Quando retornei a Brasília, em 2022, chegou até mim uma narrativa sobre a origem do Lobo-Guará. Sei onde a encontrei pela primeira vez, mas escolho não reproduzir aqui essa referência. O que importa é que a história permaneceu comigo. Ela me atravessou a ponto de, naquele período, eu criar uma escultura a partir dela.
Anos depois, com Seres do Folclore Brasileiro, voltei à mesma narrativa. Desta vez, não apenas para representá-la, mas para pesquisar suas fontes. Foi então que aquilo que eu conhecia como uma única história começou a se desfazer. Elementos apresentados juntos conduziam a povos, registros e contextos diferentes, enquanto outros apareciam principalmente em conteúdos contemporâneos de circulação digital.
Essa descoberta encontrou uma questão que já vinha acompanhando o projeto: a importância de atribuir fontes e distinguir o que está documentado daquilo que apenas se repete. E colocou minha própria obra anterior dentro dessa reflexão.
Para compreender o Lobo-Guará como um ser presente nos conhecimentos do povo, precisei então fazer com aquela história o movimento contrário ao que havia feito em 2022. Antes eu a transformei em escultura. Agora precisava desmontá-la.
Separar o que é sagrado, o que é documentado e o que é construção midiática.
Brasília · 2022
Escultura criada a partir da narrativa sobre a origem do Lobo-Guará que eu conhecia naquele período, antes do desenvolvimento desta investigação. .
A partir daqui, cada elemento presente na narrativa e na escultura será observado separadamente. O percurso seguirá suas referências, registros e contextos, colocando lado a lado aquilo que encontrei documentado e aquilo cuja procedência permanece incerta.
A desmontagem começa por Cadjurucré.
O primeiro elemento que procurei isoladamente foi Cadjurucré, apresentado no início da narrativa como aquele que, após uma grande inundação, teria recriado os animais utilizando cinzas e carvão.
Esse foi também o primeiro ponto em que a pesquisa encontrou um registro histórico consistente.
Em Actualidade Indígena, publicada em 1908, Telêmaco Borba registra uma narrativa entre os Kaingang na qual aparecem Kayurucré e Kamé. Depois de uma grande inundação, eles acendem uma fogueira e, utilizando cinza e carvão, passam a criar diferentes animais, explicando também algumas de suas características.
Ali estavam elementos que eu reconhecia na história que havia chegado até mim: a inundação, Cadjurucré, o fogo, a cinza, o carvão e a criação dos animais.
Mas havia uma diferença fundamental. O registro conduzia aos Kaingang, povo cujos territórios históricos se concentram principalmente no Sul do Brasil e no oeste de São Paulo, e não aos Xavante, como a narrativa que conheci havia sido atribuída.
A investigação produzia, portanto, também um deslocamento territorial: o primeiro elemento da história que consegui localizar documentalmente não me levava ao Cerrado do Brasil Central.
Além disso, no registro de Borba não aparece o episódio do Lobo-Guará proibido de caçar o pássaro guará, nem o castigo que explicaria sua aparência.
FONTE DOCUMENTAL
BORBA, Telêmaco. Actualidade Indígena. Curitiba: Impressora Paranaense, 1908, p. 20–27.
Até onde esta pesquisa conseguiu documentar, portanto, Cadjurucré não pertence a uma narrativa de origem do Lobo-Guará. Sua presença na história que chegou até mim resulta da incorporação de elementos de uma narrativa Kaingang sobre a criação dos animais a uma história posterior sobre o Lobo-Guará.
A busca pelo Lobo-Guará me levou ao projeto Histórias da Tradição e à publicação Aihö’ubuni wasu’u — O Lobo Guará e outras histórias do povo Xavante, realizada com participação A’uwẽ/Xavante e composta por histórias escolhidas pelos anciãos da aldeia Etenhiritipá.
