.
À terra que ampara.
Ao ar que conduz.
À sombra
que transforma.
Ao metal
e ao concreto que lembram:
houve mãos aqui.
Nada foi perdido.
Tudo foi tocado.
Que o que foi despertado
encontre lugar no cotidiano.
Que o que foi celebrado
siga em gesto simples.
Que o que foi aprendido
caminhe junto.
Agora guardamos o canto.
Guardamos o passo.
Guardamos o silêncio.
Apagamos a vela.
Lavamos as mãos.
Abrimos a porta.
O mundo espera.
O rito continua em quem leu.
Elvis Bittencourt