Entre os registros está “História do Lobo-Guará”, contada por Roberto Xavante. É nessa fonte que encontrei uma parte significativa da história que havia chegado até mim — mas em um contexto muito diferente.
No relato, Aihö’ubuni, o Lobo-Guará, aparece inicialmente sob forma humana: um homem bonito, pintado de urucum e enfeitado, que seduz uma mulher e a leva para viver com ele na mata. Depois que ela abandona essa vida e retorna à aldeia, seu marido procura Aihö’ubuni e o enfrenta. Ferido durante a luta, ele se transforma em animal e foge para a mata.
A história prossegue com o destino da mulher, seu retorno à família, a tentativa de retirar de seu corpo o cheiro do Lobo-Guará, o fogo, a réwede e uma segunda transformação. Para preservar a integridade desse relato e não substituir a voz de quem o conta por uma recontagem minha, apresento aqui apenas os elementos diretamente relacionados à investigação do Lobo-Guará.
A pesquisa me levou à própria fonte. Por isso, disponibilizo abaixo o acesso à história contada por Roberto Xavante e ao projeto que a registrou. Segue os links:
OUVIR A HISTÓRIA NA ÍNTEGRA
História do Lobo-Guará — Roberto Xavante
Projeto Histórias da Tradição · 10min53s
Ouvir a gravação original — Roberto Xavante
O encontro com a história contada por Roberto Xavante permitiu reconhecer com mais precisão o que havia chegado até mim anos antes. A presença do Lobo-Guará entre os A’uwẽ/Xavante é documentada, assim como sua passagem de uma forma humana para a forma animal. O que muda é o caminho que conduz a essa transformação.
Aihö’ubuni não é criado por Cadjurucré, não recebe a proibição de caçar o pássaro guará e sua forma animal não surge como punição por essa desobediência. Na história contada por Roberto Xavante, ele já é apresentado como Lobo-Guará enquanto aparece sob forma humana — bonito, pintado de urucum e enfeitado. A transformação em animal ocorre somente depois do confronto com o marido da mulher, quando Aihö’ubuni é ferido e foge para a mata.
Isso estabelece uma distinção importante para esta pesquisa: a transformação humano–animal pertence à fonte A’uwẽ/Xavante; a explicação que a liga a Cadjurucré, ao pássaro guará e a um castigo não aparece nela.
Ao desmontar Fábulas do Cerrado, volto à obra de 2022 com o conhecimento que a pesquisa tornou possível. A escultura permanece como registro da história que chegou até mim naquele momento e da forma como ela ganhou matéria. Hoje, suas partes podem ser observadas também por suas procedências, seus contextos e suas fontes. Esse percurso passa a integrar a própria história da obra, revelando as distâncias, aproximações e transformações que uma história pode atravessar até chegar a quem a escuta.
O Lobo-Guará vive em grande parte do Cerrado, atravessando diferentes estados brasileiros. Por isso, sua presença no Distrito Federal dentro deste projeto precisava estar sustentada por algo mais do que a ocorrência da espécie no bioma. Ao procurar essa relação, encontrei um animal cuja presença acompanha a própria transformação do território onde Brasília foi construída.
O Lobo-Guará já habitava essa paisagem antes da expansão urbana e permaneceu enquanto o Cerrado era atravessado pela construção da cidade. Sua presença deixou marcas inclusive na geografia local: o nome do Guará está relacionado ao córrego de mesmo nome e à ocorrência do animal na região. Hoje, ele continua registrado em áreas protegidas como a Estação Ecológica de Águas Emendadas e o Parque Nacional de Brasília, e pesquisas realizadas no Distrito Federal acompanham justamente essa permanência em fragmentos de Cerrado cercados por estradas e áreas urbanizadas.
Essa convivência também passou a fazer parte da maneira como Brasília reconhece o animal. Em 1995, uma votação promovida pelo Correio Braziliense para escolher um animal que representasse a cidade recebeu 9.648 votos. O Lobo-Guará venceu com 5.446. No ano seguinte, essa escolha chegou à Câmara Legislativa em uma proposta para declará-lo animal-símbolo do Distrito Federal. O projeto foi arquivado, mas o episódio registrou uma identificação que já existia entre a população e o animal.
Mais de trinta anos depois, essa relação continua sendo inscrita no território. Em 2026, uma unidade de conservação em Planaltina recebeu oficialmente o nome de Parque Distrital Lobo-Guará, enquanto a criação do Monumento Natural Serrinha do Ribeirão Sobradinho incluiu entre seus objetivos a proteção da espécie.
A pesquisa me levou também aos Ofaié, povo indígena historicamente ligado ao território que hoje corresponde ao Mato Grosso do Sul. Entre suas histórias está A origem do mel, na qual o Lobo-Guará ocupa uma posição central. A história encontra-se publicada pelo Instituto Socioambiental no Povos Indígenas no Brasil e possui registro anterior em Ofaié: o povo do mel, de Carlos Alberto dos Santos Dutra, publicado em 1991.
No começo do mundo, o Lobo-Guará é apresentado como dono do mel. Apenas ele e seus filhotes conhecem esse alimento, que mantém escondido dos outros. Quando os demais animais pedem para prová-lo, ele se recusa a compartilhar. É o Jaboti quem decide descobrir onde o mel está e torná-lo acessível aos outros.
A disputa provoca uma perseguição. Cercado pelo fogo em um capinzal, o Lobo-Guará se transforma em perdiz e tenta escapar voando. O Jaboti percebe a transformação e continua seguindo-o. O percurso acaba conduzindo os animais ao lugar das abelhas e, ao final, o mel deixa de ser conhecimento exclusivo do Lobo-Guará e passa a estar disponível aos demais.
O mel possui uma presença que ultrapassa essa história. Registros sobre os Ofaié mostram sua importância na alimentação e também em práticas do povo, inclusive associado a momentos de iniciação. Uma publicação acadêmica que retoma Dutra registra ainda que A origem do mel era transmitida pelos mais velhos.
Para preservar a história em seu contexto e permitir o acesso à versão publicada, disponibilizo abaixo a fonte que conduziu esta etapa da pesquisa.
LER A HISTÓRIA NA ÍNTEGRA
A origem do mel — povo Ofaié
Povos Indígenas no Brasil · Instituto Socioambiental
FONTE DOCUMENTAL
DUTRA, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié: o povo do mel. Campo Grande: Cimi-MS, 1991. A obra está catalogada também pelo Museu Nacional dos Povos Indígenas/Funai
A continuidade da pesquisa levou a outros registros sobre o Lobo-Guará, desta vez encontrados principalmente em pesquisas de campo, estudos etnozoológicos e documentos relacionados à conservação da espécie. Em vez de uma única narrativa, essas fontes revelaram um conjunto de saberes e crenças construídos em torno do animal: seu nome, seu olhar, sua aparição, sua relação com a caça e os poderes atribuídos à sua presença.
Procurei preservar nesses registros quem realizou a pesquisa, onde ela aconteceu e o contexto em que cada informação foi documentada. Isso se tornou especialmente importante porque algumas dessas crenças ultrapassam o campo da narrativa e podem produzir consequências concretas para o próprio animal.
O próprio nome apareceu como parte desse percurso. No estudo publicado em 2019 por Saulo Gonçalves Pereira e colaboradores, os autores registram “lobo-guará” com o significado de “lobo-vermelho” em tupi, relacionando a denominação à coloração da pelagem do animal.
A referência reaparece nas entrevistas realizadas pelos pesquisadores no noroeste de Minas Gerais. Todos os participantes disseram conhecer o animal pelo nome Lobo-Guará, e os autores novamente relacionam “guará” à ideia de vermelho e à sua pelagem no Cerrado.
Como o artigo não é um estudo linguístico especializado em línguas Tupi, mantenho aqui a informação nos limites da própria fonte. A etimologia merece uma investigação linguística específica antes que sua origem seja afirmada de maneira mais ampla.
Nos Quilombos do Alagadiço, em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, o geógrafo Raphael Fernando Diniz encontrou durante seu trabalho de campo uma presença particularmente poderosa do Lobo-Guará. Em sua dissertação desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais, o pesquisador registra relatos e saberes etnozoológicos das comunidades estudadas, entre os quais o animal aparece descrito como “feiticeiro”.
Um raizeiro quilombola de 64 anos, da Comunidade Remanescente de Quilombos do Quilombo, contou a Diniz que o Lobo-Guará teria a capacidade de fazer uma espingarda falhar simplesmente olhando para ela. O pesquisador encontrou relatos semelhantes entre antigos caçadores, que afirmaram ter vivido situações nas quais, diante do animal, a arma “não dava fogo”. A repetição desses relatos é apontada por Diniz como um dos elementos relacionados à fama de “feiticeiro” atribuída ao Lobo-Guará naquele território.
Outro acontecimento registrado durante a pesquisa amplia essa percepção. Um tratorista teria matado um Lobo-Guará utilizando o arado da máquina. Algumas horas depois, os discos do equipamento teriam se soltado sem que, segundo o relato recolhido, fosse encontrada uma explicação para o ocorrido. Também aparece entre os moradores a crença de que matar o Lobo-Guará poderia trazer “atraso” à vida de quem provocou sua morte, atingindo aspectos financeiros, amorosos ou familiares.
Há ainda a chamada “baforada”. Segundo o raizeiro entrevistado por Diniz, o Lobo-Guará poderia chegar durante a noite a um galinheiro e lançar uma baforada que faria as galinhas caírem. Para persegui-lo, aparecem ainda referências aos cães chamados “prisunha”, considerados especialmente capazes de enfrentar ou localizar o animal.
Esses relatos constroem uma imagem na qual a força atribuída ao Lobo-Guará não depende apenas de seu corpo. Seu olhar interfere, sua presença produz acontecimentos e sua morte pode continuar repercutindo na vida de quem o matou. É nesse campo de relações que a palavra “feiticeiro”, utilizada pelos próprios moradores registrados por Diniz, ganha importância.
A pesquisa documenta também práticas medicinais e de proteção relacionadas a partes do corpo do Lobo-Guará. Neste projeto, escolho deliberadamente não identificar essas partes, suas finalidades específicas ou os procedimentos descritos. O interesse está em registrar a existência desses saberes e compreender a relação construída com o animal, sem oferecer informações que possam estimular sua captura ou morte.
É importante também manter a natureza desses documentos: Diniz registra relatos, crenças e conhecimentos encontrados durante seu trabalho de campo. O registro acadêmico comprova a existência desses relatos naquele contexto; não pretende comprovar como fenômenos objetivos os acontecimentos sobrenaturais narrados.
A relação com a lua cheia surgiu de outra maneira.
Desde o início desta investigação, procurei referências que relacionassem o Lobo-Guará à lua cheia. Encontrei essa associação repetida em conteúdos contemporâneos, mas sem contexto histórico ou uma fonte que permitisse determinar sua procedência. Por isso, até então, não havia base documental suficiente para incorporá-la à pesquisa.
O quadro mudou quando encontrei o estudo de Saulo Gonçalves Pereira, Felipe César Araújo Machado, Daniela Cristina Silva Borges, André Luiz Quagliatto Santos, Wanderson Alves Pereira e José Onício Rosa da Silva, publicado em 2019. O trabalho combinou levantamento bibliográfico com entrevistas realizadas com 30 moradores rurais de Lagamar, Presidente Olegário, Varjão de Minas, João Pinheiro, Lagoa Grande, Brasilândia e Paracatu, todos municípios do noroeste de Minas Gerais.
Quando perguntados se conheciam alguma história sobre o Lobo-Guará, 55% disseram nunca ter ouvido nenhuma; 38% mencionaram histórias relacionadas a ataques a galinheiros; e 7% apresentaram relatos menos frequentes. É entre estes últimos que os pesquisadores registraram histórias de que o Lobo-Guará espantaria onças, teria medo de cachorros, apareceria sempre em noites de lua cheia e de que, em determinada brincadeira de roda, seu nome não poderia ser pronunciado.
A lua cheia reaparece quando o questionário pergunta especificamente sobre histórias de caráter sobrenatural. Nesse caso, 24% dos entrevistados relataram conhecer alguma, e novamente foi registrada a afirmação de que o Lobo-Guará “aparece apenas em noite de lua cheia”. Os próprios autores interpretam essa associação como uma referência à figura do lobisomem.
Esse achado modifica uma questão que permanecia aberta na investigação. Agora existe uma fonte acadêmica que documenta a associação entre Lobo-Guará e lua cheia em um contexto territorial definido: moradores rurais do noroeste de Minas Gerais entrevistados pelos pesquisadores. A fonte, entretanto, não permite determinar a origem dessa associação, sua antiguidade ou o caminho pelo qual ela chegou às comunidades pesquisadas.
A aproximação feita pelos próprios autores com o lobisomem abre outra possibilidade de investigação: características culturais historicamente associadas ao lobo podem ter sido deslocadas para o Lobo-Guará em determinados contextos brasileiros. Por enquanto, essa possibilidade permanece como uma pergunta, não como uma conclusão.
A pesquisa encontrou também registros de crenças e práticas que podem resultar em perseguição ou violência contra o Lobo-Guará. Neste ponto, o interesse documental encontra um limite ético: nenhum saber pode ser apresentado de maneira que contribua para colocar o animal em risco.
A posição deste projeto é clara: qualquer prática que provoque perseguição, captura, mutilação ou morte do Lobo-Guará é condenável. A preservação das histórias e dos saberes relacionados à espécie precisa caminhar junto à preservação do próprio animal e de seu território.
As histórias e os saberes reunidos nesta investigação permanecem em pesquisa. Novos registros poderão ampliar, contradizer ou oferecer outros contextos ao que foi encontrado até aqui. Quando uma procedência ainda não pode ser estabelecida, a dúvida permanece como parte da própria pesquisa.
O Lobisomem possui extensa documentação no Brasil. Em Geografia dos Mitos Brasileiros, publicado originalmente em 1947, Luís da Câmara Cascudo reúne registros provenientes de diferentes regiões e mostra um ser muito menos uniforme do que aquele que hoje reconhecemos imediatamente pelo cinema. Mudam as causas da transformação, o corpo assumido, os percursos realizados durante a noite, aquilo que o ser procura e até as maneiras de interromper sua condição.
No Sul, Cascudo registra explicações relacionadas à transgressão e à predestinação. Ao recorrer, entre outras fontes, a Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, apresenta tradições em que relações consideradas proibidas poderiam levar à transformação e casos em que homens assumiam, nas noites de sexta-feira, a forma de cachorro ou porco, atacando aqueles que encontravam. Também registra a tradição, de procedência portuguesa, segundo a qual uma sucessão de sete filhos homens poderia predestinar um deles ao Lobisomem.
Nos registros reunidos para o Norte e o Nordeste, aparecem outras explicações. Em depoimentos recolhidos entre trabalhadores rurais, vaqueiros, extrativistas e outros interlocutores, Cascudo encontrou descrições do homem associado ao Lobisomem como pálido, debilitado ou doente. Na interpretação popular registrada pelo pesquisador, a transformação e a procura por sangue poderiam estar relacionadas àquilo que faltava àquele corpo. Cascudo percebe, assim, diferenças entre tradições mais associadas à predestinação ou ao castigo e outras em que a condição física do indivíduo participa da explicação.
A própria forma corporal varia. Nos registros reunidos por Cascudo aparecem lobos, cães, porcos e criaturas cuja identificação já não corresponde claramente a um único animal. Em uma descrição nordestina registrada por Gustavo Barroso, surge uma criatura de grandes orelhas e rosto meio humano, meio lupino. Em um relato recolhido pelo próprio Cascudo no Rio Grande do Norte, aparece um animal preto e peludo, aproximadamente do tamanho de um bezerro, com enormes orelhas. Em outro caso, a transformação permanece incompleta mesmo depois da morte: da cintura para cima, homem; da cintura para baixo, porco.
Em São Paulo, Cascudo recupera uma variante registrada por Cornélio Pires na qual o Lobisomem assume a aparência de um grande cachorro preto e percorre o mundo às sextas-feiras, procurando entrar em casas onde existam crianças ainda não batizadas. Na região do rio São Francisco, entre Bahia e Minas Gerais, registra também relatos em que o ser procura leitões. A documentação, portanto, não apresenta sequer uma única forma animal ou um único comportamento que permita definir o Lobisomem brasileiro.
O processo de transformação também possui uma corporalidade particular em alguns desses registros. Em uma das descrições reunidas por Cascudo, o homem vai a uma encruzilhada na noite de quinta para sexta-feira, tira a roupa, dá sete nós nela e rola pelo chão imitando o animal no qual irá se transformar. Depois percorre a noite naquela condição. Ao retornar à forma humana, joelhos e cotovelos aparecem feridos, interpretados como os pontos do corpo que sustentaram a corrida em quatro apoios.
Também não aparece como regra universal a conhecida bala de prata. Cascudo registra diferentes maneiras de romper o encantamento, inclusive fazendo o Lobisomem sangrar. Quando aparece uma bala preparada especialmente contra ele, há registro de sua associação à cera de vela de altar, e não necessariamente à prata.
O conjunto torna impossível estabelecer, a partir de Cascudo, um número fechado de “tipos de Lobisomem brasileiro”. O que encontramos são variantes territoriais e narrativas: muda a origem da condição, muda o corpo, muda o comportamento e muda a maneira de interromper a transformação. O homem-lobo bípede, violento, submetido à lua cheia e vulnerável à bala de prata pertence hoje a um senso comum extremamente reconhecível, fortemente consolidado pela literatura e pelo cinema, mas não resume aquilo que aparece na documentação brasileira.
Embora esteja profundamente associado ao Cerrado brasileiro, o Lobo-Guará (Chrysocyon brachyurus) não é uma espécie exclusivamente brasileira. Seu território ultrapassa as fronteiras políticas do país e ocupa uma extensa faixa da América do Sul. Um amplo estudo de distribuição publicado por Diego Queirolo e colaboradores reuniu registros da espécie em seis países: Brasil, Paraguai, Bolívia, Argentina, Peru e Uruguai.
Essa distribuição, entretanto, não é uniforme. O Brasil concentra a maior parte de sua área de ocorrência, enquanto Paraguai e as regiões norte e leste da Bolívia integram uma importante continuidade de sua distribuição continental. Na Argentina, o animal permanece presente sobretudo no norte, centro e leste do país. Um levantamento mais recente reuniu 1.051 novos registros argentinos entre 2009 e 2021, indicando uma área de ocupação estimada em aproximadamente 500 mil km².
No extremo ocidental de sua distribuição está o Peru. Ali sua presença é excepcionalmente localizada: o Lobo-Guará ocorre nas Pampas del Heath, no Parque Nacional Bahuaja Sonene, próximo à fronteira com a Bolívia. A região constitui uma formação de savana inserida em uma paisagem predominantemente amazônica e representa a única área peruana onde a espécie é registrada. Estudos de campo confirmaram sua presença por rastros, vocalizações, latrinas e armadilhas fotográficas, indicando uma população pequena e provavelmente dependente da conexão com a população boliviana vizinha.
Ao sul, a história é diferente. O estudo de Queirolo e colaboradores indica que o Lobo-Guará ocupava historicamente praticamente todo o Uruguai e avançava pela Argentina até aproximadamente os paralelos 37–39° Sul. Essa porção meridional de sua distribuição sofreu forte retração. Atualmente, os registros uruguaios são escassos, enquanto a presença argentina permanece consideravelmente mais ampla. Os pesquisadores relacionam essa retração no sul à combinação entre intensa pressão humana e fatores ambientais, como temperatura e umidade.
Atravessar essas fronteiras também significa encontrar outros nomes para o mesmo animal.
Na Argentina e no Paraguai, Chrysocyon brachyurus é amplamente conhecido como aguará guazú. Uma publicação oficial do governo argentino registra a expressão guarani com o significado de “raposa grande”. A denominação possui longa história: estudos argentinos lembram que o naturalista Félix de Azara já descrevia o animal utilizando a forma indígena Aouara Gouazou.
Na Bolívia, encontra-se também o nome borochi, além de denominações associadas às diferentes línguas e regiões onde o animal ocorre. Essa diversidade de nomes é importante porque mostra que a espécie não atravessa apenas diferentes ecossistemas. Ela atravessa também territórios linguísticos e culturais distintos.
E isso modifica a escala desta investigação.
O animal que observo a partir do Distrito Federal pertence a uma espécie cujo território não termina no Brasil. Um Lobo-Guará pode habitar os campos do Cerrado brasileiro, atravessar paisagens do Paraguai e da Bolívia, alcançar as savanas isoladas das Pampas del Heath, no Peru, ou ocupar ambientes argentinos muito ao sul da região onde esta investigação começou. São populações da mesma espécie submetidas a paisagens, histórias e relações humanas diferentes.
Essa ampliação territorial também abre uma segunda dimensão da pesquisa. Se o mesmo animal ocorre em diferentes países, as histórias construídas em torno dele não precisam ser as mesmas.
Na Argentina encontramos um primeiro indício importante. Em material institucional dedicado à conservação do aguará guazú, o governo argentino registra que, para alguns povos originários, entre eles Tobas e Mocovíes, o animal possui caráter sagrado e está envolvido por espiritualidade. A fonte, entretanto, não apresenta uma narrativa completa nem permite compreender em profundidade o significado dessa relação. Por isso, esse registro permanece aqui como uma pista para a continuidade da investigação, e não como uma história que possamos reconstruir a partir de informações insuficientes.
O mesmo cuidado vale para Paraguai, Bolívia e Peru. A presença de Chrysocyon brachyurus nesses territórios está documentada biologicamente, mas isso não autoriza supor que existam ali narrativas equivalentes às encontradas no Brasil. Para avançar, será necessário localizar fontes que permitam identificar quem conta, de qual território fala, em que contexto o Lobo-Guará aparece e o que efetivamente acontece na narrativa.
No Brasil, esse cuidado já revelou diferenças importantes. Entre os A’uwẽ/Xavante, Aihö’ubuni aparece sob forma humana e posteriormente assume a forma animal. Entre os Ofaié, o Lobo-Guará de A origem do mel transforma-se em perdiz. Nos Quilombos do Alagadiço, em Minas Gerais, encontramos outro campo de percepção: interlocutores atribuem ao animal capacidades extraordinárias e o denominam “feiticeiro”. São registros provenientes de comunidades, territórios e contextos distintos. Não constituem partes de uma mesma cosmologia e não devem ser reunidos como se contassem uma única história.
É justamente a diferença entre eles que interessa à investigação. O mesmo animal atravessa territórios humanos diferentes e não permanece culturalmente o mesmo.
Seguir o Lobo-Guará para além do Brasil, portanto, amplia o território da pergunta. A espécie possui ocorrência documentada em Brasil, Paraguai, Bolívia, Argentina e Peru, além de presença histórica no Uruguai. Agora interessa descobrir quais histórias existem nesses outros territórios, quais permanecem profundamente locais e se outras transformações corporais aparecem quando o Lobo-Guará é observado, nomeado e narrado por diferentes povos.
A principal referência para a distribuição continental é o artigo de Diego Queirolo et al., “Historical and current range of the Near Threatened maned wolf Chrysocyon brachyurus in South America”, publicado em Oryx 45(2), 2011, pp. 296–303, DOI 10.1017/S0030605310000372. O trabalho reuniu mais de mil registros validados para reconstruir a distribuição histórica e contemporânea da espécie.
Artigo completo — Cambridge University Press
Para a Argentina, o Sistema de Información de Biodiversidad da Administración de Parques Nacionales, que apresenta distribuição, habitat e comportamento da espécie e página oficial do governo argentino dedicada à conservação do aguará guazú.
Ficha do Aguará Guazú — Parques Nacionales da Argentina
o SERNANP — Servicio Nacional de Áreas Naturales Protegidas por el Estado, que confirma as Pampas del Heath como único território peruano onde a espécie é registrada e o levantamento de campo que confirmou sua presença por diferentes evidências.
Lobo-Guará nas Pampas del Heath — SERNANP Peru
Ao seguir os registros culturais do Lobo-Guará para além do Brasil, o Aguará Guasú aparece no Paraguai ocupando um lugar particular. Em Mitos y Leyendas Guaraníes, o escritor e pesquisador paraguaio Girala Yampey registra uma narrativa em que Aguará Guasú é apresentado como chefe dos cães.
Na história, Aguará Guasú associa-se a Eira e, posteriormente, a Teju Guasu na busca por alimento. A convivência é interrompida por um conflito entre os dois companheiros. Aguará Guasú intervém tentando apaziguar a disputa, mas Teju Guasu mata Eira e volta-se também contra ele. O desfecho relaciona esse acontecimento à perseguição de lagartos pelos cães e pelo aguará. Diferentemente das transformações corporais encontradas em outras narrativas desta investigação, aqui o animal permanece Aguará Guasú durante toda a história: sua singularidade está na posição que ocupa entre os outros animais — chefe dos cães e mediador de um conflito.
Na Argentina, outra relação aparece entre o aguará guazú e os cães. Materiais de conservação registram que, entre Qom/Tobas e Mocovíes, o animal possui caráter sagrado e está relacionado à espiritualidade; outras fontes de divulgação o apresentam ainda como protetor e “pai dos cães”. Esta última atribuição permanece, nesta investigação, como uma pista: antes de incorporá-la como narrativa tradicional, é necessário localizar sua origem etnográfica e compreender em que comunidade e contexto ela foi registrada.
A proximidade é provocadora: chefe dos cães no Paraguai; pai dos cães em registros argentinos. Ainda não há base suficiente para afirmar que as duas formulações pertençam a uma mesma tradição ou que uma derive da outra. Por isso, elas permanecem lado a lado, sem serem fundidas.
Também aparece na região outra camada cultural: a aproximação entre o aguará guazú e o lobisón. Nesse caso, estamos diante de um processo diferente, relacionado ao encontro entre repertórios europeus sobre o lobisomem e o corpo de um canídeo sul-americano. Essa associação não deve ser confundida com as tradições indígenas sobre o Aguará Guasú.
Por enquanto, Paraguai e Argentina são os territórios fora do Brasil em que esta investigação encontrou registros culturais suficientemente relevantes para avançar. Para Bolívia e Peru, a busca continua aberta: a presença do animal está documentada, mas ainda não encontrei uma narrativa tradicional verificável em que seja possível afirmar com segurança que o personagem seja Chrysocyon brachyurus.
O que surge desse levantamento não é uma narrativa continental única. É um animal que, ao atravessar territórios, entra em relações culturais diferentes e ocupa outros lugares dentro das histórias.
YAMPEY, Girala. Mitos y Leyendas Guaraníes. Assunção, 2003. — referência para a narrativa paraguaia do Aguará Guasú.